Medina: “Se veem uma coisa mal feita, os meus filhos perguntam: ‘Pai, porque construíste isto?'”

Por Alexandra Tavares-Teles | Fotos: Reinaldo Rodrigues/Global Imagens

Entrevista às dez da manhã, nos Paços do Concelho, o edifício neoclássico na Baixa que é a casa da Câmara Municipal de Lisboa. Pontual, disponível, simpático e sorridente. Gosta das manhãs. Gosta da ação e de gerir interesses conflituantes, o pão nosso de cada dia do cargo. “Bicicletas e trotinetas que conflituam com os automobilistas e com peões” ou como queremos ter tudo – “ir jantar fora até tarde, mas desde que o restaurante não fique por debaixo da nossa casa”. A agenda do dia está cheia. Não é fácil gerir dias cheios com a paternidade assumida “em absoluto”. Fala dos filhos, de sete e cinco anos. “Gostava de lhes dar mais.” Leva-os à escola todos os dias, mas não consegue estar em casa a horas de lhes dar as boas noites. Os miúdos percebem. Gostam de brincar no gabinete amplo com vista para o Museu do Dinheiro. E já perceberam. O pai é o “presidente da Junta”.

Vamos começar pela casa onde nasceu em 1973, na freguesia de Aldoar, no Porto. Uma casa com um grande jardim, a casa dos avós paternos.
A casa onde sempre vivi até vir para Lisboa. Com esse jardim, que foi palco fundamental de muitas brincadeiras, ao longo de muitos anos. Miúdo da escola primária, adolescente do ensino e, mais tarde, jovem universitário, era naquele jardim que juntava os meus amigos.

O que sonhava ser o miúdo da primária?
Na pré-escola terei dito que queria ser presidente da República. É um relato que não confirmo (risos).

Faz sentido, cresceu numa família muito politizada, numa casa onde o debate político era vivo e diário. Entre os pais, Edgar Correia e Helena Medina, ambos militantes comunistas, e os avós antifascistas, mas já em processo de afastamento do PCP. Como olhava para esses debates?
O grande diálogo era entre o meu pai e o meu avô. Convergiam no perigo do fascismo, mas o debate sobre os dias da atualidade era muito intenso. Os meus avós nunca foram do PS, mas era claro que pendiam para a esquerda plural, democrática e cosmopolita.

Em que momento se apercebe de que já escolhera um lado?
Entre as posições do PCP e o socialismo progressista, cedo percebi com clareza que me identificava muito mais com o segundo. Havia uma linguagem e uma agressividade que chocavam com o meu quotidiano. Vivi sempre em meios financeiramente desafogados, com amigos nesses meios e era-me difícil olhar para esses amigos como filhos dos capitalistas opressores. Com o profundo respeito pelas pessoas que pertenceram e pertencem ao PCP, e consciente do papel que teve na democracia do país, nunca ponderei uma aproximação ao partido.

O seu pai, então na clandestinidade, soube pelo jornal “O Século” do nascimento do filho, através de um anúncio codificado, colocado pela sua mãe. Com que idade lhe contaram esta história?
De forma precisa no dia em que fiz 18 anos. Recebi do meu pai um envelope com uma fotocópia de uma página de classificados do jornal, do dia 13 ou 14 de março [nasceu a 10 de março].

Clandestinidade. Em criança, que entendimento tinha dessa palavra?
Tive desde miúdo uma ideia muito precisa desse período da história. Os meus avós e os meus pais nada me esconderam, relataram sempre o que era a sociedade naquele tempo. Tinha, portanto, a consciência de como o Mundo poderia ser diferente. Não tinha, porém, a imagem do sofrimento por que passaram. A família vivia muito feliz, em diálogo político muito vivo.

Consta que devolve sempre e-mails e telefonemas. Teve educação rigorosa no que respeita a boas maneiras.
A minha família foi sempre muito empenhada na minha educação. Pais, avós, tios. Tive, de facto, uma educação muito cuidada. Um privilégio.

