Mo Gawdat: «Achamos que podemos comprar felicidade. Não podemos»

O engenheiro egípcio passou por gigantes mundiais, como a Microsoft e a Google. Rico, bem-sucedido, casado e com dois filhos, sentia­‑se infeliz. Decidiu perceber porquê. O processo levou­‑o a criar uma equação, que aplicou à vida. Treze anos depois, a fórmula foi posta à prova com a morte de um filho, aos 21 anos. Desde então, Gawdat vive de forma simples, sem expetativas, feliz e tentando cumprir aquela que diz ser a sua missão: fazer mil milhões de pessoas felizes. Nesta entrevista, o autor do livro A Equação da Felicidade falou sobre os conceitos errados dos tempos em que vivemos, a complexidade do cérebro e as lições que Ali lhe deixou.

Entrevista Alexandra Pedro | Fotografia Gerardo Santos/Global Imagens

A felicidade que sentia em jovem foi desaparecendo à medida que a sua vida profissional evoluía. Com quase 30 anos de carreira e passagens pela IBM Egito, Microsoft, Google, Google X, casado, com dois filhos e muito dinheiro para gastar, Mo Gawdat dizia­‑se infeliz.

O descontentamento chegou ao ponto de, numa noite, ir à internet e com apenas dois cliques comprar dois Rolls Royce vintage. «Porquê? Porque podia. E porque estava a tentar desesperadamente preencher um vazio dentro de mim», explica no bestseller A Equação da Felicidade.

Conta, no livro, que era uma pessoa agressiva e arrogante. Decidiu então «encarar a infelicidade». Baseou­‑se em livros, tal como já tinha feito para aprender a fazer mosaicos, carpintaria, tocar guitarra ou falar alemão. Foi também a palestras sobre felicidade, viu vários documentários e aplicou­‑lhe uma análise de engenharia, que é como quem diz, criou um algoritmo e traduziu­‑o para uma equação.

Em 2014, Mo Gawdat deparou­‑se com o derradeiro teste à sua fórmula: o seu filho Ali morreu. A partir daí entregou­‑se à partilha da sua fórmula e criou o movimento internacional #onebillionhappy.

É difícil explicar uma das ideias centrais do seu livro a pessoas que lutam todos os dias para sobreviver, porque diz coisas como «quanto mais dinheiro temos, menos felizes nos tornamos». Pode explicar a sua teoria?
É óbvio que se não tiver dinheiro suficiente para satisfazer as suas necessidades básicas é muito difícil. Se alguém, por exemplo, sofrer de uma dor crónica ou estiver doente, isso não o ajudará a ser feliz. Mas a verdade é que muitos de nós temos comida suficiente, temos relações positivas, temos alguma segurança e mesmo assim não estamos bem. Aí é que temos de começar a questionar­‑nos: porque não consigo ser feliz?

A felicidade é muito simples e pode ser resumida desta forma: é igual ou superior à diferença entre acontecimentos da sua vida e as suas expetativas do que a vida deve ser.

E não conseguimos porquê?
Achamos que conseguimos comprar felicidade. É um conceito errado, baseado na fórmula americana de tornar tudo um produto, mesmo no caso da felicidade. Roupas, carros, férias: isso não é felicidade, é uma forma de substituir a infelicidade. Quando sonha com alguma coisa durante muito tempo e acaba por comprá­‑la, aquilo vai fazê­‑lo feliz durante um dia, dois dias. Depois puf, vai querer outra coisa.

O que é verdadeiramente a felicidade?
Essa é a pergunta mais importante. Quis encontrar a definição nos livros, mas não consegui. Então fui pelo caminho científico. Comecei por fazer uma lista com momentos da minha vida em que me senti feliz. Cruzei gráficos para tentar encontrar um sentimento comum em todos eles e fiquei surpreendido. A felicidade é muito simples e pode ser resumida desta forma: é igual ou superior à diferença entre acontecimentos da sua vida e as suas expetativas do que a vida deve ser. Portanto, a infelicidade não vem tanto do que lhe acontece de bom ou mau, mas das expetativas que tem e não são correspondidas. A infelicidade é o seu cérebro a resolver a equação da felicidade e a garantir que está tudo bem. Se não estiver, ele avisa­‑a através de uma emoção: infelicidade, preocupação ou vergonha. Se um acontecimento iguala as suas expetativas o seu cérebro faz algo espetacular: cala­‑se. Não se queixa de nada e quando isso acontece é porque está feliz.

Se não pensarmos nas coisas que nos deixam infelizes, somos felizes. Mas, no minuto em que o divertimento acabar, voltamos às inquietações e à infelicidade.

Mas há uma verdadeira definição?
A felicidade tem uma definição interessante, é um contentamento pacífico que se sente interiormente e nos faz querer viver assim.

