OPINIÃO

Gaivotas em Beja

Na descida da avenida lisboeta com o mais belo dos nomes junta‑se gente de todas as idades, menos uma. Vêm os mais velhos que viveram na ditadura, vêm os da minha idade que foram educados com perspetiva de sonho, vêm muitas crianças e adolescentes – os filhos desta gente toda. Mas é raro ver pessoas entre os 20 e os 35.

Todos os anos desço a Avenida da Liberdade no 25 de Abril. Ainda que tenha nascido depois da Revolução, pertenço à primeira geração que cresceu em liberdade plena – e por isso um desfile de gente armada de cravos vermelhos é‑me tudo menos indiferente.

Ouvi demasiadas histórias sobre a guerra, sobre o medo e sobre a miséria do Estado Novo para olhar para a data com desapego. E rio‑me sempre que alguém tenta partidarizar o feriado – como se a conquista do direito a poder dizer e poder fazer fosse mais de uns do que de outros.

Neste ano reparei nisso, que o desfile tinha convocado gente de todos os quadrantes políticos. Encontrei esquerdalhos assumidos, direitolas convictos, uma mão‑cheia de gente que não se identifica com uma coisa nem com outra. Passados 44 anos, senti nisso um sinal de maturidade democrática. O Chico Buarque podia cantar outra vez e era verdade – a festa ainda é bonita, pá.

Agora há uma coisa que reparo há alguns anos.

Na descida da avenida lisboeta com o mais belo dos nomes junta‑se gente de todas as idades, menos uma. Vêm os mais velhos que viveram na ditadura, vêm os da minha idade que foram educados com perspetiva de sonho, vêm muitas crianças e adolescentes – os filhos desta gente toda. Mas é raro ver pessoas entre os 20 e os 35.

Às vezes penso que é por alguém lhes ter dito que aquela festa era mais coisa de uns do que de outros, outras vezes penso que é por verem no livre arbítrio uma certeza consumada, outras ainda que é por encararem o regime anterior como uma lembrança ténue e extinta.

Uma semana antes de descer a avenida, fui em viagem de campo para Beja com os meus alunos. Dou aulas de Jornalismo na Universidade Lusófona, em Lisboa. Durante três dias, invadimos a redação do Diário do Alentejo, um dos mais antigos e reputados jornais regionais do país, para escrever a edição de 25 de Abril daquela publicação.

Eram no total quarenta alunos, entre os da Lusófona e os do Politécnico local. Foram deles as ideias e as histórias daquele número – depois de aprovadas pelo diretor da publicação. Então, naqueles dias em Beja, aconteceu uma pequena revolução. Não houve cravos nas espingardas nem palavras de ordem gritadas na rua, houve apenas o exercício livre do pensamento.

Houve jornalismo sem censura nem pressão, houve informação nova que ninguém sabia – e isso é como acender uma vela na escuridão. Quase sem darmos conta, quatro dezenas de universitários desceram, à sua maneira, a avenida com o mais belo dos nomes. Na semana passada, por uns breves momentos, viu‑se em Beja um céu carregado de gaivotas.