A minha casa é o parque de campismo

Texto: Sara Dias Oliveira | Fotografias: Maria João Gala/Global Imagens

Uma semana antes da Páscoa, Angélica Sousa, 78 anos, fechou a porta de casa no Bonfim, Porto, e regressou à habitação de madeira com jardim no parque de campismo de Árvore, Vila do Conde, onde ficará até outubro ou novembro, dependendo do tempo.

A casa de betão tornou-se enorme depois da morte do marido, responsável pelo seu amor ao campismo, já lá vão 43 anos. Calção, chinelo no pé, t-shirt por cima do biquíni, Angélica anda pelo jardim onde está Zico, o gato. Gosta de andar na terra, tratar das plantas, pintar pedrinhas, decorar árvores. Lá dentro, cozinha e sala na mesma divisão, casa de banho, arrumos, um quarto.

“A casa do Bonfim é muito grande, estou lá sozinha e chateio-me. Aqui sinto-me à vontade, não tenho de fechar a porta à chave. Traz-me paz, vejo árvores e o mar”, confessa.

Vai à piscina do parque, à esplanada, às festas de verão. Já não anda com malas carregadas. “Tenho tudo aqui, roupas de inverno, roupas de verão.” A sua sala é local de convívio. As amigas entram para ver a novela ou fazer croché. “Passámos noites tão agradáveis.” No parque, perde a noção do tempo e não se importa. “Não sei a quantas ando, tenho de ir ao calendário e ao telemóvel ver que dia é”, diz bem-disposta Angélica, reformada de gaspear sapatos.

Viviana Ferreira fez um desenho de como queria que a tenda ficasse. Seguiram-se alguns melhoramentos como o lambril no teto. Está habituada a fazer campismo desde que nasceu e, no verão passado, passou a licença de maternidade na tenda que tem há cinco anos no parque de campismo de Esmoriz, Ovar, a 200 metros a pé da praia.

Viviana, Hélder Pereira, o marido, e o filho, Francisco, de 15 meses, chegaram ao parque à noite, de banho tomado, depois de um dia de trabalho. Ela, 36 anos, técnica de gestão, ele, 38 anos, administrativo de uma empresa, contam as horas para fechar a porta do apartamento em Gondomar. Tiram os relógios mal colocam o pé na tenda com três quartos, sala de estar com toalha de croché na mesa, móveis antigos.

“Não há horas para nada, aqui é sem regras”, informa Viviana. “É o nosso paraíso, é o nosso cantinho para fugir dos dias de trabalho”, acrescenta Hélder.

No parque, há outra família, um grupo de amigos do parque no Facebook, convívios, grelhados partilhados. O casal valoriza esse ambiente que não tem ao pé da porta. Hélder explica. “Há um espírito de comunidade e de ajuda que nos atrai bastante, transporta-nos para esse espírito que se perdeu muito.”

As férias são passadas no parque, com exceção de uma semana, tal como todos os fins de semana do ano. Os utensílios de bebé estão em duplicado na tenda. “Fugimos da rotina, carregamos baterias”, diz Hélder. Uma tenda com o conforto de casa, um parque com supermercado, café, restaurante, sala de leitura e de internet, de convívio, parque infantil, e com animação, bailes e música ao fim de semana.

É uma segunda renda, é certo, que compensa quando se procura sossego. O metro quadrado fica por 0,27 cêntimos, a conta pode ficar por 1200 euros por ano para quem aluga em permanência, com água e luz incluídos. O pequeno Francisco dorme depois de almoço, a louça já está lavada, no exterior da tenda está um pufe para apanhar sol, brinquedos, um grelhador.

Um pouco mais a sul, António Baladares, 71 anos, reformado da metalurgia, rega o jardim de malmequeres e rosas junto a um dos balneários do parque de campismo da Torreira, Murtosa, com três hectares e capacidade para cerca de 500 campistas. Fá-lo com gosto.

