OPINIÃO

Gente que tratamos pelo nome

A alma das nossas cidades é feita de gente como o Manel, a Açucena, o Sebastião.

Morreu a Açucena, morreu o Sebastião, morreu o Manel. Foi nos últimos meses, e as notícias irromperam assim pelas redes sociais, que nos juntam e nos colocam no mundo, e nos jornais, que nos ligam às comunidades a que pertencemos.

Morreram três pessoas que tratávamos pelo nome próprio, não porque com eles convivêssemos, ou antes, mesmo que com eles não convivêssemos. Três pessoas da cidade. Três pessoas de Lisboa. Três pessoas com alma de cidade. Três almas de Lisboa.

Açucena Veloso era a peixeira de luxo do Mercado do Saldanha. Sebastião Fernandes era o dono do restaurante Nova Goa, fundador do Cantinho da Paz, onde muitos lisboetas aprenderam a gostar de comida picante. Manuel Reis era o dono do Lux e fundador do Frágil, dos bons anos 1980 no Bairro Alto, e que modernizou a noite de Lisboa, que é como quem diz, modernizou Lisboa. Feitas as apresentações, isto para quem não soubesse… mas a verdade é que todos sabíamos. Mesmo os que não os conhecíamos.

As cidades portuguesas, mesmo a maior delas, têm esta coisa, que é tão aborrecida como reconfortante, de todos nos conhecermos uns aos outros, ou pelo menos acharmos que conhecemos.

Mas não foi isso que notei nos obituários destes três lisboetas. Através da forma como deles falámos, mesmo postumamente, percebo novamente como estamos diferentes, nesta cidade que eles ajudaram a mudar.

Estamos mais capazes de nos orgulharmos de nós próprios, de não acharmos provinciano elogiarmos os nossos. Esta estranha sensação de que já não é mau sentirmo-nos pequenos e distantes, mas que, pelo contrário, sermos pequenos e distantes nos torna interessantes.

A diferença não estará tanto neles, ou na sua vantagem sobre tantos outros lisboetas, mas em nós, que os vemos – e a pessoas como eles – com outros olhos. Às vezes, muitas vezes, lendo órgãos de comunicação social que se têm por nacionais, esquecemos estas pessoas que, não sendo grandes, ou heróis, ou especialmente notáveis, são muito mais importantes, pela simples razão de que, atravessando os nossos quotidianos, marcam as nossas vidas reais.

As nossas e as de muitos outros, que, precisamente por se cruzarem também com elas, formam connosco a comunidade a que pertencemos. E, ou não fôssemos nós seres eminentemente sociais, nos tecem a existência.

Nestes três casos falamos de gente que por ter uma visão, um sorriso e uma vida dedicada ao serviço dos outros melhorou a sua comunidade. Gente a quem não poupamos elogios, não daqueles ocos da distância, mas dos que são iluminados por episódios – e pelo orgulho que têm todos os que podem dizer que com eles se cruzaram.

Foi o que aconteceu nesta semana com a morte do Manuel Reis – que raro é percorremos o mural do nosso Facebook e ver a mesma notícia repetida e republicada por quem conhecia o Manel, era amigo do Manel, gostava do Manel, respeitava o Manel, tinha lá em casa uma fotografia do Manel.

Em todas essas vidas que o dono do Frágil tocou estava alguém a quem ele mudou a vida, abriu a cabeça, deu prazer e alegria. Que bem fazem estas pessoas às nossas cidades e aos nossos mundos.