O adeus às armas dos militares

Escolheram ser militares por vocação ou curiosidade, não por obrigação. Serviram o país, abdicaram de anos em que podiam estar a fazer carreiras promissoras fora da instituição militar e então acaba. E agora? O que acontece para que a transição para a vida civil seja um ribombar de tambores em vez de um tiro no pé?

Texto de Ana Pago

A têmpera de um homem ganha-se ao dia, palmo a palmo, e Vítor Antunes fez-se um homem melhor nos sete anos que passou na Força Aérea, não tem dúvidas disso. Por ele, nunca deixaria de ser militar. Não que tenha ficado descalço, como se costuma dizer. Cumpriu o contrato e ajudaram-no a sair com o plano de ir treinar cães na vida civil, como fez no seu tempo de serviço, ligado à equipa de demonstração cinotécnica. Mas então porque se sente ainda um polícia aéreo perdido? E aquela saudade, deuses? É como se vivesse entre o medo de não conseguir libertar-se – desde que o obrigaram a vir embora da tropa contra vontade – e um medo, muito pior, de esquecê-la lentamente.

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Ainda hoje Vítor Antunes considera a tropa o melhor que lhe aconteceu. (Foto: Filipe Amorim/Global Imagens)

«Saí em 2015 com uma grande mágoa por não poder continuar, porque eu tinha tudo, dei tudo. E então acaba o contrato e mandam-nos embora», conta o treinador canino, emocionado. Aos 33 anos, Vítor só pensava em como ia ser a sua vida fora da polícia aérea. E agora? O que faria quando já não tivesse que se barbear todos os dias, acordar às X horas, apresentar-se fardado e impecável para a formatura, seguir regras e ordens para tudo? «Gostava mesmo daquilo, ainda não encontrei o meu lugar. Custa-me estar num mundo em que as pessoas mal se falam, depois de tanto tempo a reger-me por princípios de honra, lealdade, coragem, camaradagem e sentido do dever.»

O CIOFE foi criado em 2008 para apoiar os militares e ex-militares do regime de contrato na sua fase de transição para a vida civil.

Felizmente, neste ponto despido e solitário da história entra o CIOFE – o Centro de Informação e Orientação para a Formação e o Emprego, alojado na Direção Geral de Recursos da Defesa Nacional (DGRDN). Criado em 2008 para apoiar os militares e ex-militares do regime de contrato na sua fase de transição para a vida civil, é ele que lhes deita a mão na reta final. «A nossa preocupação é que saiam numa trajetória de empregabilidade e não de desemprego, já que a absorção pelos quadros das Forças Armadas é pequena», explica João Rodrigues, psicólogo de formação e chefe da Divisão de Incentivos, Reinserção Profissional, Ensino e Qualificação.

Tem acontecido serem logo chamados na fase da instrução básica: quando os jovens entram para a instituição, vão lá dizer-lhes que estes serviços existem e estão ao dispor deles e até da própria estrutura militar. «Mesmo assim, ainda não chegamos a tantos quantos gostaríamos», reconhece Isabel Elias da Costa, responsável pelos Assuntos Estatutários de Ensino e Qualificação da DGRDN (que passou a integrar também a área de Incentivos e Reinserção Profissional, incluindo o CIOFE e todo o trabalho prático de implementação). Se calhar falta intensificar esta atividade, sugere. Ou articulá-la melhor com as próprias unidades militares. Ou sensibilizar quem lá está para a necessidade de transformar o potencial humano das Forças Armadas no potencial económico do país.

«A nossa preocupação é que saiam numa trajetória de empregabilidade e não de desemprego», diz João Rodrigues.

A Vítor Antunes, a capacidade de o CIOFE fazer tanto com tão poucos recursos deixa-o espantado. «Eles sabem as dificuldades por que passamos, então preparam-nos para não chegarmos sem nada cá fora», diz o ex-polícia aéreo. No seu caso, andava com uma G3 carregada, dava instrução de P38 (uma pistola de 9 mm), usava granadas; treinou cães militares, especializou-se em resolução de problemas comportamentais; somou três louvores individuais, um coletivo, uma menção honrosa e uma medalha por comportamento durante sete anos. Quando nem assim entrou para a GNR por estar na idade-limite, ajudaram-no a dar forma ao seu negócio de treino e cuidados caninos – Unique Dog – na Quinta do Conde, através do programa Defesa Empreende (ver caixa). «É como disse, ainda não encontrei o meu lugar. Mas os cães são a minha vida.»

Marina Silva saiu do Exército em 2014 para abrir o seu bar de tapas em Lisboa. (Foto: António Pedro Passos/Global Imagens)

QUEM TAMBÉM CONCORREU ao programa Defesa Empreende em 2015 foi Marina Silva, de 37 anos, licenciada em educação especial e reabilitação antes de entrar para o Exército, em 2008. «Saí quase com 34, em 2014, e passei o último ano a sofrer de saudosismo antecipado», conta a ex-militar do Regimento de Engenharia n.º 1 da Pontinha. Só quem passa pela experiência conhece a dureza de cortar estes laços emocionais. Marina não queria perder nada, nem sequer o aumento de competências académicas que as Forças Armadas dão como incentivo: fez segunda licenciatura em educação básica (no regime pós-laboral) e iniciou uma terceira em matemática. De volta à vida civil, estava mais do que preparada para ser empreendedora.

