OPINIÃO

Isto não é um «elas contra eles»

[O assédio] é um assunto de todos os que defendem princípios básicos e condenam o crime. Sem confusões com outras coisas que se metem ao barulho.

Na mesma semana em que Oprah Winfrey comoveu meio mundo e em que Catherine Deneuve foi o rosto de uma centena de artistas francesas críticas do rumo seguido por movimentos como o #metoo, Moira Donegan deu-se a conhecer no site The Cut, da revista New York Magazine, como autora da «lista dos homens merdosos».

Vale a pena ler na íntegra o artigo em que a jovem jornalista explica o seu objetivo ao criar a iniciativa, a forma como a lista ganhou vida própria, os riscos e as consequências perversas da sua ingenuidade.

Tudo começou com um simples documento criado no Google Docs, destinado a denunciar jornalistas poderosos que tivessem assediado ou abusado de colegas. Um documento em que a criadora e as autoras das denúncias mantinham o anonimato. E em que Moira Donegan admite que cabiam factos sem verificação e inclusivamente rumores. O objetivo era preventivo: através da partilha, aumentar a possibilidade de as mulheres se autoprotegerem.

Três meses depois, Moira Donegan confessa-se de rastos. Sem emprego, forçada a revelar a sua identidade após ser ameaçada por outra jornalista, afirma ter perdido amigos e ter sido «incrivelmente ingénua». Por ter pensado que o documento se manteria secreto, por ter acreditado que o foco se manteria apenas nos comportamentos denunciados e até por ter julgado que um disclaimer relativamente aos nomes citados bastaria para evitar as dúvidas levantadas sobre a veracidade dos relatos.

O exemplo de Moira Donegan mostra com clareza o quanto ações benévolas podem revelar-se perigosas. Para as próprias vítimas, que precisam de ser protegidas. E para quem é apanhado por arrasto, numa febre de acusações em que sob a capa do anonimato pode caber quase tudo. É a via mais rápida para criar confusões numa matéria em que não pode havê-las.

Há factos indesmentíveis de tão documentados que estão. As vítimas de assédio e agressão sexual são maioritariamente mulheres. Tal como acontece na violência doméstica. Ou noutros planos com evidência de desigualdade de género, como o mercado de trabalho e os salários pagos para iguais funções. Por isso, os movimentos a que assistimos eram necessários e urgentes.

Mas ainda que as suas vantagens sejam muito maiores do que os riscos criados por eventuais exageros, falar destes é um direito. Porque a libertação e a denúncia têm de ser vividas com responsabilidade. E porque não há pensamentos únicos em matéria nenhuma e o debate é a melhor forma de se fazer caminho. Não há apenas preto e branco e as zonas de cinza merecem igualmente ser olhadas.

Não concordo que o assédio seja tratado como tema de mulheres, porque isto não é um «nós contra eles». É um assunto de todos os que defendem princípios básicos e condenam o crime. Sem confusões com outras coisas que se metem ao barulho. Porque de resto não há problema em divergirmos, já que há diferentes formas de sentir e de interpretar a liberdade e a identidade de género.

Nas últimas décadas aprendemos muito sobre igualdade. Aprendemos que temos direito a ocupar os mesmos cargos que eles, pagas com igual salário. A recusar estereótipos, determinismos ou submissões. A decidir se queremos ou não estar na moda ou maquilhar-nos, sem que isso diga absolutamente nada de nós. A denunciar o muito que ainda falta fazer. E este é um caminho feito em conjunto e no qual todos nos transformamos, homens e mulheres. Reconhecendo que só somos iguais a eles se eles forem iguais a nós. Sem clivagens inúteis.