Eles já são demasiado grandes para o Youtube

Texto de Miguel Conde Coutinho

Eis uma possível cronologia do fenómeno. A 12 de janeiro de 2012, Paulo Borges publica no YouTube o seu primeiro vídeo em português. A premissa é simples e a produção minimal. Ouve-se a voz de Paulo enquanto joga Minecraft. Na verdade, o nome já não era Paulo, era Wuant. Quase quatro anos depois, em outubro de 2016, uma rua do Porto estava em alvoroço. Centenas de pessoas faziam fila à porta de uma loja, para espanto de todas as outras, que não conseguiam passar nem perceber.

Mas não era difícil, ainda que surpreendente: Wuant – “quem?” – era o convidado de honra na festa de aniversário de uma loja de informática. E os fãs, mais os seus pais, depois de horas e dias a vê-lo e ouvi-lo no computador ou no telemóvel, esperaram horas para poder estar com ele, ao menos uma vez, em carne e osso.

Wuant era já uma estrela, que cresceu abaixo do radar tradicional, capaz de arrastar pequenas multidões. Veio a seguir 2018. Foi contactado para ser um dos protagonistas de uma campanha de publicidade da Nos e o pequeno ecrã do YouTube era já pequeno de mais. A sua cara esteve em todo o lado, da televisão aos cartazes de rua. Seriam já poucos os que não sabiam quem era o Wuant, mesmo que não soubessem que continuava a ser Paulo Borges.

Wuant tem mais de três milhões de subscritores no YouTube, um número astronómico, e é um dos maiores youtubers portugueses, a avaliar pela quantidade de assinantes do seu canal. Quem lidera o ranking é SirKazzio, aliás Anthony Sousa, 27 anos, mais de cinco milhões de assinantes, e que já nem é apenas youtuber. Começou tudo “como uma brincadeira”, a 11 de abril de 2012 no YouTube, também com um vídeo a jogar Minecraft. Na semana passada estava a fazer testes de som antes de uma atuação no Palco Digital do Marés Vivas.

Kazzio, a persona musical de Anthony, estava em cima do palco como se o habitasse desde sempre. Semanas antes, quando falámos pela primeira vez, a excitação era enorme. Estava a preparar-se para a “loucura” que iria acontecer daí a dias, estrear ao vivo o seu primeiro single, “Vou seguir”, num palco do Rock In Rio. “A música era um sonho de criança, mas nunca houve essa possibilidade de concretizá-lo”, explica. Foi o estrelato no YouTube que lhe abriu as portas. Terão sido muito poucos os artistas – é assim que se vê agora; antes considerava-se um entertainer – que cantaram pela primeira vez ao vivo num evento com as dimensões do Rock In Rio.

Mas o momento chegou e Kazzio quer agarrar a oportunidade “com todas as forças” e sem medo de um futuro que, como se sabe desde que há indústria musical e depois internet, é bastante volátil. E com apetite voraz por novidades: “Não me preocupa o futuro porque tudo o que estou a fazer, faço-o porque gosto de verdade. Tanto o YouTube como a música. É paixão, e portanto quero continuar a fazê-las. São coisas que vão comigo para o futuro, sejam gigantes ou não.”

Por agora é aproveitar a oportunidade, como aliás fez Rita Fernandes, a menina que perdeu a vergonha, ajudada pela mãe, e furou o protocolo durante o ensaio para o Marés Vivas. Pediu-lhe uma selfie e levou uma para casa.“Ele é divertido e empenha-se muito no trabalho que faz.” Rita tem 11 anos e, segundo o exagero de mãe, Manuela Vieira, “tem uma paixão assolapada” por Kazzio. Rita exulta. Anthony não parece minimamente incomodado com a interrupção, nem com o poder que uma audiência tão vasta lhe dá: “Não me assusta porque é aquilo que eu gosto de fazer. É divertido poder ir a um sítio, ver as crianças e brincar e divertir-me com elas.”

Parece pois genuíno e é provavelmente por isso que funciona. Com Kazzio e todos os outros youtubers à procura de formas de rentabilizar a popularidade fora do digital, fazendo o caminho contrário aos media tradicionais. Kazzio e Wuant são dois dos grandes exemplos. Há outros que tentam também carreiras na música e nos livros, como Miguel Luz ou SEA. E há quem, para já, se tenha aventurado também no papel impresso, casos de Fer0m0nas ou D4rKframe. Kazzio congratula-se: “Está a dar-se finalmente valor e reconhecimento aos que criam conteúdos diferentes online, seja para crianças, adolescentes ou adultos.”