De sua casa, em Esgueira, Aveiro, trouxe a máquina da relva, comprou uma mangueira nova, e plantou azevinho. “Vou-me ocupando por aqui.” Luísa Matos, a mulher, foi às compras de bicicleta, enquanto o neto António, de oito anos, vê bonecada na televisão com antena parabólica. A sala de estar tem fotografias, aparelhagem musical, sofá com almofadas. Na rulote ficam os quartos.

Luísa caprichou na decoração da casa de férias de julho a setembro, e dos fins de semana de inverno. Rede de pesca que se tornou cortina, orquídeas em vasos, tapetes, uma placa de cerâmica com “Família Baladares” à porta da tenda na Rua da Boa Vontade. “Em agosto passamos mais tempo aqui do que em casa.” Uma tenda de férias, um refúgio de inverno.

O campismo foi ideia de Luísa que convenceu António. “Em casa estávamos muito parados, sobretudo ao domingo”, confessa Luísa, de 64 anos, reformada, antiga encarregada na fábrica de cerâmica Aleluia. A praia fica a 15 minutos a pé, a ria mais perto, a dez. Luísa faz caminhadas até ao mar, António costuma dormir a sesta e jogar cartas com o neto. “Temos muitos amigos, fazemos tainadas”, refere Luísa. António concorda. “Descansa-se mais, alivia-se o stresse. Aos fins de semana de inverno fugimos para aqui. Parece um apartamento.” Luísa assina por baixo.

Jardins, gatos, cebolas, banhos de mar
Maria da Graça, 52 anos, animadora sociocultural, procura sossego no parque de campismo de Esmoriz. No pequeno jardim frente ao atrelado, que é uma casa com dois quartos, plantou uma cerejeira, um limoeiro, mirtilos, ameixas, alecrim, cebolas, azevinho, morangos. “É pequeno mas tem cá tudo.” Ocupa-se a tirar ervas, regar, podar. Os gatos que andam por ali já fazem parte da família. Os pais, Hermínia e José Miguel, reformados, vieram de visita.

Desde há sete anos, no tempo livre, faz a viagem desde Vila Nova de Gaia. “É uma segunda casa, a casa de praia. Preciso deste cantinho para repor energias”, garante. Agosto é passado por inteiro no parque. Longe da rotina, com passeios pela praia, banhos de mar. Por vezes, traz o computador e o tablet. “Vou-me entretendo. É uma terapia”, assegura. E a chuva que cai é uma melodia. “Estou sozinha e não ouço ninguém.”

A hora de almoço aproxima-se e Alice Salgado vai cozinhar peixinhos da horta na cozinha que mobilou no avançado colado à rulote. O marido, António, que trata dos morangos que crescem nos vasos, foi com o carro à vistoria. Alice, 68 anos, sente-se livre. No dia anterior, estava na praia a olhar o mar às oito e meia da noite.

“É uma liberdade. Em casa, estamos fechados entre quatro paredes, só vemos a luz através das janelas”, comenta, habituada ao campismo desde que veio de Angola, em 1975. Há seis anos voltou à base, ao parque de campismo da Torreira. Colocou a televisão em cima do frigorífico, comprou uma máquina de café, um fogão elétrico.

Agora, reformada como administrativa do serviço de Psiquiatria do Hospital de Aveiro, passa mais tempo na rulote, onde podem dormir seis pessoas, do que na casa de Estarreja, onde já lhe custa subir e descer escadas. Mesmo com o susto que apanhou num inverno. “Um temporal muito grande, e foi tudo, o avançado… tive de comprar outro”, recorda. Não desistiu. O frio também não incomoda. “Liga-se o aquecedor e está-se aqui cinco estrelas.”

Alice insiste no prazer de uma casa sem paredes de cimento. “Estar aqui traz-me liberdade. Por vezes, juntamo-nos e comemos em casa uns dos outros.” Levanta-se antes das oito, toma banho num dos balneários, o marido vai buscar pão. Sem tempo regulado. “É a primeira casa, passo menos tempo em Estarreja.”

