OPINIÃO

Há uma relação entre a privação do sono e a criminalidade?

Há uma relação direta entre problemas de sono e comportamentos violentos e criminosos. As insónias moem mesmo a cabeça. Esta quinta-feira, assinala-se o Dia Europeu da Vítima de Crime. E em maio, há o Lisbon Sleep Summit.

Texto NM | Fotografia Shutterstock

O sono retempera forças, restabelece energias, mas quando não funciona como devia, há comportamentos agressivos que podem manifestar-se. Os problemas de sono têm uma relação direta com a violência e a criminalidade. Mais, a privação de sono pode gerar comportamentos violentos. Não há volta a dar, há uma associação negativa entre estes fatores. «Isto foi provado num estudo nacional com adolescentes portugueses», adianta a neurologista Teresa Paiva, responsável pelo Centro de Medicina do Sono.

Esta ligação é real e pode verificar-se de várias formas. «As vítimas de crime sofrem ou de stress agudo (insónias, flashbacks, irritabilidade, ansiedade, dificuldades de memória e de concentração, fadiga) ou de stress pós-traumático com insónia complexa, pesadelos graves e depressão e fadiga. Outras sentem desrealização, negação, ou sentido de injustiça (porquê a mim?) ou raiva, rancor ou vingança», refere a especialista em comunicado.

«Já as vítimas passivas, como por exemplo os habitantes de uma zona onde se deu um crime, têm problemas de sono na noite seguinte: adormecem mais tarde e têm disrupções na produção de cortisol (principalmente as crianças). E quem assiste a atos violentos ou ações terroristas tende a ter insónia transitória e inclusão dos conteúdos violentos nos sonhos e nos dias subsequentes», acrescenta.

O sonambulismo e algumas epilepsias noturnas podem provocar comportamentos bastante violentos, mas não intencionais.

E não é tudo. Há doenças do sono com comportamentos violentos. Teresa Paiva sustenta que o sonambulismo, os distúrbios comportamentais do sono REM (rapid eye movement) e algumas epilepsias noturnas podem provocar comportamentos muito violentos não intencionais. «E estes factos podem ser usados criminalmente para desculpabilizar criminosos reais», avisa a especialista.

Lisboa recebe, em maio, de 16 a 19, o Lisbon Sleep Summit que, na sua primeira edição, vai centrar-se no sono nas mulheres. Teresa Paiva é uma das organizadoras da iniciativa que também vai abordar o sono e a violência, bem como o sono e os desafios na vida das mulheres, o sono e a maternidade, e ainda algumas coisas «estranhas» que as mulheres fazem à noite.

Este evento destina-se a clínicos, cientistas, entidades públicas e privadas, e toda a comunidade. A ideia é conhecer melhor o sono feminino, analisar o impacto de fatores internos e externos no sono das mulheres em qualquer idade, discutir as diferenças de géneros nestas questões, e ainda tentar chegar a soluções para o que afeta o sono das mulheres.