Gary Oldman: de ator secundário à pele do lendário Winston Churchill

Antes de vencer o Globo de Ouro para melhor ator no domingo passado pela interpretação de Winston Churchill – e a história de como o primeiro-ministro britânico se tornou um dos maiores heróis do século XX –, estivemos com Gary Oldman em Londres. O principal favorito ao Óscar com A Hora Mais Negra, em exibição, tem um desempenho magistral a mostrar o lado mais humano do político, mas garante que mantém os pés bem assentes na terra.

Texto Rui Pedro Tendinha, em Londres | Fotografia de Jack English

O Óscar pode estar à porta, mas quando recebeu o convite para ser Winston Churchill em A Hora mais Negra, Gary Oldman não se via nada no papel. «Quem me convenceu foi o realizador, Joe Wright. Foi um salto de fé! Vamos lá, este homem é um ícone e já foi tantas vezes, e tão bem, interpretado, por atores fabulosos. Senti que iria estar a entrar na pele não só de Churchill mas também do Robert Hardy, do Albert Finney ou do Richard Burton. Por outro lado, a situação não era nova para mim. Quando fiz A Toupeira, de Tomas Alfredson, também tive de lidar com o fantasma de Alec Guiness, que em 1979 tinha interpretado a mesma personagem do John Le Carré. De alguma maneira, estes atores tornam-se o rosto da pessoa.»

O ator britânico de 59 anos aceitou porque sabia que estava em boas mãos. Depois foi uma questão de olhar para o homem para lá do político e encontrar caraterísticas que nunca tivessem sido representadas. «Com todos aqueles discursos e aquela linguagem, o que de pior me poderia acontecer!? Mesmo que eu fosse um desastre, a vida continuava. Ninguém iria disparar sobre mim.»

Fazer de Winston Churchill em A Hora mais Negra foi o chamado «papelão», um tour de force de pequenas grandes nuances, retrato fiel da figura histórica, capaz de um jogo de performance quase musical.

E ninguém disparou, de facto. Pelo contrário: Gary Oldman recebeu um Globo de Ouro, foi nomeado para os prémios do sindicato dos atores americanos (SAG) e está prestes a sê-lo pela segunda vez na Academia (em 2012 foi nomeado e derrotado em A Toupeira).

Fazer de Winston Churchill em A Hora mais Negra foi o chamado «papelão», um tour de force de pequenas grandes nuances, retrato fiel da figura histórica, capaz de um jogo de performance quase musical. Temos o Churchill contido, o Churchill épico dos discursos, o Churchill frágil homem de família, o Churchill beberrão e o Churchill maior do que a Terra.

No filme de Wright, o retrato cinge-se ao começo da sua governação, em maio de 1940, em plenos dias decisivos da Segunda Guerra Mundial, quando o primeiro-ministro inglês se recusou a assinar um acordo com a Alemanha e a Itália, mantendo uma atitude de anti-rendição que terá garantido a soberania inglesa perante o poderio militar nazi.

Aos 59 anos, Oldman é para muitos um ator de culto. Um dos poucos nomes mainstream capazes de convocar algum mistério.

O filme centra-se sobretudo na forma como Churchill e a sua liderança foram fundamentais durante a Operação Dínamo – nesse aspeto, A Hora mais Negra funciona quase como obra-companhia de Dunkirk, de Chris Nolan, que se dedica apenas aos acontecimentos no terreno –, que fez que as tropas ingleses conseguissem ser retiradas de Dunquerque perante o ataque alemão, uma retirada que terá mudado o curso do conflito.

Aos 59 anos, Oldman é para muitos um ator de culto. Um dos poucos nomes mainstream capazes de convocar algum mistério. Apesar de nos anos 1990 ter ganho a fama como vilão, conseguiu também uma mão-cheia de papéis iconoclastas em franchises de peso como a penúltima encarnação de Batman ou os vários Harry Potter.

Com Basquiat (em que fazia uma versão de Julian Schnabel), Paixão Importal (Beethoven) e Sid & Nancy (Sid Vicious) provou que tinha um talento único para desaparecer no corpo e alma de grandes figuras. Agora, está a ter o seu período de consagração.

Em A Hora mais Negra Gary Oldman deu tudo o que poderia. Sujeitou-se a horas diárias de maquilhagem e fumou charutos como se não houvesse amanhã. «Cheguei a ter envenenamento de nicotina.»

Em A Hora mais Negra deu tudo o que poderia dar. Sujeitou-se a horas diárias de maquilhagem e fumou charutos como se não houvesse amanhã. «Cheguei a ter envenenamento de nicotina. Estavam todos preocupados com a minha saúde e, em pleno Natal, tive de fazer uma colonoscopia.»