E o dinheiro não traz essa paz?
Dinheiro, prazer e divertimento são, nos tempos modernos, a substituição da alegria. E, num curto espaço de tempo, permite que não pense nas coisas que o deixam infeliz. Ora, se não pensarmos nas coisas que nos deixam infelizes, somos felizes. Mas, no minuto em que o divertimento acabar, voltamos às inquietações e à infelicidade.

Diz também no livro que há uma diferença entre dor e sofrimento. Qual é?
Isto é fundamental para perceber a infelicidade. A dor é um mecanismo de sobrevivência. Está relacionada com a dor física e emocional. A física é, por exemplo, quando corta um dedo. A dor emocional é quando está preocupada com o exame de amanhã. Ambas tentam fazer que se mantenha em segurança. Se cortar o dedo, desvia a mão e se estiver preocupada com o exame vai sentar­‑se e estudar. A dor molda­‑nos para sermos melhores no mundo. É a nossa resposta a algo que acontece. O sofrimento é diferente. É uma escolha. Imagine que cortou o dedo no último sábado, consegue replicar o que sentiu? Voltar a sentir aquela dor? Não. Esqueceu­‑a. A dor emocional é diferente. Por exemplo, o seu namorado disse alguma coisa aborrecida no sábado passado, nesse dia pensa «ele já não me ama». No domingo diz: «vai deixar­‑me». Segunda, começa a pensar «vou ficar sozinha para o resto da minha vida». Terça: «odeio­‑o». E a história do sábado passado pode persegui­‑la para o resto da vida.

Perder um filho é o mais difícil que pode acontecer a alguém. Mas isto é a dor. Sofrimento é sentar­‑me na minha sala e chorar para o resto da vida.

Quando o seu filho morreu, foi a equação da felicidade que o «salvou» de se tornar numa pessoa infeliz?
Quando ele morreu, eu já sabia a diferença entre dor e sofrimento. E a dor é enorme. Perder um filho é o mais difícil que pode acontecer a alguém. Mas isto é a dor. Sofrimento é sentar­‑me na minha sala e chorar para o resto da vida. Culpar­‑me por tê­‑lo levado para aquele hospital. Pensar nas quatro horas em que ele esteve a ser reanimado, sem sucesso. Nenhum desses pensamentos vai mudar o que aconteceu.

Como reagiu?
Comecei por perguntar­‑me: o que posso fazer agora? Ele deixou­‑nos, não posso trazê­‑lo de volta, mas posso aceitar isto e ter uma nova realidade na minha vida. Pensei então que podia partilhar este modelo. Dezassete dias depois de o Ali ter morrido, sentei­‑me para escrever a fórmula. Não só queria escrevê­‑la, como também revê­‑la porque o meu cérebro estava a enganar­‑me e a deixar­‑me infeliz. A partir daí, o que mais queria era partilhar a equação com dez mil pessoas para torná­‑las um pouco mais felizes.

Tornou­‑se uma missão?
Sim. Seis semanas depois de ter lançado o livro, a minha mensagem já tinha chegado a oitenta mil pessoas. Comecei a perceber que a partida do Ali não tinha sido em vão. Acredito que talvez tenha sido para desencadear isto. Não é suposto sermos infelizes. Pelo contrário.

Está orgulhoso de ter conseguido chegar a tanta gente?

Não é orgulhoso. Sinto­‑me abençoado e honrado por ter conseguido fazer a diferença. Tenho recebido centenas de mensagens todas as semanas de pessoas que me dizem: «mudou a minha vida».

Recebo mensagens do mundo inteiro. Até de pessoas que pensavam em suicídio e decidiram lutar. Isto é fantástico, porque uma vida vivida na infelicidade é uma vida desperdiçada.

Mensagens do mundo inteiro?
Do mundo inteiro e com histórias incríveis. Desde «perdi o meu filho e você fez­‑me sobreviver» até pessoas que pensavam em suicídio e decidiram lutar. Isto é fantástico, porque uma vida vivida na infelicidade é uma vida desperdiçada.

Mas tem agora um novo objetivo.
Quando isto aconteceu [chegar às 80 mil pessoas] a missão foi renovada. Agora queremos chegar a mil milhões de pessoas. Percebi que a maior felicidade que posso dar às pessoas não é fazer com que elas encontrem a sua felicidade, mas fazê­‑las sentir o que eu sinto. Imagine: se cada um de nós mudar alguém tornando­‑o mais feliz, isso é altamente positivo. Comecei por dizer às pessoas que têm de fazer três coisas para conseguirmos a missão #onebillionhappy.

Quais são?
A primeira: compreender que é suposto ser feliz, tal como é suposto ser saudável. A segunda: como espera ser feliz? Espera ser musculado sem ir ao ginásio? Não. Portanto, invista na felicidade. Quatro vezes por semana, uma hora por dia, veja um vídeo, leia um livro, reúna os amigos e fale sobre felicidade. Quando encontrar a felicidade, chega a terceira: partilha com mais pessoas e sente a empatia por querer mais gente feliz.