Com piano e ténis. O piano por gosto da avó.
Comecei muito cedo a estudar piano, com uns seis anos. E gostava. A certa altura, confesso, percebi que talvez tivesse preferido ter jogado futebol, mas era tarde. Lá acabei por tirar o curso geral de música mais para dar o gosto à minha avó do que outra coisa.

E o ténis, tinha algum talento?
Não. Joguei durante uns anos no Boavista até me dizerem que era pouco compatível com o piano.

Por causa das mãos. Hoje em dia, toca piano?
Não, não tenho tempo.

Foi um adolescente bom aluno?
Não era o melhor aluno da turma, talvez na primária o fosse, mas tinha boas notas.

Escolheu Economia. Porquê?
Porque tem a enorme capacidade de ajudar a compreender o mundo. Porque um tio, com quem gostava muito de conversar, era professor na Faculdade de Economia. Porque a maior parte dos meus amigos ia para Economia e para Gestão. E talvez porque o meu pai, engenheiro eletrotécnico, queria naturalmente que seguisse Engenharia (risos). Não me arrependo.

Na faculdade, foi vice-presidente da associação de estudantes e presidente da Federação Académica do Porto, eleito em listas independentes. O que o distinguia?
Muito entusiasmo, muita convicção. A preparação aprofundada do debate. Por vezes, acabámos a assumir um papel que não esperávamos ter.

E que levava os outros a escolherem “o Medina”, apelido que foi buscar aos avós maternos, que não conheceu. Porquê?
Não escolhi, foi a vida. Sempre fui “o Medina”. Talvez por ser menos comum do que Correia.

O que o levou a essa participação ativa na vida política da universidade?
Algo que na juventude se sente com muita insistência – a necessidade de justiça. Na faculdade existiam problemas pedagógicos, vários, que se me afiguravam muito injustos. Seguiram-se, depois, tempos muito marcados pela contestação às propinas e a políticas de educação do governo de Cavaco Silva.

Como presidente da Federação Académica do Porto organizava a Queima das Fitas. Andava de capa e batina, portanto?
Sim.

E praxou?
Que me recorde, não. Mas é preciso ter em conta que a academia do Porto não era a de Coimbra. As tradições eram um pouco importadas. Não era algo muito marcante ou muito politizado.

De um meio social abastado, com amigos de direita, o ténis, um clássico, o cumprimento de tradições académicas, a pertença a grupos fechados. Era o que se chama um betinho?
(risos) Numa classificação simplista, sim, era um betinho. Com uma diferença grande em relação a outros que vinham dos mesmos meios sociais, indiscutivelmente os mais privilegiados da cidade: a vivência familiar, que me deu a amplitude da história e da vida do país e despertou a sensibilidade para as questões dos mais desfavorecidos e das grandes diferenças de oportunidade.

Não tem sotaque à Porto.
Nunca tive grande sotaque. Vim para Lisboa há 20 anos e já não trazia muito.

Um portuense na Câmara de Lisboa. O facto já lhe causou constrangimento, insegurança?
Rigorosamente nenhum. Quando António Costa me convidou para número dois da lista, para lá da surpresa manifestada, fiz-lhe duas perguntas – “achas que serei capaz?” e “mas tu sabes que sou do Porto?”. Disse-me: “Se não te achasse capaz, não te convidava. Quanto ao Porto, vais perceber que em Lisboa isso não tem importância nenhuma porque aqui toda a gente é de outra terra”. Pude comprovar isso mesmo durante a campanha, perguntando às pessoas onde tinham nascido. Verifiquei que mesmo os naturais de Lisboa têm pais ou avós que nasceram noutro local. Portanto, a minha história é talvez a história mais lisboeta possível. Por ser a história comum.

O típico lisboeta, quer dizer?
O típico lisboeta, no sentido em que vim para Lisboa para trabalhar, cá fiquei, cá casei e cá nasceram os meus filhos.

Ainda vai passar o Natal ao Porto?
Vem a minha família a Lisboa.