Na verdade, mais à frente, volta a dizer: «Não foi fácil este trabalho. Além do mais, um ator nunca começa a sua criação do nada. Para mim, os papéis biográficos são sempre exaltantes. Adoro ser detetive da personagem e pesquisar. Permite-me literalmente tocar na história, é uma coisa tátil, em vez de ser tudo imaginação. Todo esse processo dá-me muito prazer. Com Churchill, fui em busca de uma sensação, de um feeling. Tentei não o intelectualizar ao agarrar pequenos detalhes que li, mas dar-lhe algo que ficasse próximo das sensações. Como? Através dos ensaios e por intermédio das palavras, isto é, interpretar os pormenores.»

Em todo este processo de promoção do filme, o desconhecimento sobre os factos relatados deixam o ator à beira de um ataque de nervos.

Em todo este processo de promoção do filme, que começou no verão quando foi imensamente bem recebido no Festival de Toronto, o desconhecimento de uma nova geração de espetadores sobre os factos relatados deixam o ator à beira de um ataque de nervos.

«Ainda posso conceber que os americanos desconheçam o que se passou na Europa durante este período, mas depois de muitos visionamentos que a Universal fez aqui no Reino Unido, percebi que os jovens ingleses também desconheciam isto tudo… Na verdade, ao ler o argumento, também descobri muita coisa. Por amor de Deus, estivemos mesmo perto de assinar algo que diziam que era o acordo de paz! Isso seria a rendição! Eu até posso dizer que estava informado sobre a guerra, o meu pai era oficial da Marinha… Mas deste episódio específico não sabia. Nesse sentido, A Hora mais Negra serve igualmente como lição de história e o Churchill era incrível, um homem que teve de enfrentar o seu rei perante uma possível invasão da Alemanha ao mesmo tempo que teve de lidar com toda a política interna!»

Para Joaquim de Almeida, que contracenou com Oldman ainda neste ano em O Guarda-Costas e o Assassino, de Patrick Hughes, comédia de ação com orçamento gigante, representar ao lado do inglês foi uma experiência que não lhe sai da cabeça.

No filme, o agente corrupto interpretado pelo ator português sofre na pele o lado diabólico do vilão de Oldman, que o assusta com um ferimento grave na mão. «Trabalhar com Gary Oldman é trabalhar com um instrumento muitíssimo bem afinado. Ele trabalha as personagens minuciosamente e consegue trazer o melhor que há em nós.»

Dizer que esta é a hora mais dourada da carreira de Oldman é sempre complicado, sobretudo quando nos lembramos da genial reviravolta que conseguiu dar ao seu Drácula de Bram Stoker, de Francis Ford Coppola, ou da espantosa minúcia que mostrou em A Toupeira.

Ao longo dos últimos anos, para pagar as contas, Oldman especializou-se em papéis secundários de filmes de ação série B. Não é pois por acaso que depois de Churchill tenha dito que sim a um filme de pancadaria chamado Hunter Killer, veículo para o action hero Gerard Butler.

A questão é como se passa para outro papel depois da transformação em Churchill. A resposta chega com os habituais tiques gagos da sua linguagem: «Apenas tentei sobreviver ao envenenamento por nicotina. E, acredite, não sou mesmo nada aficionado de charutos!»

Quando lhe falamos dos Óscares, semanas antes da vitória nos Globos e da nomeação aos BAFTA (prémios da Academia britânica), reage com ironia e admite não estar habituado: «Só fui nomeado uma vez. São coisas que não se esquecem… Mas confesso que gostaria de ver o filme e o Joe Wright nomeados. Aquela gente [os membros da Associação da Imprensa Estrangeira em Hollywood] ignorou-me durante trinta anos! Não me posso queixar, ainda estamos no começo desta temporada dos prémios e o filme tem sido muito bem recebido.»

Pormos preto no branco que esta é a hora mais dourada da carreira de Oldman é sempre complicado, sobretudo quando nos lembramos da genial reviravolta que conseguiu dar ao seu Drácula de Bram Stoker, de Francis Ford Coppola, ou da espantosa minúcia que mostrou em A Toupeira. Mas, sim, esta é a sua obra-prima. Um ator intenso que também já foi realizador (Nil by Mouth, 1997, drama indie british nunca comprado para Portugal) e que prepara novo regresso à realização com Flying Horse, a biografia do fotógrafo Eadweard Muybridge.

Outras personagens marcantes de Oldman

Um vilão profissional

Parte do fascínio de Gary Oldman passa pelo requinte como consegue ser vilão. E Hollywood tem sempre propostas destas para ele. A culpa é de Luc Besson, que o filmou em Léon, o Profissional. Aquele assassino de blazer creme cujo pescoço latejava antes de matar tornou-se lendário. O próprio Oldman reconhece que o sucesso da personagem teve consequências: «Depois de Léon comecei a ser escolhido apenas para interpretar gajos maus. “Precisamos de um vilão! Chamem o Gary!”» Na verdade, para os Batman de Chris Nolan, eles queriam que fosse o Scarecrow… A dada altura, tomei uma decisão e disse que não faria mais esse tipo de vilões. A sério, se não me tivessem convidado para fazer de comissário Gordon não me teria envolvido nesses filmes. Enfim, estas coisas não são planeadas. De alguma maneira, um ator não escolhe, é escolhido…»

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