Cerca de 97 por cento das vezes em que sente que não está feliz não há razão para isso. Se viver a sua vida a acreditar e a compreender a verdade, nada vai perturbá­‑la.

A felicidade passa por treinar a mente?
Eu diria que a felicidade é encontrar a verdade. Porque vemos as coisas de forma tão negativa? Porque estamos treinados para sermos infelizes. Existem seis grandes ilusões e conceitos em que acreditamos no mundo moderno. Estes conceitos podem trazer sucesso, mas também infelicidade. Basicamente, temos caraterísticas no nosso cérebro que nos fazem ver a parte negativa da realidade. Cerca de 97 por cento das vezes em que sente que não está feliz não há razão para isso. Se viver a sua vida a acreditar e a compreender a verdade, nada vai perturbá­‑la.

Diz também no livro que só iria encontrar o seu filho Ali quando o seu trabalho estivesse terminado. Quando acha que isso vai acontecer?
Não sei. Sei que vou ver o Ali de novo.

O Ali ensinou­‑lhe o quê?
No livro está algo que toca a mim e ao Ali. É sobre olhar para a vida como um videojogo. Quando jogava com o Ali, começava o nível e ia para a direita o mais depressa que conseguia para acabar o nível. O Ali ia para a esquerda e ia para o sítio onde havia explosões e fumo. Eu perguntava: «Ali, porque estás a ir para aí? O fim do nível está aqui!» Ele respondia: «Pai, para quê chegar ao fim do nível? Quero jogar.» Nós esquecemo­‑nos disso. Esquecemo­‑nos que não queremos chegar ao fim da nossa vida. O fim é quando tu morres, certo? O Ali ia para a parte difícil e isto é o que os verdadeiros jogadores fazem. O propósito da vida é isto: o jogador tornar­‑se o melhor que conseguir. Não quer mudar o jogo, não o quer restaurar, não quer chegar ao fim e nem sequer quer ganhar. Um jogador quer apenas tornar­‑se o melhor jogador. E como consegue? Jogando. Jogando. Jogando.

Atualmente, tenho uma vida bastante simples. Esta é a T‑shirt mais cara que tenho, custou-me 29 dólares [cerca de 26 euros]. As minhas calças têm um ano.

Tornou­‑se então um jogador?
Agora sou um jogador da vida.

Quando foi a última vez que se sentiu triste?
É errado não se sentir triste porque, como já disse, a dor emocional é importante. O truque é ser rápido para voltar a ser feliz. Quando sentir que alguma coisa está mal, não aceite. Todos nos sentimos infelizes, mas não se habitue a isso. Todas as nossas emoções são geradas por pensamentos. Ódio é um pensamento. Raiva, insegurança, medo, tudo são pensamentos. Por exemplo, se o seu namorado não sorriu ao voltar do trabalho isso é um acontecimento. O pensamento pode ser: «Ele já não me ama.» E o pensamento pode não ser verdade.

Continua a ter sonhos de luxo, como comprar o último modelo de um carro?
Atualmente, tenho uma vida bastante simples. Esta é a T‑shirt mais cara que tenho, custou-me 29 dólares [cerca de 26 euros]. As minhas calças têm um ano. Uso o meu dinheiro para dar força a esta missão e viajar para conhecer pessoas. Claro que por vezes olho para um carro e digo: «Uau! É tão lindo.» Mas também percebo que tem vários custos associados: precisa de ser registado, de ter um parque, de manutenção. Quando preciso de um carro, alugo. Não acredito que as coisas materiais sejam realmente importantes para mim.

Agora que saí da Google estou a escrever cinco livros ao mesmo tempo: sobre felicidade no trabalho, outras maneiras de olhar para a fórmula da felicidade e por que acontecem coisas inesperadas na vida

Mas tem sonhos?
O meu sonho é viver como é suposto viver. O meu verdadeiro sonho é tornar­‑me o melhor jogador que conseguir.

E ainda tem os dois Rolls Royce vintage?
Esses dois carros continuam lá. Acredito que um dia quando a missão #onebillion­happy for alcançada ­– e as pessoas souberem da existência desses carros – vou fazer um grande leilão e angariar muito dinheiro para solidariedade.

Quer continuar a escrever e a descobrir mais sobre felicidade?
Agora que saí da Google estou a escrever cinco livros ao mesmo tempo. Estou a escrever sobre felicidade no trabalho, outras maneiras de olhar para a fórmula da felicidade e por que acontecem coisas inesperadas na vida. Estou, durante a maioria do meu tempo, a tentar cumprir a missão. Aproveito e peço a todas as pessoas que lerem este artigo para fazerem as três coisas essenciais para chegarmos ao objetivo: dar prioridade à felicidade, investir nela e ter empatia para a partilhar.

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