Há muito para fazer depois da reforma

Texto de Sofia Teixeira

Mário Ferreira, 73 anos, trabalha há quase 60. Começou aos 15, quando rumou de Amiais de Cima, em Santarém, até uma oficina de automóveis em Lisboa, para aprender o ofício de eletricista. Mas sempre que passava na Rua Cavaleiro de Oliveira, em Arroios, o rapaz detinha-se em frente à loja de um mestre relojoeiro que tinha a banca de trabalho em frente à montra.

Mário ficava ali parado a admirar os gestos precisos com que o homem dava nova vida aos mecanismos dos relógios. “Talvez porque já tinha o bichinho dos relógios, que me tinha passado o meu avô: aos oito anos ensinou-me a ver as horas com um relógio de sol, com a estaca espetada no chão. Mais tarde, deu-me esta bússola com relógio de sol”, conta, pegando no pequeno objeto de madeira feito à mão.

Enquanto olhava o relojoeiro pensava que trocaria, de bom grado, o ofício de eletricista por aquele, mas tinha vergonha de entrar e pedir. “Um dia a mulher dele, vendo-me ali parado a olhar, conheceu-me – eles eram da minha terra -, chamou-me e apresentou-me ao marido, que me disse que eu podia ir para lá aprender.”

Foto: Jorge Firmino/Global Imagens

Assim foi. Daí passou para a Ourivesaria Cristóvão, interrompeu a profissão para cumprir o serviço militar obrigatório e quando voltou, três anos depois, começou na casa Rodrigues, Gonçalves e Neves, onde esteve empregado 35 anos. Até o negócio deixar de dar.

Atualmente, a idade da reforma encontra-se nos 66 anos e quatro meses. Em 2019, tem subida prevista para os 66 anos e cinco meses, mas, na altura, a lei permitia a reforma aos 62, a quem, como ele, tinha já 40 anos de descontos.

“Reformei-me. Mas ia para casa com essa idade? Ia para o café jogar às cartas e falar de futebol? Isso pode ter graça um dia ou dois, mas depois também cansa.” Assim, depois de 40 anos a trabalhar para os outros, decidiu abrir a sua própria oficina de relojoaria no número 135 da Rua dos Douradores, em Lisboa, onde se mantém até hoje.

Diz que aproveita a reforma: faz uns cruzeiros nas férias, anda de bicicleta, faz natação, vai alguns fins de semana à terra onde nasceu. Mas, mesmo assim, a mulher e a filha ralham-lhe por tanto trabalho. “Entro às nove da manhã e às vezes só saio às sete e meia ou oito da noite. A minha mulher, a brincar, diz que só me falta trazer para aqui a cama.” Por isso, desde que chegou de férias, há 15 dias, anda a tentar reduzir um bocadinho o horário. Mas parar de trabalhar não quer.

Apesar de a razão principal não ser essa, também é uma forma de ter mais desafogo económico e não ficar só com o dinheiro da reforma. “Sempre trabalhei muito porque nunca quis ter privações. Quando trabalhava por conta dos outros, ainda fazia uns biscates em casa, já à noite, para compor o orçamento”, conta. “Para poder trocar de carro, passear e fazer essas coisas que todos gostamos de fazer.”

A causa das coisas
O Eurofound – European Foundation for the Improvement of Living and Working Conditions – mostra que os seniores portugueses são dos que mais trabalham na União Europeia: em 2015, dos 2,1 milhões de idosos portugueses, 11,3% continuavam ativos, contra a média de 5,5% dos estados membros. Também de acordo com o Inquérito ao Emprego do Instituto Nacional de Estatística (INE), em 2015, 208 mil portugueses continuavam a trabalhar depois dos 66 anos. Esses números irão certamente crescer quando for aprovada a intenção do Governo de acabar com a reforma obrigatória na função pública aos 70 anos, uma regra com quase um século de vida.

