Como o Ocidente se apaixonou por Buda

Quando Buda Shakya Muni questionou o sentido da vida através da meditação e do despertar estava longe de imaginar o impacto global dos ensinamentos. No Centro Budista do Porto o número de praticantes continua a aumentar.
Foto de Artur Machado / Global Imagens

Por Joana M. Soares

Tinha 19 anos. Vivia em Lisboa. As perguntas da idade inquietavam a mente. Respostas, não as encontrava em lado algum. “Era um bocado alérgica a religiões.” Viajou até à Bélgica. Foi naquele país que encontrou a calma para a sua inquietude. Os pontos finais para os pontos de interrogação.

Apaixonou-se. “Foi amor à primeira vista, com a diferença que durou a vida toda.” Tsering Paldron, de 63 anos, cabelo branco rente à cabeça, sorriso rasgado, olho claro, pele clara, monja budista, prefere ser designada praticante budista. Saiu de Portugal virgem de religião em 1973 para a Bélgica, regressou anos mais tarde comprometida com os ensinamentos de Buda. Encantada pelo budismo. “Budismo tibetano”, especifica.

O budismo vai despertando aqui e ali

O número de praticantes budistas por país é difícil de quantificar, pois depende do critério utilizado para se definir um budista. Em Portugal existem 20 mil, de acordo com o último censo. Mas há cada vez mais pessoas a procurar métodos meditativos, e o budismo “dá-nos ferramentas, um conhecimento e uma compreensão práticos que podem ser traduzidos para o quotidiano, mudando as nossas reações”.

A monja budista Tsering Paldron (esquerda) e Margarida Cardoso, que encontrou refúgio em Buda Shakya Muni (Artur Machado / Global Imagens)

Tsering diz que não nasceu Tsering mas que o budismo a “batizou” assim. É uma prática “atraente porque explica muitas coisas. Ao contrário de outras religiões, o budismo é racional, dá explicações e depende inteiramente de mudarmos os nossos comportamentos”. E simplifica: “Não se baseia na fé. A fé é a confiança.”

“Aquela sensação de chegar a casa”

O Centro Budista do Porto foi inaugurado há cinco anos. Aqui organizam-se retiros, há cursos de meditação, aulas de ioga e de chi kung, fazem-se manhãs zen. Tudo culpa de Margarida Cardoso, voz doce, que encontrou refúgio em Buda Skakya Muni (o buda que fundou a religião budista) para dissipar as suas inquietações.

Como é que foi descobrir o budismo num país marcadamente católico? “Não encontrava respostas no ambiente à minha volta, nem no catolicismo. O primeiro centro de ioga que abriu no Porto, em 1974, parecia uma coisa misteriosa. Aos 14 anos encontrei um artigo com pessoas a praticar ioga com posturas difíceis, viradas do avesso [risos]. A única posição que conseguia fazer era a de lótus. Comecei a prática de meditação, mas sem saber o que era isso. A primeira vez que li um artigo sobre budismo, tive aquela sensação de estar a chegar a casa, que era algo que fazia sentido.”

Agora, e pela primeira vez na história do Centro Budista do Porto, “há mais homens do que mulheres” num curso de meditação. “O público feminino é mais presente desde o início e vem mais à procura do autoconhecimento, da emoção. Há aqueles que experimentam e ficam, e os que vão e vêm. Cada vez mais há pessoas de ambos os sexos a procurar o centro e as práticas budistas. Há centenas por mês nos cursos. Maioritariamente entre os 30 e os 40 anos”, conta Margarida, ao mesmo tempo que revela haver já “workshops de meditação orientados para crianças”.

Tomar refúgio
É na Casa da Torre, em Vila Verde, Braga, que dez pessoas todos os verões tomam refúgio, ou seja, perante um mestre tibetano, participam numa cerimónia. Participam “se se quiserem envolver mais, ser budistas, reconhecer os ensinamentos de Buda”. Convertem-se? “Não se usa converter. Nem é muito aplicável no budismo. É mais ouvir conselhos”, clarifica Tsering.

Estes conselhos vão no sentido da trilogia budista: Dharma, Buda, Sanga. “Para um budista o objetivo final é tornar-se um Buda [despertar]. O Buda sempre disse que era um ser humano normal, não era profeta nem um ser extraordinário. Um ser humano, que tinha atualizado o seu potencial plenamente, despertou. A muito longo prazo, o objetivo de qualquer budista é isso. Dharma são todos os métodos para seguir esse caminho. Nos retiros explicam-se todos os aspetos, a lei verdadeira, a meditação. Sanga é a comunidade dos que praticam o budismo.”

a carregar vídeo

O Ioga é o intrometido do budismo
A meditação é uma prática budista, uma ferramenta que ajuda a acalmar e a deixar as reações negativas de lado. O ioga, ao contrário do que muitos pensam, não tem nada a ver com o budismo, embora possa roçar em alguns conceitos e, por isso, seja acolhido no Centro de Budismo do Porto.

Manuela Margaride, uma craque do ioga, 57 anos denunciados apenas pelos respeitosos cabelos brancos, conta: “Em termos filosóficos, o ioga é uma prática independente, mas pela sua conceção é associado ao hinduísmo.” Há dez anos que dá aulas de Hatha Yoga. Começou como aluna. “Não me identificava com a parte religiosa, mas pesquisei e dei com o portal da Tsering e com a meditação budista. Identifiquei-me de imediato e pude conciliar as duas coisas. Deixei a parte religiosa de fora, a do hinduísmo, e fiquei com a arte dos movimentos e da respiração.” E quem é que procura o ioga? “São vários tipos de pessoas, muitos como ginástica, para ganhar mais elasticidade, outros para relaxar, porque são agitados mentalmente. Há aqueles que querem experimentar, gostam e ficam, os que tenho desde que comecei a dar aulas, e os que vão e não voltam.”