Moda: novos rostos que já dão cartas

Texto de Maria João Monteiro

Em julho, a revista Forbes apontava Portugal como forte candidato ao título de próxima capital mundial da moda e, enumerava, entre os argumentos, a “exportação de algumas das caras mais requisitadas do mercado”. A internacionalização de modelos portugueses, que notabilizou nomes como Sara Sampaio ou Luís Borges, tem vindo a ganhar força. É, muitas vezes, fora de portas que os manequins levam o primeiro grande empurrão para apostar na moda.

Maria Miguel, bracarense de 17 anos, é um bom exemplo de sucesso que começou numa passarela internacional. Em 2017, estreou-se à grande e à francesa – literalmente -, tornando-se a primeira portuguesa a desfilar para a Yves Saint Laurent, em Paris. Além de abrir o desfile primavera/verão 2018, assinou um contrato exclusivo com a marca e fotografou a campanha em Nova Iorque. Anteriormente, havia vencido o L’Agence Go Top Model 2016, concurso que a integrou na L’Agence Lisboa e permitiu que se familiarizasse com o mundo da moda.

Em 2017, Maria Miguel tornou-se a primeira portuguesa a desfilar para a Yves Saint Laurent, em Paris

Foi, contudo, ao chamar a atenção de Anthony Vaccarello, diretor criativo da YSL, que a sua carreira arrancou. “Lidei com ritmos de trabalho e pessoas diferentes e aprendi um pouco com todos”, recorda Maria Miguel. Desde então, voltou a desfilar para a Saint Laurent, representou a Chanel e ganhou o Globo de Ouro para Melhor Modelo Feminina em 2017. Mais recentemente, participou em 23 desfiles nas semanas da moda de Londres, Paris, Milão e Nova Iorque.

Foto: Bartek Szmigulski

Para trás, ficou um sonho igualmente exigente – ser jogadora de futebol. “Foi uma decisão que tive de tomar quando escolhi a moda”, reconhece. “Agora só faço uns treinos com o meu pai.” Adepta fervorosa do Sporting, a manequim abdicou do desporto-rei para proteger as pernas longas que, a par do rosto fino e delicado, são a sua imagem de marca. Para já, foca-se em “construir uma carreira o mais longa e bem-sucedida possível”.

O sucesso que nasce de fora para dentro
A permanente renovação da moda e a contínua busca por novos rostos motiva a realização de concursos de talentos por parte das agências. É o caso do Elite Model Look, o mais prestigiado concurso internacional que lançou modelos como Gisele Bünchen. Em 2016, o certame decorreu em Lisboa e levou à final a portuguesa Zara Bicha, destacada no lote final de 15 dos 62 finalistas.

A jovem, de 17 anos, estreou-se, depois, na ModaLisboa e tem vindo a construir um currículo sólido com sessões fotográficas para marcas como Calvin Klein, criadores como Luís Carvalho e Luís Onofre e um editorial para a Elle Portugal.

Além disso, apareceu num artigo da Forbes que tratava a exportação de modelos como indústria crescente em Portugal. A publicação salientava “a aparência exótica e a personalidade energética” de Zara, que tem raízes maternas na Guiné-Bissau. Ao longo do curto percurso, a modelo aprendeu a cultivar uma identidade muito própria e a exibir os traços e as medidas com orgulho. “Ninguém é igual a ninguém e a beleza está mesmo aí.”

“Ninguém é igual a ninguém e a beleza está mesmo aí” (Zara Bicha, modelo)

Zara Bicha inspira-se no trabalho de modelos como Candice Swanepoel, manequim sul-africana que desfila pela Victoria’s Secret desde 2007, tendo-se tornado “anjo” da VS em 2010. Passos que, de resto, gostaria de seguir. Fora da passarela, a jovem manequim gostaria de representar casas como Versace ou Balmain.

Também no masculino a moda portuguesa brilha lá fora. A extensão do mercado internacional permite o aumento da demanda de talentos como Joaquim Arnell. O modelo, de 18 anos, agenciado pela We Are Models, havia desfilado algumas vezes na ModaLisboa e no Portugal Fashion quando se estreou na cobiçada passarela da Prada em 2016. Acontecimento que foi, aliás, um ponto de viragem. “Tive a oportunidade de trabalhar com profissionais ‘high-fashion’, o que me deu uma perspetiva completamente diferente”, revela, destacando “o ritmo e a exposição”.

Filho de mãe cabo-verdiana e pai sueco, Joaquim sobressai pelo rosto angelical e pela cabeleira escultural e tem somado desfiles não só para a Prada como para outras marcas de peso como Fendi, Dolce & Gabbana e J.W. Anderson. Apesar de trabalhar em cidades como Paris e Londres, é em Itália que é mais requisitado – prova disso é a relação com a Prada que já dura há quatro estações.

Confessa-se admirador do trabalho de Alexander McQueen e de Raf Simons, ex-diretor criativo da Christian Dior e atual responsável criativo da Calvin Klein com quem gostaria de colaborar. Joaquim acabou o ensino secundário recentemente e não esconde o interesse pelo design gráfico, mas ressalva a aposta na moda. “Encaro esta profissão com seriedade e faço-o a 100%”, diz o jovem, que já foi considerado um dos “modelos a seguir” pelo site Models.com.