Venceu as eleições, só que o PS perdeu a maioria na Câmara, mas não terá sido por ser do Porto. Que razões encontra para ter sido assim?
Com o devido respeito, não perdeu. Quem ganhou a maioria absoluta foi António Costa. Não foi em mim que os lisboetas votaram em 2013. Portanto, não a perdi.

Mas contava com ela.
As circunstâncias das campanhas são o que são. Tratou-se de uma campanha muito agressiva. Em 2015 – e suceder a António Costa foi uma grande responsabilidade -, tinha dois caminhos: não fazer grandes ondas e seguir a inércia ou, pelo contrário, fazer as obras e as intervenções que achasse necessárias. Decidimos pela segunda, e bem. Porque, para alguém que se tinha candidatado apenas uma vez, ilustre desconhecido durante muitos anos para a população lisboeta, e, além disso, vindo do Porto, o resultado eleitoral foi excelente.

O que faltou para a maioria absoluta? É menos empático que António Costa no contacto de rua?
Esse foi um dos aspetos mais positivos da campanha. Percebi que tinha o gosto de fazer campanha de rua. Pela primeira vez encabeçava uma lista, numas eleições de voto direto e muito personalizado. Os que tinham dúvidas sobre se gostaria desse contacto de rua, por timidez e feitio, ficaram até surpreendidos.

Que imagem acredita que o lisboeta tem do presidente da Câmara?
Espero que seja a de uma pessoa de bem, séria, íntegra e com coragem. Alguém que não foge a polémicas quando acredita que são justas e devem ser vencidas. No anterior mandato, foram muitas as pessoas que me disseram que não devia fazer as obras porque iria deixar os lisboetas muito aborrecidos. Mas como podia não as fazer, se achava que era o melhor para a cidade? Se não é para tomar decisões, então o que faço ao poder que o cargo me dá? Valeu a pena. Hoje, os lisboetas elogiam o trabalho feito.

Como gostaria de ser registado na história da cidade de Lisboa?
Como alguém que liderou a cidade num movimento muito entusiasmante de afirmação global e que aproveitou o momento para fazer uma cidade mais humana. Mais coesa e sustentável, do ponto vista económico e da qualidade de vida.

Uma obra do regime?
São muitas. Uma delas, a da Praça de Espanha, é a todos os títulos simbólica. O exemplo acabado da cidade dos anos 1970 e 1980, a dos grandes eixos viários, transformada numa cidade para as pessoas, com jardins para o convívio e acesso por ciclovias.

Passe único no valor máximo de 40 euros. O país a pagar para Lisboa e para o Porto, dizem os detratores da medida. Que responde?
A medida chega a três objetivos fundamentais: económicos – a importação de combustíveis e automóveis tem muito peso na balança externa; ambientais – cheias, incêndios e a sua frequência e agressividade mostram que as alterações climáticas são uma história do presente e o agravamento das doenças respiratórias com uma enorme dimensão de saúde individual; sociais – a falta de transportes públicos de qualidade afeta sobretudo as classes média-baixa e baixa. Propusemos, por isso, que uma política de apoio ao transporte público, transversal ao país, tivesse um financiamento nacional. É evidente que em Lisboa e no Porto, e estamos a falar de 50% da população, tem outro impacto. Mas também por isso terá uma comparticipação dos municípios. Para um custo anual na casa dos 68 milhões de euros está acordado que os municípios pagarão no primeiro ano 2%, no ano seguinte 10% e, a partir do terceiro ano, 15%. O restante será financiado pelo Orçamento do Estado.

Autocarros lotados, sobretudo nas zonas mais turísticas, com atrasos longos e percursos penosos para os utentes. Os transportes públicos em Lisboa estão hoje melhor do que há cinco anos?
A Carris passou para alçada da Câmara em fevereiro de 2017. A sua recuperação é um processo exigente, demorado, mas, sim, já se notam melhoras. Neste momento, há uma oferta superior em 5% ao que havia. E uma procura superior em 3%, com destaque para os mais jovens e os que têm mais de 65 anos. Nos próximos meses, com a chegada dos primeiros dos 200 novos autocarros, o crescimento vai tornar-se ainda mais claro. Volto a dizer, é um desafio exigente porque dos anos da troika resultou uma enorme degradação da Carris. E moroso porque a compra de autocarros é um processo que leva bastante tempo.