Como uma família, moradores na mesma rua
Os parques de campismo estão mais modernos, organizam festas, investem em infraestruturas. E os chamados “residentes” têm brio nas suas casas sem tijolos que apetrecham com frigoríficos, micro-ondas, televisões, antenas parabólicas, jardins, esplanadas, grelhadores, espreguiçadeiras, ventoinhas.

Em 2016, Diana Lopes apresentou o estudo “O Campismo em Portugal: Uma Perspetiva à Luz da Economia das Experiências”, dissertação de mestrado do curso de Gestão e Planeamento em Turismo da Universidade de Aveiro. Aplicou um inquérito a 50 campistas entre março e agosto de 2016, em três parques, e concluiu que a localização e a zona envolvente são os elementos mais importantes na hora da escolha. As atividades e a tradição familiar são menos valorizadas.

A pesquisa não incidiu sobre os residentes, mas Diana Lopes tem algumas ideias sobre essa realidade. Há razões para ter uma “casa” no campismo.

“O sentido de comunidade (interação social), o facto, por exemplo, de ‘morar’ perto de uma praia (funciona quase como uma casa de praia móvel e menos dispendiosa) ou de uma zona mais aprazível e fora da zona habitual de residência e de trabalho, o contacto com a natureza, a paisagem envolvente, a sensação de liberdade que proporciona, e ser uma forma de escapar ao stresse (é quase um antidepressivo) parecem-me as principais razões”, aponta.

A interação social surge como uma das principais motivações. “Os residentes conhecem-se todos, sabem os nomes uns dos outros, bem como do staff do parque, é realmente como uma família.” Os parques abertos todo o ano acabam por funcionar como uma comunidade. “Vê-se que os campistas residentes têm brio nas suas ‘casas móveis’.”

É o que acontece com António Pimenta, 70 anos, reformado dos desenhos de moldes para a indústria de plástico, e a mulher, Filomena Cesário, 69 anos, doméstica e costureira, que já sabem o caminho de olhos fechados. De casa, em Albergaria-a-Velha, ao parque de campismo da Torreira são 23 rotundas e 35 minutos de carro. São 34 anos de campismo em casal.

O casal tem uma rulote com duas camas, um avançado que é uma sala de estar com televisão e móveis de madeira, um sofá que pode servir de cama, mais uma esplanada com mesa, cadeiras e plantas, e uma pequena cozinha ao lado com frigorífico e micro-ondas. “É um T3 com rodas”, brinca António, que gosta de passar o tempo a pescar na ria ou no mar.

O verão é passado na Torreira. No inverno, todos os fins de semana. É uma segunda casa. “É tão bom. Aqui temos tudo ao pé da porta, não precisamos do carro”, realça Filomena, que costurou as cortinas e tratou da decoração. “Tenho sempre que fazer, limpar, trabalhos de costura, malha, só vou lá fora se tiver que ir”, diz Filomena, que tem uma pequena máquina de costura na rulote. “Aqui tudo se transforma”, atira o marido.

Rita Pimenta Teixeira, a neta de sete anos, goza as férias no campismo com os avós. Os vizinhos que passam cumprimentam o casal. Há laços que se foram criando e, por vezes, refeições em conjunto. “Somos praticamente uma família e, ao mesmo tempo, se queremos estar isolados vimos para aqui”. António faz contas à vida sem arrependimentos. Uma mensalidade custa cerca de 138 euros, com luz e água. “Aos bocados aos bocados, temos aqui muito dinheiro, mas não se nota.”

Refúgio no meio da natureza
Seis hectares em socalcos com tendas e rulotes até ao Douro. As ruas têm sentido único, entra-se por um lado, sai-se pelo outro. Rente ao rio, uma marina, piscinas, bar, autocaravanas, balneários. João Fonseca, antigo guarda-redes internacional por Portugal, um bebé do Mar nascido no Leixões que depois foi para o Benfica e para o F. C. Porto – campeão nacional em ambos, jogou ainda em vários outros clubes -, conhece bem o parque de campismo Campidouro, em Medas, Gondomar.

