Fugir para casar está na moda

“Elopement Wedding”: Cada vez mais noivos dispensam as festas tradicionais, com centenas de convidados, e optam por casar fora do país, em cerimónias intimistas. Em qualquer recanto do planeta.

Texto de Sofia Teixeira

É um mundo de coisas a planear e decidir: convites, ementas, decoração, músicos ou DJ, buquê, vestido, lembranças para os convidados, animação para as crianças. São duas horas de fotografias, parte delas com quase desconhecidos, e um dia inteiro a tentar garantir que todos estão bem e se divertem. Face a este panorama, muitos noivos começam a perguntar-se: o dia é nosso ou dos outros? Vale a pena tanta pressão, tanto stress e tanto investimento financeiro? Queremos mesmo partilhar o nosso dia com 200 pessoas? E se fugíssemos os dois para casar?

“Elopement wedding” significa literalmente “fuga para casar”. Não é uma novidade, mas o termo redefiniu-se: o que em tempos era uma verdadeira fuga de casais cujo relacionamento não era aprovado pelas famílias, tornou-se uma opção para quem não se revê nas festas de casamento tradicionais e prefere fazer da sua união um momento descontraído e mais intimista. A Notícias Magazine conversou com três casais que fizeram essa escolha.

Sofia Pontares e Joaquim Filipe Videira
Las Vegas, 12 de setembro de 2014: Casar em Las Vegas, sem Elvis nem néons
Sofia sempre sonhou casar-se, tratar dos preparativos, ter o seu dia de princesa. Para Joaquim, um casamento tradicional não fazia sentido, mas sabia que Sofia preferia casar antes de ter filhos. Fez então a proposta: “Queres casar comigo em Las Vegas?”

Não foi um impulso e levou seis meses de preparação, entre escolher uma capela sóbria e bonita – não queriam néons nem Elvis -, ver detalhes com a “wedding planner” e fazer provas do vestido (que levou de cá) com a mãe e a madrinha. “Quis, em certas coisas, manter a tradição e envolver a família e amigos. Fizemos um convite, com um link para um site onde podiam ir acompanhando o que estávamos a programar, por exemplo.” Reza o dito que “what happens in Vegas stays in Vegas”, mas não foi o caso: o casamento foi transmitido em “streaming” desde a Chapel of the Flowers, na Strip, em Las Vegas. Os amigos e familiares que receberam o link puderam assistir em direto à cerimónia. A lua-de-mel foi entre Las Vegas, o Grand Canyon e Nova Iorque.

Olhando para trás, Sofia não mudava nada. A ida de limusine para a capela, a cerimónia intimista, as fotos pela cidade durante a tarde, o espetáculo do Cirque du Soleil ao fim do dia, a noite de núpcias no Bellagio. “Se somos todos diferentes porque é que casamos todos da mesma forma? Só muda a cor da toalha e as flores do buquê.”

Diana Soeiro e Gonçalo Proença
Bora-Bora, 14 de dezembro de 2011: Casar com os pés na areia no paraíso
“Foi um casamento de paixão”, conta o casal, hoje com dois filhos, ao recordar a sua união em 2011. Diana e Gonçalo começaram a namorar em maio desse ano, decidiram casar-se em setembro e, em dezembro, embarcaram para 13 dias em Bora-Bora, onde tiveram a sua cerimónia de sonho e a lua-de-mel. “A ideia que tínhamos do casamento tradicional é que todos se divertem mais que os noivos.” Reconhecem que há pessoas para as quais faz sentido partilhar o momento com muita gente, mas eles, recém-enamorados, preferiram uma experiência intimista e exclusiva. “Optámos pelo Four Seasons em Bora-Bora, que tem vários pacotes de casamento e lua-de-mel”, conta Diana. Foi o hotel que organizou tudo: maquilhagem e cabeleireiro, fotografia, música, a cerimónia de casamento na praia e um ritual após a celebração no qual foram de barco até um espaço mais íntimo para jantar. “Foi tudo combinado cá e quando chegámos, três dias antes da cerimónia, tivemos tempo para ajustar os detalhes, mas sem stress. A única coisa que foi connosco de Portugal foram as alianças.” Diana recomenda vivamente a experiência.

Como reconhecer o casamento de Bora-Bora em Portugal era um pesadelo burocrático, um mês depois, dia 14 de janeiro, foram a uma conservatória em Portugal assinar os papéis e tiveram um almoço organizado pelos pais de Gonçalo, que tinham ficado com pena de não haver uma festa cá. “Era só um almoço com as pessoas mais próximas, mas acabou por ter 100 convidados. Passámos o tempo de mesa em mesa, a falar com os convidados e quase não estivemos juntos”, ri Diana. “Mas sem problema. Já tínhamos tido o nosso dia de sonho.”

Ana Faro e Ramiro Leite
Nova Iorque, 23 de março de 2014: Copo-de-água de cachorros-quentes na Big Apple

Passava pouco das nove da manhã de uma segunda-feira fria quando Ana Faro e Ramiro Leite saíram do metro na baixa de Manhattan, em Nova Iorque, e se encaminharam para o número 141 da Worth Street na companhia de dois amigos. Por baixo dos casacos e dos cachecóis ele trajava fato, ela um vestido branco com bolas pretas ao estilo anos 1950. A única coisa que os denunciava como noivos era o gancho que Ana levava no cabelo a dizer “I do”. Tinham saído de Lisboa dias antes para fazerem o seu “elopement wedding” na cidade que nunca dorme.

Ana e Ramiro sempre disseram que quando alcançassem os dez anos de namoro pensavam em casar. Mas quando aí chegaram, perceberam que ficavam zonzos só de pensar em organizar uma festa com centenas de convidados. “Além disso, custava-nos o enorme investimento financeiro que isso exige a toda a gente, noivos e convidados”, conta Ana. Resolveram festejar a década de ligação com uma viagem a Nova Iorque, aproveitando para visitar duas amigas. Quando deram por isso, estavam a fazer pesquisas no Google sobre os casamentos na cidade. “No estado de Nova Iorque o processo é muito simples. Tratámos de tudo sozinhos. Bastou entregar o pedido de véspera no cartório. Quando chegámos a Portugal entregámos uma tradução certificada na conservatória para o casamento ser considerado válido”, descreve Ana.

Ana levou um buquê, comprada pela amiga à porta do cartório, e recorda-se sobretudo do ambiente. “Havia muitos casais, o ambiente era descontraído e divertido, mas também muito bonito, com muita gente feliz.” Assinaram os papéis e realizaram uma breve cerimónia para trocar votos. “Depois fizemos o nosso copo-de-água na banca de cachorros-quentes em frente ao cartório.”

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