«Saí da minha tropa com uma indemnização de aproximadamente 13 mil euros, que daria para criar o meu próprio posto de trabalho ou, pelo menos, para arrancar com um sonho familiar», diz a antiga oficial, que acabou por abrir o bar de tapas MeetUs ao Carmo, Lisboa, em parceria com a irmã. «O processo iniciou-se com a candidatura detalhada do projeto, uma apresentação breve do mesmo, formação para desenvolver a ideia, nova apresentação e apoio individualizado, com uma bolsa de horas em áreas técnicas específicas necessárias.» Ao comunicar no Facebook que tinha um negócio, foi ainda o CIOFE o primeiro a pedir pormenores a Marina para poder divulgá-lo. «Aquele apoio que me deram foi incondicional.»

Ex-oficial de Cavalaria, José Moreira trocou os morteiros pela cerveja artesanal. (Foto: Octávio Passos/Global Imagens)

Incondicional e inestimável, acrescenta José Moreira, 32 anos, também ele ex-oficial do Exército (de Cavalaria, especialidade de morteiros) e também ele finalista do Defesa Empreende de 2016 que lhe permitiu elaborar, em conjunto com um tio, o plano de negócio para o bar de cerveja artesanal que lançaram em Amarante há quase dois meses. «Em 2013 fizemos um workshop, começámos a produzir cerveja em casa. Entretanto soube do programa numas ações de divulgação que o CIOFE fez pelas unidades e decidi inscrever-me», adianta, grato por esta mão que lhe estenderam desde a ideia inicial à fase de implementação. «Até hoje lhes ligo se precisar de acompanhamento.»

Os avanços da crise em 2010 trouxeram a José qualquer coisa que não sentira nos meses anteriores, isto era novo. Nem arranjava emprego na sua área (produção artística), nem queria emigrar. Descobriu o Exército tarde, como recurso. Soubesse ele e teria ido logo para a Academia Militar em vez de se licenciar no Politécnico de Bragança. «Assim não me ia embora ao fim de sete anos», justifica o antigo militar, que aproveitou a tropa para fazer alguns cursos na Escola Prática de Engenharia. Foi instrutor de sistema lança míssil, uma arma capaz de destruir carros de combate. Continuaria a fazer isso se o deixassem, mas é a competência que menos falta lhe faz como civil. «O meu conselho a quem está de saída é que procure o CIOFE, a sério. Eles ajudam-nos em tudo.»

E todo este apoio prestado apesar de a equipa do CIOFE contar essencialmente com três pessoas: duas psicólogas e uma assistente técnica.

E ISTO, SUBLINHA JOÃO RODRIGUES, apesar de a equipa contar essencialmente com três pessoas – duas psicólogas e uma assistente técnica –, após ele próprio ter saído para chefiar a Divisão de Incentivos e Reinserção Profissional. «Queremos fazer muita coisa, mas somos forçosamente limitados pelos recursos que temos», assume o responsável, à espera de ver aprovado o novo regulamento de incentivos para explicar ao cidadão quais as vantagens de prestar serviço militar e, ao fazê-lo, com o que é que contam durante e após a sua prestação. Outra utopia, já a ser operacionalizada aos poucos por aquilo a que chama «equipa do futuro», é que grande parte da formação dada pelas Forças Armadas seja passível de certificação e transposição para o mercado de trabalho civil.

Claro que não se exige que um operador de peças de artilharia antiaérea faça o mesmo cá fora (José Moreira teria alguma dificuldade em justificar a preparação da tal arma que destrói carros de combate). Porém, se todas as funções exigem horas de experiência, e havendo sinergias com o mercado de trabalho – exemplo dos condutores militares ou cozinheiros da Marinha –, certificar as competências que têm ajuda a ver as que faltam para (re)qualificar a pessoa. «Além de que a empregabilidade depende muito da vontade dos indivíduos», lembra Isabel Elias da Costa, da Direção Geral de Recursos da Defesa Nacional. Também a trabalham com eles: não serve de nada haver ofertas de trabalho se depois não forem às entrevistas e resistirem à mudança. «Ter atitude é tudo.»

E isso, por sorte, é coisa que não falta a Edson Castro e Alex Mendonça, ambos de 29 anos: vieram da última missão no Kosovo fixados em fazer-fazer-fazer, à paraquedista, e não descansaram enquanto não abriram a sua Boutique do Automóvel em Corroios, Setúbal. «Entrámos para os paraquedistas em 2008, conhecemo-nos na instrução, e ainda antes de terminarem os sete anos já andávamos à procura de um negócio que pudéssemos explorar os dois», conta Edson. Quanto mais pensavam nisso, mais lhes agradava continuarem juntos como civis a fazer fosse o que fosse, pensariam nisso mais tarde. Tudo menos perderem-se de vista.