Costuma conduzir em Lisboa?
Não.

Faz ideia do tempo que se demora a fazer dois ou três quilómetros em hora de ponta?
Demora-se muito e tenho noção clara disso. O modelo atual é insustentável e ao longo dos anos tem piorado. Com o crescimento do emprego, todos os dias entram mais carros em Lisboa. Entre 2014 e 2016, o ano de viragem da crise, passaram a entrar por dia em Lisboa mais 15 mil automóveis. São 75 quilómetros de fila. Há só uma solução: melhor transporte público.

A mais carros juntam-se agora as bicicletas e as trotinetas. Numa cidade de colinas.
A maioria das pessoas reside em zonas mais ou menos planas e trabalha em zonas planas ou com baixo declive. Os resultados estão à vista. Temos uma grande utilização de bicicletas partilhadas, o que é muito bom para todos. Quando dizemos que mil pessoas trocam uma viagem de carro por uma de bicicleta estamos a dizer que há menos cinco quilómetros de fila.

É capaz de traçar de memória os sentidos da avenida da Liberdade?
Reconheço que não é intuitivo. Por isso, e mantendo os sentidos da avenida, queremos garantir a possibilidade de circulação em todos os quarteirões.

As obras na cidade, a sua frequência e simultaneidade. Pedir paciência aos munícipes é suficiente?
Recordo que toda a gente dizia que as obras trariam um grande prejuízo eleitoral. É evidente que há sempre uma tensão, mas a escolha é entre fazer ou não fazer.

Há uma bolha imobiliária insuflada pelo turismo. Se há uma quebra de turistas, o que acontece aos lisboetas?
Lisboa acabou de ser eleita a melhor cidade destino do Mundo. Chegámos aqui também em resultado de um trabalho planeado entre a Câmara e os agentes privados do setor do turismo na cidade. E, porque temos de cuidar permanentemente dessa riqueza, a taxa turística tem, por isso, dois usos: investimento na recuperação do património da cidade e resposta aos efeitos negativos do aumento do turismo. Temos de saber cuidar do turismo a médio prazo e a palavra é sustentabilidade. Porém, a questão da habitação na cidade não resulta em primeiro lugar do turismo. Resulta de taxas de juro muito baixas com a consequente subida do preço das casas em todas as cidades do Mundo.

Que números envolve o turismo em Lisboa?
O volume total das vendas do setor do turismo e de tudo o que está associado ao turismo em Lisboa vale seis mil milhões de euros. Quatro vezes toda a indústria do calçado e duas vezes e meia a Autoeuropa.

Uma cidade pode viver com tamanha dependência de uma única atividade?
A base económica da cidade tem mais pedras. Lisboa tem muito emprego qualificado de empresas nas áreas de serviços, nomeadamente tecnológicos, exportados para todo o Mundo partir de Lisboa. Temos em Lisboa a concentração da prestação de serviços de assistência em engenharia e de serviços financeiros de grupos. Recentemente, a Volkswagen inaugurou o centro digital e a Mercedes Benz criou 250 postos de trabalho no Beato, no centro digital. Por exemplo.

Manuel Salgado, o vereador do Urbanismo, é a figura mais polémica da Câmara. Dele e das suas decisões já todos os partidos se queixaram, invocando processos pouco transparentes. Que razão encontra?
Manuel Salgado é vereador vai para 12 anos e é um vereador com grande impacto. Mas essas queixas têm na base sempre as mesmas pessoas. Algumas delas fazem-no por despeito, inveja e frustração. Outras, com fins políticos, numa tentativa de fragilizar a Câmara.