A surpresa de Wuant
Depois de um “levantamento exaustivo”, a Nos escolheu Wuant para ser uma das caras de uma nova campanha, aproveitando a “autenticidade que tem apelo para uma audiência mais alargada”, explicou à “Notícias Magazine” a empresa, que assumiu o risco de avançar com um dos famosos youtubers, ultimamente também envolvidos em polémicas associadas a comportamentos criticáveis e linguagem imprópria para crianças. “Houve essa avaliação de risco. A Nos tentou respeitar a individualidade de cada um e, inclusivamente, deu ao Wuant liberdade para intervir sobre o ‘script’”, esclareceu a companhia.

“Foi uma surpresa”, revelou Wuant, que não aceitou de imediato a proposta da Nos. “Gosto de pensar primeiro se me sinto à vontade, se vou ter as condições que preciso e, acima de tudo, se o que vou fazer corresponde à minha personalidade e vai trazer algo positivo ou engraçado para a minha audiência.”

Palavra de quem sabe o que anda a fazer e que recusa ter agora ter maior responsabilidade do que no dia em que gravou o primeiro vídeo, apesar do natural aumento da sua influência.

“A responsabilidade foi algo que nunca consegui compreender neste caso. Sim, o pessoal vê os meus vídeos e sim, muitos olham para mim como exemplo. Mas o meu objetivo é, e sempre será, entreter quem quer ser entretido. A única responsabilidade que sinto é essa.”

Em relação ao futuro, também o tem bem claro: “Quanto mais trabalhar, mais longe chego. Os objetivos para o futuro vão sempre mudando consoante o nosso estado de espírito, mas o objetivo mais forte que tenho é entreter o país inteiro… para começar. Quem sabe, um dia, o mundo.”

É esta ambição, aliada a uma audiência gigantesca, que atrai as marcas para este investimento. Há três ou quatro anos mal se ouvia falar em youtubers, quanto mais que algum deles pudesse ser rosto de campanhas de publicidade. Windoh é outro nome bastante popular (o seu empresário não deu seguimento a um pedido de entrevista da NM), e ganhou ainda mais força depois de em 2017 se juntar a Kazzio e a Wuant na famosa Casa dos Youtubers. De nome civil Diogo Silva, o “entertainer” de 22 anos esteve com o futebolista Danilo, a cantora Carolina Deslandes e o surfista Kikas numa campanha da Meo. Para ser escolhido bastou-lhe ser Windoh, ou mais propriamente, explicou a Altice Portugal, corresponder ao critério de “estar mais perto da vida das pessoas, das novas tendências, dos novos hábitos, das novas formas de criar e consumir conteúdos”. Foi uma das campanhas mais eficazes da marca, garante a empresa.

“Isto está tudo em ebulição. Tudo acontece a uma velocidade cada vez mais rápida”, explica David Benasulin, da Sony Music Portugal, que trouxe Kazzio para a editora. “Nos últimos três ou quatro anos isto deu uma reviravolta gigante. As plataformas digitais têm um peso cada vez maior na atuação das editoras”, continua o executivo, que acrescenta que era uma inevitabilidade “haver youtubers que se queriam lançar no mundo da música”. A “feliz coincidência” deu-se na reunião, cujas atas registam ter acontecido em janeiro deste ano, com Kazzio e Nuria Velez, sua agente e mulher. “Houve uma boa energia”, conta Benasulin, e aproveitou-se o investimento de quase um ano para tentar produzir música que se pudesse depois apresentar a uma editora.

Nuria e Kazzio conheceram-se num jantar de um amigo comum. Ela não sabia que Anthony Sousa era SirKazzio. Foi há dois anos e agora conseguem viver do trabalho de ambos, centrado na carreira dele. “Estamos sempre a inovar. Fazemos workshops, presenças para cantar ou para ele falar, mais o YouTube. Está tudo a correr muito bem”, garante-nos a agente, numa curta entrevista atrás do palco em que Kazzio ensaiava o novo single, “Safira”, que iria estrear no Marés Vivas.

Muros levantados
Não deixa de ser, porém, legítimo perguntar se tudo vai bem no reino dos youtubers (ou se vai bem de mais, não dá para perceber), por que razão se escondem da imprensa. É extremamente difícil chegar à fala com um youtuber, tão difícil como perceber como funcionam as empresas que os agenciam.

Presume-se que seja porque choveram há pouco tempo críticas de pais: é a primeira vez que alguém, fazendo uso da mais poderosa ferramenta de comunicação, a audiovisual, consegue ter relação regular, direta e não mediada com os miúdos. Um poder assim, que cresceu repentinamente e sem controlo, assusta. E os poucos agentes, que passaram a representar praticamente todos os youtubers relevantes, levantaram um muro para os proteger dos jornalistas. Ou da responsabilidade a que obriga o poder que adquiriram. Outros há que, com medo da conotação com o que há de pior neste mundo comunicacional não filtrado, os querem isolar do passado do YouTube para lançá-los em novas carreiras.