«Estávamos nós no Kosovo em 2014/15, na reta final do contrato, quando um camarada em Portugal viu o anúncio do CIOFE no clube de praças e nos avisou», recorda Alex. Nas ruas, havia lavagens de automóveis onde quer que passassem: e se tentassem aquilo como ponto de partida? De repente, foi como se saltassem de um avião e viessem por ali abaixo direitos ao alvo: não se detiveram diante de nada. «O que fazemos melhor é trabalho policial, no entanto saímos sem idade de concorrer ao que quer que seja nesse sentido», observa Edson. Impunha-se avançar. Partirem para outra. «No CIOFE ensinam-nos a nunca ficar à espera que as coisas caiam do céu, temos de ser nós a mexer-nos para ir ter com elas», reforça Alex. Quer dizer que continuam a luta.

A Boutique do Automóvel de Edson e Alex é um exemplo de como a vontade pode tudo. (Foto: Álvaro Isidoro/Global Imagens)

2017: OS NÚMEROS DA TRANSIÇÃO PARA A VIDA CIVIL

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Era o NÚMERO DE INSCRITOS que o CIOFE contabilizava a 31 de dezembro do ano passado. Destes, a maioria pertencia ao Exército (74%), seguido da Força Aérea (17%) e da Marinha (9%). Além de o Exército ter mais efetivos, a Força Aérea e Marinha dispõem de duas microestruturas de apoio à transição com que o CIOFE colabora de perto.

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ÁREAS DE ATUAÇÃO pautam a missão do CIOFE: informar sobre as formas de acesso à formação escolar e profissional, o regulamento de incentivos e o quadro legal de proteção no desemprego; orientar na escolha de um projeto tendo em conta as características e formação de cada um; fomento do empreendedorismo e dos subsídios para pagamento de propinas; divulgação de ofertas de emprego e emissão de declarações de equiparação que permitem facilitar o acesso à administração pública.

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Foram as AÇÕES DE DIVULGAÇÃO dos serviços do CIOFE em 2017, cerca de sete vezes mais do que em 2013. O que se procura aqui é criar e divulgar oportunidades de qualificação e emprego junto dos militares e ex-militares do regime de contrato.

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A esta divulgação somaram-se ainda 101 AÇÕES DE ESCLARECIMENTO: 61 dedicadas ao regulamento de incentivos – abrangendo 3065 militares – e 40 dedicadas ao quadro legal da proteção no desemprego, que chegaram a 1186 militares.

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VISUALIZAÇÕES DA PÁGINA DO CIOFE traduziram-se, na prática, em 64 922 sessões (período que um utilizador fica ativamente envolvido com o website). A atividade do CIOFE encerra um conjunto de iniciativas que geram um ecossistema de qualificação, formação e empregabilidade na ligação entre as Forças Armadas e a sociedade.

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UNIDADES DE FORMAÇÃO GRATUITA E DE CURTA DURAÇÃO (25 e 50 horas), pertencentes ao Catálogo Nacional de Qualificações, totalizaram 600 horas e abrangeram 254 formandos.

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MILITARES E EX-MILITARES DO REGIME DE CONTRATO beneficiaram de ações de formação comparticipadas em diversas áreas de qualificação, no âmbito do programa Defesa Qualifica.

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Destes, muitos escolheram a formação inicial de formadores para obter o certificado de competências pedagógicas (22% das CANDIDATURAS), segurança privada (18%), condução profissional (18%), estética (4%), desporto (3%) e informática (2%).

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EUROS DE INVESTIMENTO TOTAL na comparticipação da qualificação implicou um custo médio de 206 euros por formando.

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MILITARES que prestam serviço nas unidades situadas no eixo do Entroncamento – a representar 31% das candidaturas apresentadas – tiveram uma propina comparticipada para completarem a escolaridade mínima obrigatória através do ensino recorrente.

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NOVAS CANDIDATURAS ao subsídio para pagamento de propinas, ao nível da qualificação do ensino superior, deveram-se às ações de divulgação que a equipa do CIOFE realizou em diversas unidades e bases militares, um pouco por todo o país.

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OFERTAS DE EMPREGO divulgadas em 2017 (contra 657 em 2014) refletem já o levantamento da restrição de candidatura aos concursos públicos, alargando o leque de oportunidades de emprego aos militares e ex-militares do regime de contrato.

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CANDIDATURAS, com as ideias de negócio de 40 militares, foram ainda recolhidas na primeira fase do programa Defesa Empreende (3.ª edição). Após irem a júri em Lisboa e no Porto, foram aprovados 25 projetos com destino à capacitação dos promotores.

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Finda esta segunda fase, composta por 12 dias de formação, decorreram novamente sessões de júri que resultaram na passagem de 12 PROJETOS para a fase seguinte do programa – de apoio técnico especializado.

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PROJETOS DE NEGÓCIO foi quanto estas três edições do programa Defesa Empreende ajudaram a implementar, sendo que 26 já se encontram em atividade – através da constituição jurídica da empresa ou já a prestar serviços – e 4 estão ainda em fase de preparação.

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