O ex-vereador Fernando Nunes da Silva diz que é ele o verdadeiro presidente.
Não merece resposta. Nem o meu respeito pessoal e político.

Nas questões do urbanismo, quem tem a última palavra?
Do ponto de vista das opções fundamentais para a cidade nos vários projetos, a última palavra é minha e do Executivo municipal. Nenhum projeto se faz sem a minha concordância e, em caso de divergências, prevalece a vontade do presidente.

A parte mais difícil do cargo é a gestão de interesses conflituantes?
Basta ver o quanto as bicicletas e as trotinetas conflituam com os automobilistas ou com os peões. Gerir uma cidade é gerir estes equilíbrios. Nós vivemos a cidade a dois modos. Ora queremos ir jantar até tarde, ora não queremos um restaurante por baixo da nossa casa.

Há quem diga que não manda. Por outro lado, há quem diga que usa pouco a palavra “participação”.
De forma alguma. Mas sou frontalmente contra a ideia, agora muito em voga, de que o melhor é ficar sempre do lado de quem contesta a decisão que foi preciso tomar. Há quem consiga o prodígio de ficar dos dois lados. Do que contesta porque se fez e do que contesta porque não fez. Há hoje, no debate político da cidade, um problema que resulta da ausência de ideias das forças de direita sobre o futuro da cidade. Há anos que a direita tenta apenas agradar a todos. Limita-se a ir atrás de qualquer descontentamento. A maior parte dessas críticas vêm de quem não tem a coragem política para decidir porque não quer decidir nada. Evitar tomar decisões não está na minha natureza.

Que lição deveria tirar o Bloco de Esquerda do caso Robles?
É uma questão do Bloco de Esquerda. Tirará as lições que quiser.

Nas próximas legislativas, António Costa deve pedir a maioria absoluta?
Não, porque um pedido não revela nada. O importante é explicar por que razão António Costa deve ter mais força do que a que tem hoje – até onde essa força irá chegar logo se verá. E as razões são claras: António Costa é o único líder e o PS o único partido capaz de assegurar em simultâneo a governação responsável do ponto de vista da governação económica e financeira do país, apresentando os défices mais baixo da nossa vida democrática e a redução de quase dez pontos na dívida, e a recuperação da melhoria de vida das pessoas.

Beneficiou de circunstâncias europeias favoráveis, é certo.
Tendo em conta as circunstâncias europeias favoráveis, como estaríamos hoje se António Costa não tivesse sido férreo quanto à credibilidade financeira e orçamental do país? Muitíssimo pior.

António Costa pode dar-se ao luxo de desdenhar dos partidos da geringonça, nomeadamente do BE, sem saber se vai precisar deles?
Não vou fazer um cenário pós-eleitoral. Nem o mais experimentado comentador previu a geringonça a um ano de distância. Falta um ano para as legislativas.

Vê com bons olhos uma nova geringonça?
As soluções políticas são construídas para servir o país, dependendo de cada momento. Esta solução serviu bem o país, nesta fase.

Em 2015, António Costa não tinha interlocutor à direita. Hoje tem Rui Rio. Nesta nova fase, o PS deve inclinar-se para que lado?
O PS não se define pela relação com os outros. Afirma-se por si próprio. É um partido pela liberdade, pela social-democracia, inspirada num forte Estado Social. E é um partido europeísta, não no sentido acrítico, mas enquanto instrumento essencial à sua afirmação e autonomia.

Basta pensar no tratado orçamental para perceber que o projeto europeu nem sempre se conjuga com os valores da esquerda.
É verdade. Mas o exercício da governação e do poder – e o que distingue o PS de uma esquerda proclamatória é que somos uma esquerda de governo – tem constrangimentos.

Qual é o limite que um primeiro-ministro de esquerda deve estabelecer às exigências europeias?
O limite é o interesse nacional. Exemplos claros: o tratado orçamental não é aquele que eu desenharia, não é um tratado que corresponda ao desenvolvimento de um ideário social-democrata. É verdade. Mas a questão que se me coloca enquanto político de esquerda é esta: não assinar e não votar o tratado, isolando o meu país e colocando em risco a participação numa moeda única, defende Portugal? Não.

