Hormonas e mitos: os maiores desafios dos jovens diabéticos

A diabetes é uma das causas mais frequentes da disfunção erétil

Texto Sara Dias Oliveira

A diabetes é uma doença para toda a vida, não escolhe idade, nem género, e, depois de diagnosticada, pede hábitos saudáveis. Em Portugal, há 3327 jovens com diabetes tipo 1 que podem ter uma vida normal com os tratamentos adequados. Para isso, é necessário afastar preconceitos, desmistificar mitos, perceber o que é ou não saudável. E domesticar as hormonas para não querer experimentar tudo o que aparece pela frente e faz mal. Hoje assinala-se o Dia Mundial da Diabetes.

Os mitos associados à doença são obstáculos a demover e são as principais dificuldades dos jovens diabéticos. Nada mais errado do que dizer-se que a doença pode ser um entrave à escolha de uma profissão ou que é impeditiva da atividade física. As escolas têm um papel pedagógico e não podem ignorar o problema. “A diabetes é uma doença que, apesar de ser para toda a vida, se estiver controlada permite uma vida normal. Ter uma sociedade mais informada acerca da diabetes irá permitir que os mitos associados à doença desapareçam, contribuindo para uma melhor integração dos jovens”, afirma à NM Paula Klose, presidente da Associação de Jovens Diabéticos de Portugal (AJDP). As pesquisas na internet também não ajudam e podem ser um entrave à compreensão da doença. Os jovens devem sempre pedir informações a um profissional de saúde porque nem tudo o que está na internet é fidedigno.

Estima-se que 13,1% da população portuguesa tenha diabetes e quase metade dos casos não estará diagnosticada.

Aceitar que se tem diabetes é meio caminho andado para lidar melhor com a doença e viver a juventude em pleno. É preciso aprender a integrar a doença nas rotinas. “Claro que não é simples, é normal fartarem-se da diabetes, não quererem saber dela, as hormonas são mais um desafio.” “É bom rodearem-se de amigos e familiares que os apoiam e ajudam quando estão nesses momentos, e que os façam perceber que são crianças normais”, avisa a presidente da AJDP. Sem nunca esquecer que é absolutamente essencial tomar a insulina, se for o caso, de acordo com os níveis de glicemia.

“Uma criança ou um jovem são diferentes de um adulto, logo as pessoas com diabetes também o serão. As crianças e jovens tendem a querer experimentar coisas novas todos os dias, pelo que o desafio é mostrar-lhes como fazer isso, mas integrando a diabetes no seu dia-a-dia. No caso dos adultos, estes compreendem a doença de outra forma pelo que o desafio é diferente.” Há, portanto, diferenças entre os mais novos e os mais velhos, mas, em qualquer situação, a prevenção é fundamental e o exercício físico e uma alimentação equilibrada são passos importantes para o controlo da doença. A única diferença é que as pessoas que vivem com diabetes têm de medir a glicemia, contar hidratos de carbono e levar insulina.

Em 2014, a diabetes tipo 1 afetava 3365 jovens até aos 19 anos (0,16% da população no escalão etário), manifestando uma ligeira tendência de crescimento desde 2008.

É normal os mais novos quererem experimentar tudo o que o mundo tem para oferecer. Mas a diabetes tem as suas exigências. “A diabetes tipo 1 é uma companheira para a vida, não piora nem melhora. É uma doença de início abrupto e, por isso, fácil de diagnosticar. A pessoa era saudável e, aparentemente de um dia para o outro, deixou de o ser, o seu corpo deixou de produzir insulina e não vai voltar a produzir.” Essa falta de insulina no corpo tem de ser compensada com insulina de acordo com as suas necessidades. “E isso não melhora, nem piora. Podem precisar de dar mais ou menos insulina, mas isso não faz mal. As pessoas que não têm diabetes também produzem quantidades diferentes de insulina, de acordo com o seu corpo, com os seus hábitos, etc.”, diz Paula Klose.

Ter amigos e família por perto que compreendam a doença é um passo para lidar com essa condição de forma natural. É possível ter uma vida normal. “Sair à noite com amigos continua a ser possível, mas também é importante que o jovem não tenha vergonha de medir os níveis de glicemia ou de tomar insulina em frente aos seus amigos. No caso de ter dúvidas, falar com um amigo que viva com diabetes é sempre uma solução”, diz a responsável.

A presidente da AJDP garante que ainda há escolas que não aceitam crianças que vivem com diabetes por não saberem como dar-lhes o apoio de que necessitam e por não terem profissionais disponíveis para acompanhar essas crianças. E que há professores, em especial os de educação física, que proíbem alunos que vivem com diabetes de realizar as aulas, por pensarem que não podem. Tudo errado.

Há quatro anos, eram detetados cerca de 18 novos casos por cada 100 mil crianças e jovens com idades até aos 14 anos.

De forma a desmistificar ideias e acabar com o estigma, a AJDP lançou a campanha #somosoquequeremosser que dá a conhecer casos de pessoas que vivem com a diabetes e que não se limitam nem se definem pela doença, que escolheram a profissão e o estilo de vida que quiseram, tomando apenas as precauções necessárias para gerirem a doença de forma adequada. Como é o caso de Miguel Ruivo, de 18 anos, diabético desde os dez. Estuda e participou, enquanto ator, em várias telenovelas. Ou Raul Teodoro, que tem 83 anos e vive com diabetes há 60, desde os 23. É vendedor. E ainda João Almeida de 22 anos, diabético há sete anos, fisiologista do Exercício.