OPINIÃO

Mónica Antunes: «A luta das mulheres da Triumph é a luta de todos os trabalhadores»

Mónica ergueu o punho e foi à luta pelos seus direitos quando a empresa lhe virou as costas. Hoje é o Dia Internacional da Mulher. Nunca como agora se falou tanto do seu papel e dos seus direitos. Oprah winfrey disse que chegou o tempo delas. Falámos com cinco mulheres com percursos, histórias e escolhas diferentes para perceber que sim. O tempo chegou.

Texto de Ana Patrícia Cardoso | Fotografia de Jorge Simão e Paulo Spranger/Global Imagens

Pouco mais de um mês depois de ter sido decretada a insolvência da Têxtil Gramax Internacional (ex‑Triumph), as 463 trabalhadoras que fizeram parte do despedimento coletivo começam a ter a vida regularizada.

«Hoje (23 de fevereiro), recebemos o primeiro mês completo do subsídio de desemprego», diz Mónica Antunes, 42 anos, sindicalista e uma das porta‑vozes da vigília de vinte dias à porta da fábrica de lingerie.

Mónica tem o seu caminho bem traçado. «Nunca gostei de ser costureira. Gosto mesmo é de Recursos Humanos. Vou voltar a estudar.» Entrou para a Triumph em 2000, com vinte e poucos anos e a filha Bianca, de 2, ao colo.

«Éramos uma empresa familiar. Tínhamos mesmo doze casais, que agora ficaram no desemprego. Eles e elas.»

«Fui para desenrascar. Tive o Tiago dois anos mais tarde e acabei por ir ficando. As condições eram boas e pagavam bem para a época. A minha tia e a minha prima também lá estavam.» Passaram 18 anos. Como ela, a maioria das funcionárias trabalhava ali há muito tempo. «Éramos uma empresa familiar. Tínhamos mesmo doze casais, que agora ficaram no desemprego. Eles e elas.»

Todo o processo começou em 2015 quando a empresa anunciou que a sede em Portugal já não era viável e ia mudar‑se para a Ásia. Em agosto de 2016, a venda à Gramax foi oficializada e, durante um ano, continuou a haver trabalho, o que levou a que muitas pessoas ainda acreditassem que tudo iria ficar na mesma. «Eu nunca acreditei. A Triumph injetou produção durante doze meses certinhos. Depois, em setembro de 2017, a produção caiu a pique».

Uma fábrica que produzia 60 a 120 mil peças por dia passou a produzir 20. «Parece novela mas não é. As pessoas passaram a levar livros, croché… E o pior é que não podíamos falar umas com as outras. Era proibido interagir. Das oito da manhã às cinco da tarde, assim.» Em finais de outubro, Mónica entrou de baixa para tratar uma tendinite no braço direito.

Com uma capacidade de organização notável, cerca de 200 mulheres, em meia hora, definiram turnos de quatro horas, trinta pessoas por vez.

«Em novembro, recebemos menos cinco dias e fomos avisadas de que não haveria subsídio de Natal. Sabíamos que sem subsídio não havia ordenado.» As coisas começaram a piorar e as colegas ligavam a Mónica todos os dias a chorar, desesperadas, sem saber o que fazer.
Por ser reivindicativa, sofreu represálias das chefias que chegaram a colocá‑la a trabalhar virada para uma parede.

«Sempre fui assim, não conseguia virar costas a uma colega sem saber que estava bem». Sem conseguir ficar mais tempo em casa, voltou ao trabalho em janeiro, antes de terminar o tratamento. No dia 5, um camião tentou levar matéria ‑prima e as operárias bloquearam o caminho.

Não saía material ou maquinaria da empresa. «Num leilão ou venda, é o que nos vai pagar o que nos devem.» Com uma capacidade de organização notável, cerca de 200 mulheres, em meia hora, definiram turnos de quatro horas, trinta pessoas por vez. «Houve uma grande união e um grande espírito de sacrifício porque não deixámos os nossos postos de trabalho. Todos os dias picámos o cartão.»

Apanharam dias de chuva forte. Valeu ‑lhes as tendas disponibilizadas pela Câmara Municipal, a ajuda dos bombeiros, dos escuteiros e da população. O momento mais difícil, que ainda assombra Mónica, aconteceu a 15 de janeiro quando a administração acabou com a refeição.

Fez‑se uma sopa à pressa e era tudo o que tinham para comer. Ninguém falava e a maioria das mulheres não conseguiu conter as lágrimas. Para Mónica era impensável como «num país desenvolvido, em pleno século, XXI às portas de uma grande cidade, ali estávamos, com uma tigela na mão».

Foram vinte dias de muito cansaço, «sobretudo mental», porque não sabíamos qual seria o desfecho. Mónica sempre contou com o apoio da família e os filhos chegaram a acompanha‑la nos turnos da noite. «O que me dava alento era chegar a casa e o meu filho abraçar‑me e dizer‑me “és a minha guerreira, mãe”. Eu chorava no banho para ninguém ver mas eles davam‑me toda a força para acordar de manhã e continuar a luta.» No dia 25 de janeiro, com a insolvência decretada, uma batalha foi vencida.

«Ninguém dava nada por nós e vejam o que conseguimos. A nossa luta não era só para nós. Espero que o nosso exemplo faça que os portugueses comecem a acordar porque todos temos direitos. A luta das mulheres da Triumph é a luta de todos os trabalhadores.»

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