“Há pessoas que confundem o assalto da Bastilha com o assalto a lojas da Apple”

Notícias Magazine

Hoje, tenho comigo Emmanuel Macron, o presidente de França, para mais uma edição de “As entrevistas que nunca fiz”. Peço que não se assuste pelo facto de eu estar com este colete amarelo, mas é só porque acabei de ter um furo no pneu do carro. Desde já deixe-me dar-lhe as minhas condolências por mais este horrível ataque terrorista em França.
Obrigado.

É nestas alturas, quando uma pessoa vê o que se passou em Estrasburgo, que pensa que, realmente, este país é o paraíso quando cá terrorismo é o ataque a Alcochete.
Portugal é um país de brandos costumes, enquanto vocês foram os primeiros a abolir a pena de morte nós somos os inventores da guilhotina.

Verdade. Mas ando preocupado porque cada vez temos mais franceses a viver em Portugal. Sempre que há bronca em Paris, só penso: estamos feitos, lá vai aumentar o turismo em Portugal. Já tive de ir tirar um curso de francês para poder ser atendido nas lojas do Chiado.
A França está a atravessar um momento complicado.

Ilustração: Marco Mendes

Pois, pior só se tivessem os combustíveis ao nosso preço. Para nós ainda compensa ir a França atestar.
Isso do aumento da taxa dos combustíveis foi só uma desculpa para a extrema-direita vir para a rua tentar deitar abaixo um governo eleito democraticamente.

Sim, mas se calhar foi o chamado deitar gasolina na fogueira.
Infelizmente, há pessoas que confundem o assalto da Bastilha com o assalto a lojas da Apple.

Pois, mas tem que reconhecer que há muito descontentamento em França. A sua liderança tem sido um bocadinho “delícia do mar” – não é carne nem peixe. Quer liderar a política europeia, mas não consegue manter a ordem no seu país. Fica esquisito.
A situação mundial é complicada. Devia ter escutado os conselhos dos mais velhos e não me devia ter candidatado à presidência da França.

Quando diz “dos mais velhos” está a falar do seu avô?
Não, estava a falar da minha mulher.

O meu receio, quando vejo as manifs em França, é que isto possa levar à ascensão da extrema-direita ao poder. Eu vi o Trump a festejar os desacatos em Paris e que havia gente na rua a apoiá-lo. Agora, com este ataque terrorista, já não estranhava se o presidente dos Estados Unidos viesse dizer que em vez de Allahu Akbar, o terrorista gritou “Donald Trump!”
É terrível o que aconteceu em Estrasburgo, mas, por outro lado, espero que este ataque terrorista sirva para unir de novo os franceses.

Espero bem que sim. É ridículo. Vocês tiveram que mobilizar noventa mil polícias para combater os coletes amarelos, depois admiram-se que, quando aparece um terrorista a matar franceses, não têm polícias que cheguem, porque a maioria está a recuperar da carga de pancada que levou.