Wuant e Kazzio, talvez por estarem no topo, sabem que é importante aparecerem em todas as plataformas, sem receio de serem questionados. E que é preciso trabalhar, como nos disse Wuant: “Será que chega, ou será que consigo fazer melhor? Desafio-me todos os dias. Mando-me abaixo porque sei que se o fizer, a próxima tentativa vai ser melhor que a anterior.”

Kylie Jenner, 20 anos, é o caso mais bem-sucedido da atualidade nas redes sociais. Cada publicação da celebridade e empresária americana no Instagram, no Snapchat ou no Twitter pode gerar-lhe receitas de publicidade estimadas em um milhão de dólares (852,8 mil euros). Basta que anuncie um produto e o dinheiro entra-lhe na conta bancária.

A mais nova das irmãs Kardashian não é, porém, quem conta com mais fãs na net. Esse lugar é ocupado de forma destacada por Cristiano Ronaldo, com 293 milhões de seguidores. A cantora Ariana Grande surge logo depois, com 180 milhões. O top dez das celebridades mais procuradas é ainda composto por figuras como Kim Kardashian, Neymar, o ator Dwayne Johnson, Justin Bieber ou Selena Gomez.

As contas são da D’Marie Analytics, empresa especializada na análise detalhada do mundo das redes sociais e dos influenciadores digitais. Se se olhar para as três diferentes fontes escalpelizadas pela D’Marie, Ronaldo é quem mais fãs agrega no Facebook, seguido da colombiana Shakira e do ator americano Vin Diesel. No Instagram, o craque português é ultrapassado por Selena Gomez e surge à frente de Ariana Grande. No Twitter, Katy Perry, Justin Bieber e Barack Obama dominam as preferências.

Novos negócios: o universo estratosférico dos influenciadores

Texto de Pedro Emanuel Santos
Kylie Jenner está no décimo lugar da lista das mais seguidas, com 137 milhões de fãs, menos de metade dos de Cristiano Ronaldo. Mesmo assim, é ela que arrecada mais receitas. Kim Kardashian, irmã de Kylie, até tem mais seguidores, mas muito menos receitas por post, 500 mil dólares (426,4 mil euros), metade das arrecadadas pela mana. O clã Kardashian é o primeiro exemplo global de como é possível gerar receitas milionárias apenas através de publicações visualizadas por milhões de fãs.

Em Portugal, o universo das redes sociais não atinge números tão assombrosos. Só para ter uma ideia, o blogue “Flavors & Senses”, um dos mais seguidos por cá, conta com 14 mil gostos no Facebook, 29 mil seguidores no Instagram e uma média de 25 mil “page views” mensais na página, criada em 2011 por João Oliveira e Cíntia Oliveira e que tem nas críticas de viagens, hotéis e restaurantes o principal foco.

“Não recebemos dinheiro algum pelas publicações que fazemos, nem queremos. Em Portugal é muito difícil ser influenciador digital e viver disso, somos um meio muito pequeno”, considera João Oliveira. “Aliás, regista-se por cá um fenómeno curioso e exclusivo: as nossas celebridades quase passam, elas próprias, a ser estrelas da internet. O que acontece no estrangeiro é que há celebridades a nascerem diretamente da internet.” As Kardashian são o melhor exemplo disso mesmo.

A nutricionista Ana Bravo mantém desde há dois anos o blogue “Nutrição com Coração”, que reúne a simpatia de 150 mil seguidores nas plataformas digitais. Um pouco mais acima está o humorista Guilherme Duarte, que chega a 300 mil pessoas com o seu “Por Falar Noutra Coisa”.

Mas quem bate todos os recordes é João Cajuda, 33 anos. O antigo ator, que se tornou conhecido pela participação na série “Morangos com açúcar”, lançou em 2013 o blogue “joaocajuda.com/viajacomigo”, no qual relata experiências de viagens aos mais variados destinos. Hoje tem mais de 800 mil seguidores, a maioria no Facebook e no Instagram, deixou a representação e vive exclusivamente da organização de percursos por esse mundo fora.

“Mas não me considero um influenciador digital, nem gosto do termo. Apesar de reconhecer que posso ter interferência decisiva nas escolhas de quem acompanha a minha página e quer viajar”, descreve aquele que pode ser considerado o mais bem sucedido português das redes sociais depois de… Cristiano Ronaldo.