Marcelo: a despedida do professor anti-gorilas que roubou um ponto ao irmão

Foto: Natacha Cardoso

Texto de Mariana Albuquerque

Mais do que a política, ensinar foi a sua vocação. Por isso, não há dúvidas: apesar de se despedir esta quinta-feira da docência académica, Marcelo Rebelo de Sousa será para sempre “o professor”. Entrou na Universidade de Lisboa em 1966, como estudante, e sai, agora, como uma das maiores inspirações dos alunos, que recusam vê-lo de outra forma: ainda é o “captain, my captain”.

O atual presidente da República faz 70 anos a 12 de dezembro, atingindo a obrigatoriedade da reforma na Função Pública, e foi convidado pelo reitor a marcar presença na abertura do novo ano académico para uma última “Lição de Sapiência”, agendada para as 15.20 horas. Espera-se uma Aula Magna a abarrotar, como, aliás, aconteceu no dia 7 de maio de 1984, quando Marcelo prestou provas para obter o doutoramento.

Os olhos estavam postos em Marcelo, então jornalista, comentador, jurista e enfant terrible do PSD. Baltazar Rebelo de Sousa e Maria das Neves, os pais, voaram do Brasil para assistir à cerimónia. Sempre discreta, a ‘eterna’ namorada, Rita Amaral Cabral, também lá estava, sem lugar para se sentar, encostada a uma parede.

O sonho de miúdo cumpriu-se: já em criança, Marcelo dizia que queria ser catedrático de Direito, tal como o seu quase padrinho de batismo Marcello Caetano (último Presidente do Conselho do Estado Novo), que conduziu o carro que levou Maria das Neves à maternidade para dar à luz. Mas o professor de Direito e político português, que chegou a dar aulas ao atual chefe de Estado, manteve-se sempre distante, como inspiração.

Marcelo Rebelo de Sousa estava ainda longe de saber que, mais tarde, viria a transformar-se também num exemplo para os antigos alunos. Admirado pela exigência, mas sobretudo pelo sentido de humor e pela irreverência que demonstrou ao longo dos anos. Características patentes em pequenos episódios que merecem ser recordados.

Contra os “gorilas”

Foto: Rodrigo Cabrita

Em 1972, quando Marcelo se tornou assistente, um estudante maoísta foi morto pela PIDE no Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras de Lisboa. Numa tentativa de controlar as tendências revolucionárias dos estudantes, a Faculdade de Direito acatou a decisão do então ministro da Educação Nacional, Veiga Simão, e contratou os chamados “gorilas”, seguranças destinados a manter a tranquilidade na academia. Marcelo não gostou da medida e uniu-se ao restantes assistentes para contrariá-la.

As caretas nas costas do velho catedrático

Foto: Arquivo

Enquanto assistente de Economia Política, disciplina lecionada pelo pouco popular professor Martínez, Marcelo sentava-se na mesa do docente, ao lado de outro colaborador. Há memórias na universidade de que, enfadado pela falta de ritmo das aulas, o atual presidente da República fazia caretas nas costas do académico, para grande diversão dos alunos. De sublinhar que, na plateia, estavam sentados, na altura, Pedro Rebelo de Sousa, o irmão mais novo, e Francisco Motta Veiga, cunhado de Marcelo.

Rita, a futura namorada que reclamou de um 11

Foto: Gerardo Santos

A primeira vez que Marcelo Rebelo de Sousa viu Rita Amaral Cabral foi em contexto académico: não como colega, mas como aluna da disciplina de Direito Internacional Público. O professor tinha-lhe atribuído 11 valores no primeiro exame escrito, nota que a estudante reclamava estar errada. Ainda assim, os argumentos apresentados não foram suficientes para convencê-lo a alterar o resultado da prova.

O ponto roubado ao irmão

Foto: Natacha Cardoso

No final de um ano letivo – e apesar de contrariado -, Marcelo teve de fazer uma prova oral ao próprio irmão. Pedro Rebelo de Sousa tinha-se destacado na realização de um trabalho de grupo e estava confiante na nota final. O exame também correu bem: o docente sabia que o irmão merecia 16 valores, mas, com medo de transmitir a imagem de que estava a favorecer a família, deu-lhe apenas 15. Pedro contestou, mas acabou por desistir e sair da sala. Talvez não valesse a pena tentar contrariar o “captain, my captain”.