Na Grécia dos fogos, todos querem ajudar: até quando toca aos animais

Por Ana Tulha, enviada JN/Notícias Magazine a Mati

Junto à areia de Silver Beach, a praia onde, na segunda-feira (23 de julho), 26 pessoas morreram encurraladas pelo fogo (uma parte das 87 vítimas dos incêndios que devastaram os arredores de Atenas), Elizabeth Salpea, de 39 anos, vai-se aplicando nos cuidados médicos.

Tem remédios, soro fisiológico, até uma mesa de trabalho improvisada. Mas não trata pessoas. Elizabeth veio pelos animais, as vítimas mais anónimas da tragédia grega. Quando nos encontramos com ela, está a tratar um gato de pêlo castanho claro, encontrado numa casa abandonada, com queimaduras no nariz, na barriga e nas patas.

Mas há muitos outros. Apesar de não terem sido divulgados números oficiais, os veterinários que percorrem Mati, epicentro da catástrofe, garantem que os fogos fizeram também um sem fim de vítimas entre os companheiros de quatro patas. Até porque, no desespero da fuga, muitos deixaram os animais para trás.

“Andamos pelas ruas e pelas casas destruídas, a tentar encontrar animais. Infelizmente, muitos já estão mortos. Depois, tentamos tratar dos que estão feridos”, explica Elizabeth. Se forem ferimentos graves, reencaminham-nos para os hospitais veterinários de Atenas. No final da semana, segundo a imprensa grega, estas unidades já tinham recebido mais de 70 animais em estado grave.

Elizabeth esteve em Mati pela primeira na terça-feira, o dia que se seguiu à catástrofe. Vive a 50 quilómetros desta aldeia costeira, mas assim que viu a tragédia soube que tinha de arranjar maneira de ajudar. “Vim para deixar água e comida. Ia tratando aqueles que encontrava na rua, mas, mesmo os que sobreviveram, estão muito assustados”.

Depois, percebeu que podia fazer mais: “Decidi voltar para os tratar nesta mesa, onde tenho mais condições.”

E quais são os cuidados médicos de que estes animais precisam? “Primeiro vaporizamos as áreas feridas, depois aplicamos um spray antissético e normalmente damos um antibiótico”, enumera, a descrever o tratamento que acaba de aplicar ao felino que tem no colo.

Numa aldeia que começa agora a dar os primeiros suspiros no regresso à vida, a catástrofe tem trazido ao de cima o lado mais solidário das gentes de Mati – há quem ajude a providenciar comida e produtos de higiene às vítimas dos fogos, há quem ponha a máscara e saia à rua para ir varrer os destroços, há até quem se faça ao mar para ajudar na procura de vítimas.

Neste uníssono de solidariedade generalizada, os animais também têm lugar. Elizabeth que o diga.