Nesse caso, o que pode/deve um político de esquerda exigir à Europa?
Se há diferença de governação de António Costa em relação a políticas de governos anteriores, é essa. Medidas duras determinadas no campo europeu foram recebidas em Portugal não com grande gosto. Foram até agravadas.

Uma diferença apenas na forma?
De maneira alguma. Houve alguém que aplicou medidas duras com convicção e sem tentar mudar o que quer que fosse. E houve alguém que, perante as mesmas circunstâncias, tentou uma aplicação muito menos danosa das medidas e procurou todos os passos para mudar. É bom lembrar as dúvidas que a geringonça levantou na Europa. Até porque havia quem defendesse, à esquerda do PS, que a redução da dívida e do défice não deviam ser um objetivo.

Pedro Nuno Santos fez críticas duras a regras de disciplina financeira ditadas pela União Europeia e à obsessão com o défice e a dívida. É sobretudo essa a matéria que os separa?
(risos) Já sabia que a conversa ia chegar aí, mas não falarei de um camarada membro do Governo que tem os méritos desta governação.

E que pode ser uma boa solução para a liderança do PS, depois de António Costa?
O PS tem um excelente secretário -geral. Espero que se mantenha por muitos e muitos anos.

Até uma possível candidatura à presidência da República?
Até o que ele quiser, o que estiver na sua vontade e no seu desejo.

No seu caso, ser secretário-geral do PS é uma possibilidade?
Sou muito feliz na Câmara e não tenho um plano B. Não organizo a minha vida dessa forma. Da mesma maneira que não fiz um plano para estar aqui. Espero merecer a confiança dos lisboetas em 2020, para continuar este trabalho.

A sucessão de António Costa poderá ser um problema?
O PS sempre foi capaz de encontrar boas soluções para servir os portugueses em vários cargos de alta responsabilidade. Mas não vou antecipar um futuro que não desejo que aconteça. Desejo que António Costa continue por muitos e bons anos.

Chega à política nacional pela mão de António Guterres. Foi governante no tempo de José Sócrates. O ex-primeiro-ministro foi a maior desilusão política e da política?
Não considero que o conjunto de factos que vieram a ser conhecidos, independentemente do seu juízo criminal, sejam próprios de alguém que teve as responsabilidades que teve e que mereceu a confiança de muitas pessoas. Portanto, é natural que aqueles que estiveram no projeto político no qual ele se incluiu, quando confrontados com o que sucedeu, extravasem esse sentimento.

Foi deputado. Realizou-se nessa função?
Como deputado, não. Sou muito mais feliz em funções executivas. E devemos estar apenas onde somos felizes.

O que poderia interromper a sua presidência na câmara?
Nada.

Nem um convite para ministro?
Nada.

De Lisboa, o que mais gosta?
Impossível escolher. Quando somos presidentes da Câmara da Lisboa, vemos a cidade com olhos muito diferentes. Vemos a cidade na sua diversidade, na extraordinária diversidade que existe em apenas 100 quilómetros quadrados.

Os filhos – dois rapazes com sete e cinco anos – nasceram em Lisboa. O que pensam do trabalho do pai?
Sabem o que o pai faz, mas não sabem ainda bem quais são os limites da função. Por isso, sempre que veem uma coisa mal feita, perguntam: “Pai, porque construíste isto?”. Fazem esta e outras perguntas e, de vez em quando, vêm cá. E gostam muito de vir.

Abrimos com um portuense. Fechamos com um portista?
(risos) Sou benfiquista, desde que me lembro.

Rui Vitória, sim ou não?
(risos) Já aprendi o suficiente na vida pública para não me meter no futebol. Posso apenas dizer que todos os treinadores do Benfica são excelentes treinadores.

Veja o vídeo da entrevista aqui.