OPINIÃO

Mudar o mundo. Uma # de cada vez

#metoo e #whitewednesdays aproveitam o ecossistema democrático da Internet para unir as mulheres em protesto. E o mundo não vai voltar a ser o mesmo, pelo menos para metade dele.

Venho falar‑vos das duas hashtags feministas do momento: #metoo e #whitewednesdays. De um lado, no Ocidente, falam mulheres que guardaram silêncio anos a fio sobre serem maltratadas por homens com mais poder do que elas. Do outro, no Irão, mulheres libertam os cabelos, depois de anos presos sob o véu islâmico, obrigatório por lei depois da Revolução de 1979. As quartas-feiras são o dia escolhido pelo movimento para andarem sem véu ou escolherem um branco, em sinal de protesto.

Em ambos, em comum, a liberdade. A simples. De poder ser‑se quem se é. Por exemplo, estando ao pé de um homem, não temer pela integridade física ou psicológica, não estar sempre a tentar perceber quais são as suas intenções, estar‑se basicamente nas tintas, livre e disponível para pensar. Ou andar de cabeça e cabelos descobertos.

Entre as muitas mulheres que partilharam imagens sem véu na página de Facebook My Stealthy Freedom (a minha liberdade secreta), há as que mostram coragem, como Vida Movahed de cabeça descoberta e um véu branco num pau, empoleirada numa caixa de eletricidade num dos mais movimentados cruzamentos de Teerão – foi presa durante várias semanas, depois dela foram mais 29.

E há uma comovente: a mãe que foi passear com a filha à beira-mar em Kish (Island). «Passeámos nas rochas e sentimos a brisa fresca através dos nossos cabelos. É pedir muito?»

Murro no estômago. Percebem porque falo de liberdades básicas? Não são raras as discussões que tenho sobre como o véu islâmico é um ataque a essas liberdades. «Mas e se elas escolherem usa‑lo?», perguntam os menos radicais. Costumo responder que mesmo assim têm de ter consciência de que é uma menorização, uma infantilização, uma subalternização.

E que seja aos olhos de Deus ou ditada por uma religião, não muda nada. A questão do véu, aliás, nem sempre foi ponto de honra das mulheres do Irão, que preferiram distanciar‑se da «obsessão do Ocidente com o hijab», como explica Nahid Siamdoust, no The New York Times, e compensavam «minimizando o seu significado».

Em 2014, a jornalista iraniana exilada nos EUA Masih Alinejad fundou o movimento My Stealthy Freedom, e rapidamente as mulheres iranianas começaram a enviar fotografias de subversão capilar.Hoje tem mais de um milhão de seguidoras e levou as feministas iranianas a perceber que a luta contra esta obrigatoriedade era muito mais visual e poderosa do que outras, igualmente justas.

Numa época de soundbytes, o véu é o símbolo perfeito de discriminação. «Não estamos a lutar contra um pedaço de pano», disse Alinejad ao Times. «Estamos a lutar pela dignidade. Se não escolhemos o que pomos na cabeça, não vão deixar-nos tomar conta do que está dentro dela. » Para já, o regime iraniano, apesar de reformista, não sabe bem como lidar com o assunto – até porque diz precisamente que o véu existe para proteger a dignidade das mulheres.

Entretanto, desde que estes protestos começaram, em 2014, já prendeu e admoestou 3,6 milhões. A luta destas mulheres, todas elas, já está a mudar o mundo, num ecossistema que facilita o espalhar das mensagens e une o protesto. E elas vão continuar. Uma # de cada vez.