Inês Henriques: a campeã da igualdade

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Texto de Alexandra Tavares-Teles

Uma hora antes de subir ao pódio para receber a medalha de ouro dos 50 km marcha, obtida nos Campeonatos Europeus de Berlim, Inês Henriques, que é também a primeira campeã do mundo na distância, dá conta, ao telefone, de “um dia maravilhoso”, ” um dia de lágrimas felizes”.

A vitória deve-a, diz, “à capacidade de trabalho e gosto” pelo que faz, marcas definidoras a que a natureza juntou “muita persistência”. A persistência que a segurou nos momentos, “e foram tantos em 2015”, em que pensou desistir, “dias de lágrimas tristes”, quando o empenho nos treinos teimava em não transparecer nos resultados finais.

A persistência com que enfrentou as instâncias internacionais da modalidade, pioneira e “feminista, sem dúvida alguma”, rosto de uma batalha pela igualdade de género, obrigando a que a prova fosse incluída nas competições oficiais nos moldes exatos da versão masculina, não sem antes ter sido obrigada a demonstrar que uma mulher pode marchar 50 km.

A persistência que lhe permitiu vencer a dura prova de terça-feira 7 e gerir – “já muito débil”, revela horas depois – os 15 km finais. Persistência, ainda, que é a chave do próximo desafio: levar os 50 km marcha femininos aos Jogos Olímpicos de Tóquio, em 2020, e terminar a carreira (um quarto de século que roubou tempo à família e à escola, a ponto de a licenciatura em enfermagem ter levado dez anos) a lutar por uma medalha.

Terá então 40 anos. “Com muito trabalho é possível atingir os objetivos, mesmo que não tenhamos o talento todo connosco, que é o meu caso”, assume com genuína humildade.

Jorge Miguel, treinador bem-sucedido na disciplina, confirma a força de vontade da atleta – “é o segredo” – e resume 25 anos de trabalho conjunto numa palavra: lealdade. “A Inês é dos poucos atletas de alta competição que a preza (a lealdade).”

A um mês de completar 70 anos, o técnico revive o percurso da menina nascida no Hospital Velho, Santarém, criada em Estanganhola, Rio Maior, para onde os pais, proprietários de uma fábrica de lenha e carvão, foram morar. Recebeu-a em 1992, tinha ela 12 anos, convencida já de que lhe faltava jeito e altura para uma carreira no basquetebol.

Bons e maus momentos, alegrias e depressões, um caminho, segundo o técnico, “que nem sempre teve a atenção que merecia”. Escolhe como exemplo “a prova a extraordinária de 2010 no México, quando a Inês foi medalha de bronze numa Taça do Mundo”.

Para Jorge Miguel, o feito “passou despercebido e foi uma pena”. A atleta, para quem vida difícil é trabalhar com o carvão ou na apanha do tomate, experiências que conhece de cor, tem mágoas, “algumas”, claro. Porém, não as quer lembrar. Não agora. “O tempo é de celebração”.