“Os seniores portugueses são dos que mais trabalham na União Europeia: em 2015, dos 2,1 milhões de idosos portugueses, 11,3% continuavam ativos, contra a média de 5,5% dos estados membros”

A opção de continuar a trabalhar depois de atingida a idade da reforma tem uma forte componente cultural, mas as motivações económicas também não lhe são alheias. Os números da Segurança Social mostram que, em 2014, 80% dos seniores recebiam menos de 364 euros por mês de reforma.

“As causas culturais e económicas surgem de forma tão intrincada que é difícil afirmar qual é a causa dominante”, esclarece Jacinto Gaudêncio, professor de Psicologia da Escola Superior de Educação da Universidade do Algarve e especialista em questões de envelhecimento.

“Na nossa cultura, é muito valorizado manter uma vida profissional longa, isso é associado a uma maior vitalidade e a uma melhor capacidade física e mental. Por outro lado, especialmente para o numeroso grupo de pessoas com idade avançada e poucos recursos económicos que se defrontam com a expectativa de, na reforma, verem ainda mais diminuídos os parcos rendimentos, o prolongamento da vida profissional surge como alternativa, ainda que preferissem optar pela reforma, se não estivessem tão condicionados”.

O investigador defende ainda que, nalguns casos, os motivos económicos surgem precisamente interligados com a própria tradição cultural, que partilhamos com outros países do sul da Europa, e que dá uma grande ênfase à solidariedade e entreajuda entre as gerações que compõem a estrutura familiar. “Já todos ouvimos falar de casos em que o prolongamento da vida profissional tem como motivo principal a ajuda económica a filhos que ficaram no desemprego ou a netos que estão a estudar na universidade.”

Parar é morrer?
“É importante perceber que a idade da reforma é um marco fictício de entrada na velhice. Ninguém acorda um dia idoso”, defende Alexandra Veiga de Araújo, master em Psicologia Positiva e doutoranda em Política Social (ISCSP), que se tem dedicado ao estudo do envelhecimento. “Logo, é natural que quando a pessoa está bem, sinta que pode capitalizar toda a experiência de trabalho e tenha vontade de continuar a trabalhar”, defende.

No caso de Ana Maria Chaves, a reforma pôs um ponto final numa das suas profissões, mas acabou por intensificar a outra. Até há seis anos era docente na Universidade do Minho (UMinho) e tradutora literária. A tradução era, no entanto, uma segunda profissão: aceitava o que podia, atendendo ao tempo dedicado à universidade e aos inúmeros projetos colaborativos com alunos.

Desde a reforma, sem o compromisso e os horários das aulas, a segunda profissão transformou-se na primeira e única, passando a traduzir a tempo inteiro. Por isso, apesar de se ter aposentado, tem dúvidas que trabalhe menos. “Se calhar até trabalho mais horas, mas com um horário muito flexível”, confessa a tradutora, de 72 anos.

Foto: Amin Chaar/Global Imagens

“Há fases em que traduzo de noite, noutras aproveito a manhã e interrompo à tarde, se não houver nenhum prazo apertado a cumprir.” Passou a ser também mentora e formadora da entretanto criada Associação Portuguesa de Tradutores e Intérpretes (APTRAD) e dá alguns workshops de tradução na UMinho.

A tradução é uma paixão há 40 anos. O que adora na atividade é o jogo das palavras, a reconstrução do puzzle da língua, a necessidade de olhar para o original como quem olha uma partitura, para ouvir a música do texto. Por isso, nunca lhe passou pela cabeça parar de traduzir. “Reformar-me da tradução, era reformar-me da vida”, conta. “Tenho uma vida pessoal e familiar fantástica, mas a tradução também faz parte do meu prazer de viver e da minha felicidade.”

“Reformar-me da tradução, era reformar-me da vida”, conta Ana Maria Chaves, 72 anos, antiga professora na Universidade do Minho

Os últimos anos deram-lhe, aliás, tempo para se dedicar a um tipo de tradução que a arrebata, mas exige mais disponibilidade: a poesia. “A música, a cadência, a métrica e o ritmo fazem com que seja um trabalho que está mais dependente da inspiração do momento, ao contrário da tradução de prosa.” E esse “ouvir” o poema exige tempo e a disponibilidade que agora, sem a atividade de ensino, já tem.

