OPINIÃO

Incontinência: quando falha a comunicação entre o cérebro e a bexiga

Só 10% dos 600 mil portugueses que sofrem de incontinência urinária procuram um médico. Este problema não é normal, mas é vulgar. É mais comum nas mulheres do que nos homens. Esta semana é dedicada à sensibilização.

Texto Sara Dias Oliveira | Fotografia de Shutterstock

Se tudo funcionar como deve ser, a bexiga está constantemente a atualizar o cérebro com informações sobre o seu volume. A dada altura, as paredes da bexiga entram em ação para tentar expelir a urina, mas só o fazem se tiverem permissão do cérebro. É o cérebro que comanda e escolhe o momento certo para o esvaziamento da bexiga. Só que, por vezes, esta comunicação não acontece da melhor forma e a incontinência torna-se um problema.

É um problema chato, mas resolve-se. «A incontinência urinária não é normal, mas é muito vulgar. Também não mata, mas afeta muito a qualidade de vida das pessoas que dela sofrem. E o mais importante é que é um problema que se trata e de forma mais simples e muito menos dolorosa do que há 20 anos. Por isso, as pessoas precisam de perder o medo de falar sobre estas questões com o seu médico», diz Luís Abranches Monteiro, urologista e presidente da Associação Portuguesa de Urologia (APU).

A incontinência afeta cerca de 600 mil portugueses, cerca de 33% são mulheres, 16% são homens.

Todos os anos, a APU chama a atenção para as perdas de urina com uma semana dedicada à incontinência. Esta é precisamente a semana para lembrar que, a partir dos 40 anos, um em cada cinco portugueses sofre este problema – cerca de 33% são mulheres, 16% são homens. Esta semana é dedicada a informar e sensibilizar para estas questões. E a 14 de março assinala-se o Dia da Incontinência Urinária.

Mas, afinal, o que se passa no corpo nos casos de incontinência? Há sobretudo dois tipos diferentes que, por serem mais frequentes, se sobrepõem às múltiplas formas de incontinência. Não são exclusivos das mulheres, mas afetam sobretudo o sexo feminino.

Há a incontinência que resulta de uma laxidão dos músculos do pavimento pélvico que acontece por várias razões crónicas. São fatores importantes nestes casos:

  • Idade;
  • Obesidade;
  • Sedentarismo;
  • Partos vaginais;
  • Ambiente hormonal da menopausa.

«Globalmente, o que acontece é que estes aparelhos musculares que deviam encerrar a uretra no preciso momento de alguns esforços súbitos, como a tosse ou espirros, têm incapacidade de o fazer e deixam que se percam algumas gotas nestes momentos», explica o presidente da APU.

Há outro mecanismo bem diferente e bastante frequente – e que até pode coexistir com o primeiro tipo mencionado. Ou seja, o controlo nervoso do correto ciclo de esvaziamento da bexiga pode estar alterado. E a comunicação entre o cérebro e a bexiga falha. «Por vezes, estas informações entre o cérebro e a bexiga não estão bem controladas e pode surgir um esvaziamento fora deste contexto, sendo assim, uma perda involuntária», refere o urologista.

Há certos tipos de incontinência que são tratados com taxas de sucesso de 90%.

A APU alerta que a vergonha pode estar a travar a solução das perdas de urina para muitas pessoas, o que explica a pouca procura de cuidados médicos, apenas 10% dos incontinentes marcam consulta. Os restantes escondem o problema, automedicam-se e isolam-se.

Para o presidente da APU, é importante reconhecer que há avanços terapêuticos consideráveis quer na eficácia quer na facilidade de execução. «Importante também é saber que estas formas de incontinência têm tratamentos muito distintos e que o tratamento de uma pode piorar a outra pelo que a avaliação diagnóstica tem que ser muito cuidadosa e especializada», avisa.

 

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