Herói das crianças tailandesas já perdeu uma amiga nas grutas

Richard Harris/Facebook

Texto de Mariana Albuquerque

Foi escolhido a dedo. A responsabilidade da tarefa assim o pedia. Avançar ou não avançar para a gruta de Tham Luang Nang Non, na Tailândia, onde permaneciam, desde 23 de junho, as 12 crianças e o treinador da equipa de futebol do clube Moo Pa?

As equipas de resgate (e, a bem dizer, o mundo) aguardavam luz verde. A decisão foi de um dos heróis nos bastidores de toda a operação: Richard Harris, médico anestesista, fotógrafo e corajoso com 30 anos de experiência de mergulho em grutas de todo o mundo. O australiano estava de férias quando foi requisitado por especialistas internacionais para a missão. Não hesitou.

Às costas, a pressão de salvar aquelas 13 vidas e a dolorosa recordação do dia em que, numa missão semelhante, foi destacado para ir retirar o corpo da mergulhadora Agnes Milowka de uma caverna em Millicent, perto de Mount Gambier, Austrália, em 2011. À primeira vista um desafio normal, tendo em conta a sua formação. Mas há um detalhe doloroso: o corpo sem vida que Harris retirou dessa gruta era de uma amiga.

Será possível voltar a entrar nas águas barrentas de uma gruta apertada, escura e sufocante sem recordar o momento em que alguém próximo dá o último suspiro? Talvez não. Mas isso não impediu Richard de passar os últimos dias no interior da caverna tailandesa. Aliás, no sábado, dia 7 de julho, foi ele que levou a cabo o perigoso mergulho até aos jovens e ao treinador, possibilitando assim o início das operações no dia seguinte.

Era imperativo saber em que estado físico e psicológico se encontrava a equipa de futebol para, só depois, se unirem esforços no seu resgate. Assim foi. Harris deu o aval e as equipas iniciaram a perigosa jornada de saída das cavernas inundadas. Ao segundo dia, oito crianças devolvidas à superfície; ao terceiro, as quatro que restavam, seguidas do treinador.

Esta terça-feira, a faltarem poucos minutos para as 16 horas (de Lisboa), o anestesista australiano e três mergulhadores dos comandos da marinha tailandesa puderam, finalmente, descansar. Já não há vidas para salvar na gruta de Tham Luang Nang Non e o próximo passo, garantem as autoridades, é evitar que novos acidentes aconteçam.

Aliás, é também com esse objetivo que Richard Harris anda, há mais de três décadas, a aventurar-se em grutas, fotografando cavernas, cartografando perigos. Tivesse o resgate de Agnes Milowka corrido bem e as memórias não seriam tão dolorosas. “Parecia que ela estava muito calma até ao último suspiro, enquanto trabalhava para se libertar”, recordou o médico, em declarações a “The Australian”. E o mundo torce para que Richard crie, hoje, novas recordações, ao sabor de uma história de final feliz.