Claro que qualquer reformado que trabalha vai acabar, um dia, por se reformar de vez e “enfrentar” a verdadeira reforma. E isso pode ser assustador. “O processo de transição de vida associado à reforma envolve necessariamente perdas e ganhos que acabam por influenciar o bem-estar psicológico e social dos indivíduos”, frisa Jacinto Gaudêncio. “A maior ou menor ênfase atribuída pelos indivíduos aos aspetos positivos ou aos negativos associados à reforma vai depender, em grande parte, do percurso de vida anterior e das estratégias de adaptação à nova realidade.”

O vício do trabalho
Manter-se ativo, seja através do trabalho que sempre se teve, seja através de outros meios, é fundamental. “Temos de sentir que estamos incluídos num ciclo de reciprocidade. O que por vezes deprime as pessoas que se reformam é deixarem de se sentir úteis e deixarem de perceber qual é o seu papel, e quem são”, analisa Alexandra Veiga de Araújo.

De acordo com a investigadora, de uma forma geral, as mulheres encaixam melhor o fim da atividade profissional. “Já têm o seu papel como mães e avós muito bem definido. Portanto, não têm uma crise de identidade, muitas acabam por ver a reforma como a altura que vão, finalmente, poder ajudar os filhos e netos como gostariam. Os homens, porque a construção social não os aproxima tanto disso, têm mais dificuldade em redefinir quem são através desses papéis familiares.”

José Terroso é um homem de família, que sempre esteve presente na vida dos filhos e dos netos. Apesar disso, é sobretudo pelo trabalho que se define. “Eu ainda não estou na idade da reforma: tenho 57 anos, vou a caminho dos 56”, declara. Na realidade, tem 73 anos, mas diz que desde que se reformou, com 65 anos, começou a contar ao contrário.

José tratou de criar o próprio negócio aos 65 anos, depois de décadas de trabalho na área da metalomecânica, quase sempre por conta de outros. E a experiência que já tinha compensou-o porque construiu um pequeno império. A JTSL – Soluções Técnicas Manutenção Metalomecânica -, registada no dia 13 de março de 2010, 15 dias antes de José se reformar – começou com 50 pessoas num armazém alugado de 800 metros quadrados e hoje, dez anos depois, gere uma média de 200 pessoas por mês, ocupa um espaço próprio com 23 mil metros quadrados e faz trabalho nos quatro cantos do mundo. Mas nem tudo foram facilidades: “Com o tempo, a minha mulher acabou por se adaptar à ideia, mas quando lhe disse que ia abrir uma empresa ficou muito zangada comigo”, recorda.

Confessa que não tem grandes hobbies e aquilo que sabe fazer é trabalhar. “Há quem tenha outros vícios, eu tenho o vício do trabalho. Os piores dias da semana são o sábado e o domingo: vou para casa e não tenho nada com que me entreter”. A exceção são os fins de semana em que os filhos e netos aparecem de visita, aí o caso muda de figura. Também os 15 dias de férias são um problema: durante a primeira semana, ainda se distrai; na segunda, já está ansioso que as férias acabem para voltar ao trabalho.

E o trabalho, note-se, não é só ficar sentado a uma secretária. Faz entre 2800 e 3000 quilómetros de carro todas as semanas, em Portugal e Espanha. “É preciso ir à procura de clientes, não é só ficar à espera que apareçam. Além disso, também é importante visitar os clientes habituais porque sabe como diz o ditado: ‘Quem não aparece, esquece.’”

E se dúvidas ainda houvesse sobre a vontade de continuar e o vigor que sente aos 73 anos, a conversa que se segue trata de as desfazer. Quantas horas por dia trabalha? “É flexível: nunca menos de 14 horas e nunca mais de 24”. E não se sente cansado? “Cansado em que aspeto?” De tantas horas de trabalho e tantos quilómetros de carro. “Nada. Faço mil quilómetros de seguida e saio do carro como se nada fosse. Às vezes, nem paro; outras vezes, só para comer uma sandes e beber um café, mas nem me sento, sigo logo outra vez.” Porquê? “Porque há muito para fazer.”