Também da We Are Models vem Rachide Embaló, 20 anos, representado por 11 agências em todo o mundo. O jovem modelo tem tido presença discreta cá dentro, mas tem construído um portefólio invejável lá fora. No último ano, desfilou para nomes como Balmain, Hermès, Salvatore Ferragamo, Thom Browne e Kenzo nas passarelas de Paris e Milão. “Não foi nada fácil, porque envolveu adaptação e um esforço muito grande”, admite.

Além do contacto com outras línguas e culturas, a exigência de horários e o volume de trabalho obrigam a alguma disciplina. Na apresentação de propostas primavera/verão 2019, Rachide participou em oito desfiles, três dos quais decorreram no mesmo dia.

O modelo, que se destaca pela altura e pela postura galantes, tem feito, também, campanhas para marcas como Zara ou Benetton. A campanha da Loewe é a mais recente conquista de Rachide e foi fotografada por Steven Meise, fotógrafo que descobriu a supermodelo canadiana Linda Evangelista e trabalhou para marcas como Valentino e Versace. Inspirado pelos irmãos Fernando e Armando Cabral, Rachide já dá cartas lá fora, mas tem muitos sonhos por cumprir – um deles é, confessa, “trabalhar com Giorgio Armani”.

Uma rampa de lançamento para designers
Nem só da exportação de novos rostos se faz a moda portuguesa. Cá dentro, os designers emergentes merecem particular atenção da indústria, que fomenta a criatividade e o profissionalismo através de iniciativas como a plataforma Bloom do Portugal Fashion.

Fundado em 2010 para mostrar o trabalho de jovens criadores e facilitar a integração no mercado de trabalho, o Bloom tem um caráter “performativo”, expondo a roupa não em passarela, mas vestida em forma de “instalação viva”. “A estrutura não é rígida para que tudo seja encarado de forma mais experimental e descontraída”, salienta o coordenador Paulo Cravo.

Apesar do ambiente informal que reúne finalistas de várias escolas de moda do país, o Bloom serve de rampa de lançamento aos designers que, a serem bem-sucedidos, são chamados para as edições seguintes. Foi o caso de Pedro Neto, 23 anos, que venceu o concurso de jovens criadores e se estreou a solo na plataforma em 2014.

O jovem designer afirma que a história de arte é a sua grande inspiração. “Todas as minhas coleções se inspiram num artista ou num quadro”, aponta, exemplificando com o trabalho da primavera/verão 2016, a partir da obra de Robert Rauschenberg. Pedro descreve a marca como “dramática, luxuosa e contemporânea”.

Após expor no Bloom – proeza que repetiu quatro vezes – e de ir à London Fashion Week, o designer fundou a BOX32, ateliê e loja sediados no Porto, onde trabalha como stylist e produtor de moda. A par dos sócios, o stylist Nelson Vieira e a designer gráfica Ângela Metelo, Pedro Neto faz atendimento personalizado para marcas.

A produção para clientes veio suprir a falta de retorno das coleções próprias. “É preciso um grande investimento na coleção, campanha, distribuição”, justifica. “Ou tens muitas possibilidades ou fica difícil.” Pedro refere que a utilização de roupas por parte de celebridades serve a divulgação, mas é “tida como publicidade e não paga”. “Muitos designers conciliam coleções com outros trabalhos paralelos”, atira.

É esse o malabarismo que Carla Pontes, 32 anos, faz todos os dias. Além de manter a marca própria, dá formação na Modatex e divide com o irmão o Carpo Studio, ateliê de design e arquitetura em Barcelos. “A dificuldade está na procura de um consumidor final”, considera, reforçando estar numa profissão “que requer muita persistência”. Mas admite que o processo se torna mais fácil devido a eventos como o Portugal Fashion ou a ModaLisboa, “excelentes meios de divulgação para quem está a começar”.

Foi em 2012 que Carla Pontes expôs o seu trabalho no Bloom, após estagiar no ateliê de Nuno Baltazar e integrar a sua equipa posteriormente. Depois de regressar ao Bloom várias vezes, passou à passarela principal há quatro edições, onde apresenta criações que primam pela “tridimensionalidade, minimalismo e apuramento das formas”. Enquanto formadora, incentiva os alunos a descobrir a sua identidade mais do que a aprender a técnica, “porque esse pode ser o elemento de distinção”.

É a ideia de autossustentabilidade das marcas que Paulo Cravo quer promover. Para isso, desde o início incentiva os jovens criadores a pensar em estratégias de venda. “Não é preciso vender a primeira coleção, mas é preciso potenciar as vendas de forma gradual”, faz notar, destacando a importância de um trabalho contínuo e da criação de uma coleção comercial para acompanhar a coleção principal. “Não se pode pensar apenas no desfile”, sublinha o designer.

Enquanto coordenador do Bloom, Paulo Cravo tem fomentado uma maior proximidade com os designers na execução das coleções e crescimento das marcas. Afinal, é a evolução dos criadores que decide o seu regresso à plataforma. “O Bloom não é um dado adquirido – é preciso mostrar trabalho sério, válido e profissional.”