OPINIÃO

Os amigos são como poemas

A sorte é que os amigos encontram sempre motivos para nos reler. Quando corremos de lado para lado, são eles que nos dão chão. Casa é onde podemos descansar sem medo que nos desentendam. E onde voltamos sempre, com a inquietação tranquila com que se volta a um poema.

Há dias uma amiga telefonou-me e bastou-me ver o nome no visor para me sentir apanhada em falta. Recentemente submetida a uma operação muito complicada, tem estado a recuperar em casa, sozinha e com a nuvem de coisas que nos assaltam em momentos difíceis a rodopiar-lhe na alma. Percebi no lamento das horas vazias a companhia que um simples telefonema pode fazer. O telefonema que eu não fiz.

Nos últimos meses sinto com cada vez maior frequência esta sensação de falhar às pessoas. Claro que a minha cabeça está cheia de justificações. É a vida tramada que levamos, com o trabalho a consumir muitas horas.

Os filhos, as atividades, os imprevistos, o trânsito, o espaço que exigimos para nós mesmos. Ou o facto de que com a idade nos tornarmos mais seletivos, no sentido de sabermos que o tempo e os interesses não esticam, e tendermos a focar-nos no que sentimos ser prioritário.

Há, a somar a estas, uma explicação de que gosto particularmente. Não por me apaziguar a consciência, mas porque a considero honestamente verdadeira: não estou tanto com os amigos como gostaria porque tenho a vida cheia de gente boa, que me tem dado muito mais do que sou capaz de devolver.

Sempre achei que era uma pessoa de projetos certinhos e ideias feitas sobre o futuro, mas a vida encarregou-se de me trocar as voltas e no espaço de quatro anos fiz duas grandes mudanças, cada uma com duzentos quilómetros de permeio.

Procurei convencer-me daquilo que fui dizendo aos meus filhos à medida que os desinstalava da sua zona de conforto: as mudanças ampliam-nos o mundo. Mantemos tudo aquilo que já conhecemos e conquistámos, mas acrescentamos-lhe novas geografias, caras, sons e desafios.

As mudanças alargam inevitavelmente a nossa teia de relações. Gente que se nos dá e nos faz perceber a maravilha que é as pessoas serem fonte inesgotável de surpresas. Há quem passe a vida a queixar-se dos outros, da toxicidade do vizinho, de gente ruim que se pode apanhar em cada esquina. Por mim, sinto que por cada besta ou pessoa azeda que por aí anda existem mil interessantes e calorosas que acrescentam sentido à existência. É a minha profissão de fé na humanidade.

As coisas pequenas da vida são as mais misteriosas e nada é tão infinito como as relações que nos sustentam. As que duram e crescem connosco. Ou as que com o tempo se convertem em flashes que chegam para nos preencher e que num minuto de reencontro trazem à superfície a cumplicidade acumulada em nós. As que nos acompanham nas decisões ou nos momentos difíceis, vigilantes e conselheiras. Ou as divertidas, que nos imprimem sorrisos e nos fazem descobrir até o sentido de humor que não temos.

Mas às vezes, quando abrimos muitas janelas, mais ainda num tempo de rapidez como é o nosso, corremos o risco de nos desencontrarmos uns dos outros no caminho. De nos sentirmos itinerantes, nómadas em permanente conquista mas com alguma falta de casa. Ou ainda de simplesmente precisarmos de tempo para ficar sossegados na concha, numa solidão necessária para que os outros continuem a ter espaço em nós.

A sorte é que os amigos encontram sempre motivos para nos reler. Quando corremos de lado para lado, são eles que nos dão chão. Casa é onde podemos descansar sem medo que nos desentendam. E onde voltamos sempre, com a inquietação tranquila com que se volta a um poema.