OPINIÃO

Brasil: chamava-se Bonita e foi a pioneira das bandidas do Sertão

Faz hoje anos que nasceu Maria Bonita, a primeira cangonceira do Brasil. Vivia no mato, assaltava os ricos, executava crimes por encomenda. Era uma lenda.

Texto de Ricardo J. Rodrigues

Chamava-se Maria Gomes de Oliveira e era a rapariga mais bonita de todo o município de Glória, no interior norte do estado brasileiro da Bahia. A alcunha, Maria Bonita, seria inventado por jornalistas do Rio de Janeiro no início dos anos trinta, quando a sua história se tornou conhecida e ela se transformou numa lenda.

Nascida a 8 de março de 1911 numa família pobre e extensa (tinha 10 irmãos), nada faria antever que um dia se tornaria numa das figuras icónicas do folclore nordestino.

Maria Bonita era bandida e a história guardou-a como rainha do cangaço. Espalhava o terror no Sertão, roubava fazendeiros ricos e matava por encomenda.

Ainda hoje a memória preserva-a como rainha do cangaço, nome dado ao fenómeno de banditismo nómada que tomou conta de todo o Nordeste brasileiro entre os finais do século XIX e início do século XX.

Formados por sertanejos, jagunços, empregados de latifúndios, capangas e pistoleiros, os grupos do cangaço espalhavam terror e medo por onde passavam. Eram normalmente movidos por vingança, revolta e disputa de terras.

Havia sobretudo isto: antigos empregados que se vingavam dos patrões, matando-os ou pilhando as suas propriedades. Mas também roubavam e assassinavam por encomenda. Maria Bonita foi a primeira mulher a fazê-lo.

maria bonita
Maria Bonita ao lado do seu companheiro, Lampião, líder do mais bem sucedido grupo de cangaceiros de todos os tempos.

A sentença desta mulher parecia traçada. Aos 14 anos os pais casaram-na com um sapateiro da Malhada da Caiçara, um povoado que nem sequer aparece no mapa mas onde hoje existe uma casa-museu com o seu nome, na convergência de três fazendas baianas: Baixa Funda, Boa Lembrança e Não Beber. O meio de nenhures, portanto.

O matrimónio com Zé do Dedém, seu primeiro marido, não deu filhos mas deu discussão – Maria não era mulher de se vergar às vontades de ninguém. Separaram-se dois anos mais tarde e ela tornou à casa paterna. Mas uns dias depois de fazer 18 anos, corria 1929, o destino mudou.

«Queres vir comigo viver na mata, assaltar e matar e enfrentar a polícia», perguntou-lhe Lampião. Ela nem hesitou.

Virgulino Ferreira da Silva era bem conhecido nas redondezas. Chamavam-lhe Lampião, porque conseguia disparar tiros em simultâneo com as duas espingardas Winchester que costuma trazer consigo. Era cabloco – filho de mãe índia e pai branco. Era corcunda. Era cego do olho direito. Mas com a vista esquerda viu em Maria uma beleza rara. Era o maior cangaceiro que o Nordeste alguma vez conhecera.

Começou a cortejá-la, perfume barato por cima das camadas de suor. Ela deixou-se seduzir por ele. Um ano depois, convidou-a a tornar-se cangaceira. Iria para o mato com os seus homens, viver nómada e livre, assaltando e matando e enfrentando a polícia. «Ela nem hesitou», diria o historiador Fellipe Torres ao Diário de Pernambuco, depois de conduzir uma investigação sobre a personagem em 2014.

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Mesmo vivendo na mata, Maria Bonita tinha fama de ser vaidosa. Penteava-se e costurava roupas para si mesma. Vestidos de época e pistola no coldre.

Mulher na mata era uma revolução. E Maria era um perigo. Um metro e cinquenta e seis de curvas perfeitas, grandes olhos castanhos, um nariz afilado. Nos anos seguintes Lampião haveria de autorizar os seus homens a trazerem com eles as companheiras e o Sertão ganhou bandidagem feminina.

Maria, no entanto, tinha estatuto especial. Serge Gainsbourg bem podia ter-lhe escrito uma cantiga: ela e Lampião eram a versão brasileira de Bonnie e Clyde.

No mato havia festas com gramofones e dança. Mas ela gostava era de se pôr no dorso do cavalo, a correr o sertão, e de pistola no coldre.

Quando engravidava – e deu três filhos a Lampião – permanecia escondida no Raso da Catarina, bem no interior do mato baiano. E aí havia toda uma cidade de bandidos, com máquinas de costura e gramofones e festas e dança. Então ela dedicava-se a costurar os trajos típicos dos cangaceiros, com couro e moedas e chapéus com abas levantadas.

Aos seis meses, as crianças eram entregues a cúmplices que viviam permanentemente nas fazendas. Voltava Maria para o dorso do cavalo, ao lado de Lampião, a fugir à polícia. Reza a lenda que era a primeira a acordar de manhã para preparar o café da patrulha. Volta Seca, o mais jovem membro dos jagunços, compôs-lhe uma música que haveria de tornar-se conhecida no Brasil inteiro.

A 28 de julho de 1938, depois de ser denunciado por um antigo membro, o bando foi surpreendido de madrugada por um grupo da polícia militar. Maria Bonita e Lampião estariam entre os nove cangaceiros capturados, mortos e depois degolados. As suas cabeças viajaram por todo o Nordeste, para desmotivar quem quisesse aderir a um grupo de cangaço. A História, no entanto, guardou-a como uma mulher livre.

 

 

 

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