Marcos Piangers e Ana Cardoso: Educar com tecnologia

Sem medo nem excesso, com supervisão e regras, sabendo dizer «não» e, sobretudo, dando o exemplo, garantiram Ana Cardoso e Marcos Piangers.

Texto de Sofia Teixeira | Fotografia de Sara Matos/Global Imagens

Foi Aurora – 6 anos, vestido rosa, cabelo loiro aos caracóis e passo saltitante – que subiu ao palco a apresentar a mãe, Ana Cardoso, que falou sobre como educar com tecnologia, sem medo nem excessos.

A jornalista, socióloga e autora teve uma epifania há oito anos, no Dia da Mãe. Na escola, Anita, a filha mais velha, agora com 13 anos, desenhou-lhe o retrato. Quando o viu, Ana Cardoso sentiu um aperto no estômago.

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Não por causa do cinto extravagante com um diamante de grande dimensão – que garantiu que não usa –, mas porque na sua mão estava desenhado um retângulo azulado. Nem toda a gente percebeu o que era, mas para ela foi óbvio: o seu smartphone. Ver-se assim através dos olhos da filha foi um alerta.

No fim de semana, quando vão passear em família, o telemóvel fica em casa para haver tempo de qualidade.

«Quantas vezes pegamos no telemóvel para ver as horas e acabamos no Instagram? Quantas vezes respondemos a e-mails fora de horas, pela necessidade de imediatismo que a tecnologia criou? Quantos pais não se sentem culpados e acabam a dar tudo às crianças para lhes agradar?»

Assim, defende, a melhor forma de impor limites às crianças e aos adolescentes em relação ao uso da tecnologia é impormos, em primeiro lugar, limites a nós mesmos, os adultos. Ana tem dois: «Não usar o telemóvel de noite, mesmo que se esteja com insónias, e responder de imediato a e-mails apenas no horário de trabalho.» No fim de semana, quando vão passear em família, o telemóvel fica em casa para haver tempo de qualidade.

O marido, Marcos Piangers, concorda. Ele, que conhece os bastidores da tecnologia, lembrou como é fantástica – porque melhora a nossa vida e fornece entretenimento –, mas também que o seu objetivo é o lucro. Por essa razão, não podemos contar com quem a desenvolve para criar limites: o lucro que gera para as empresas é proporcional à sua capacidade de nos viciar, ampliando o mais possível os tempos de utilização.

«A tecnologia é imparável, é boa e vai continuar a evoluir, mas isso não significa que não possamos tomar decisões sobre a nossa vida», defendeu Marcos Piangers.

Somos nós que temos de nos «policiar» e que temos de «policiar» os nossos filhos. «Até porque há perigos escondidos», lembra, como «pornografia e violência no YouTube Kids, que devia ser seguro mas na prática não é».

«A crise que existe não é uma crise de tecnologia, é uma crise de tempo: nós não temos tempo para estar com os nossos filhos, para entender o que estão a ver e para lhes explicar o que consomem», defendeu o jornalista, autor e comunicador brasileiro para quem é essencial ajudar as crianças a construírem o seu sentido crítico.

Uma coisa é certa: não dá para fechar a internet, por isso teremos de aprender a viver com ela e com tudo o que virá a seguir. «A tecnologia é imparável, é boa e vai continuar a evoluir, mas isso não significa que não possamos tomar decisões sobre a nossa vida», defendeu Marcos Piangers.

E no que respeita à tecnologia e às crianças, as opções que fazemos são determinantes: a solução mais rápida – deixar horas a ver o Netflix, dar o tablet ou o smartphone – pode resolver uma birra no imediato, mas está a construir um problema de futuro.

No painel de debate que se seguiu, com moderação do editor executivo da Notícias Magazine, Paulo Farinha, a psicóloga Rute Agulhas frisou também a necessidade de sensibilizar os pais, que muitas vezes se desresponsabilizam. Conta que, por vezes, chegam à consulta com a postura de «tome o meu filho, trate dele e devolva-o tratado», sem terem noção de que fazem parte do problema, logo, têm de fazer parte da solução.

«A melhor herança que se pode dar a uma criança é uma vinculação segura, e isso consegue-se com afeto e limites.» Olhando para a forma como a tecnologia pode contribuir para aproximar jovens e instituições, Rita Coutinho, da Comunicação e Multimédia ISCTE, explicou que a estratégia do instituto de ensino superior tem passado por ter uma equipa de alunos que são embaixadores, de forma a ser possível garantir um equilíbrio entre a seriedade que a comunicação institucional exige e o uso de canais e a linguagem mais apelativa para os adolescentes que tentam captar.

Um deles é o millennial Pedro Vieira, de 20 anos, presidente do Young Audax, que acredita que, apesar das potencialidades da tecnologia, «o Google não serve para tudo».

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