Com um interregno de uma década, há dez anos que mantém a rotina. Os quatro meses de verão e os fins de semana de inverno são passados com a mulher na rulote com terraço virado para o Douro. “Vemos o rio quando as árvores estão carecas.”. Todas as casas têm árvores. O também ex-treinador de futebol, de 70 anos, tem tudo o que precisa. Conforto e sossego, acima de tudo. “É uma segunda casa, é o nosso refúgio.” E nem no tempo frio perde encanto. “No outono, vemos a mudança das cores da natureza.” Aprecia as mudanças de clima. E são 35 minutos da porta de sua casa à porta do Campidouro, empreendimento privado.

À sexta-feira, ao final da tarde, há zumba na piscina. João é o professor e já abalou lá para baixo. Ricardo Ribeiro aproveita o verão para trabalhar no restaurante do Campidouro, onde mora com João numa rulote transformada em casa a quatro mãos num dos socalcos com jardim, terraço, sofás ao ar livre.

“É uma casa autêntica, há ar condicionado, o conforto que temos em casa”, frisa Ricardo, professor de danças de salão. O campismo não foi um amor à primeira vista, experimentou e percebeu. “Podemos estar aqui no meio da natureza, longe da azáfama”. Agora, o verão é passado no parque, e o resto do tempo faz a viagem desde a Maia, quase dia sim, dia não.

As fronteiras entre turismo, lazer e o quotidiano tendem a esbater-se. “As próprias motivações turísticas estão a mudar. As pessoas procuram, cada vez mais, experiências memoráveis, o regresso às raízes, a autenticidade dos produtos consumidos, e tendem a abandonar as ofertas turísticas padronizadas, mais associadas ao sol e à praia em destinos massificados”, adianta Filipa Brandão, professora do Departamento de Economia, Gestão, Engenharia Industrial e Turismo da Universidade de Aveiro, orientadora da tese de Diana Lopes.

Acampar encaixa-se nas novas preferências. “No caso das pessoas com mais idade, penso que o sentimento de comunidade, de conviver, de contactar permanentemente com outras pessoas, evitando a alienação das grandes cidades, podem ser algumas das principais motivações”, defende.

Armando Soares passou 25 anos a ir para o Algarve. Depois comprou uma tenda, um atrelado, a seguir uma rulote, e há oito anos alugou um espaço no campismo de Árvore onde passa boa parte do ano, três meses quase seguidos no verão, as sextas e sábados do ano todo.

Aos 68 anos, ligado aos Bombeiros de Leça do Balio, onde mora num apartamento T3, gosta de ir comprar peixe, caminhar pelo passadiço, voltar ao parque e preparar o fogareiro que colocou junto a uma parede que decorou com peças de louça que trouxe dos países que visitou. A mulher, Maria do Carmo, vai chegar e o almoçarão sardinhas assadas na tenda da prima, ali ao lado. “Será a despedida das sardinhas.” A rulote tem água quente. “É um condomínio fechado, adoramos conviver, temos o nosso grupinho.” Conversam, jogam cartas, dão uns passeios. “Estamos totalmente à vontade, é um refúgio”, afirma.

Arnaldo Fonseca, um dos responsáveis pelo parque vila-condense, com 868 alvéolos, acesso direto à praia por um passadiço de madeira, aparcamento à porta das tendas e rulotes, garante que “ou se gosta ou não se gosta, não há meio-termo”.

Ter uma casa no parque é um modo de vida. Em agosto, o parque chega a ter quatro mil campistas. “Somos uma freguesia em agosto.” Quem ali vive quase em permanência paga uma média de 800 euros por ano em três prestações.

Armando Pinto, 69 anos, faz parte da direção do parque de campismo de Esmoriz, como voluntário. De jovem de mochila às costas tornou-se campista já lá vão 35 anos. Tem uma rulote com aquecimento disponível para as duas filhas e quatro netos. Prática e confortável, como a mulher, Adriana Medon, gosta. “Aqui há uma sensação de liberdade, a antítese de estarmos isolados. Temos o mínimo de condições para uma vida calma e em convívio com a natureza”, sublinha Armando, mais um amante do campismo.