Fotógrafo John Gallo: «Não trabalho para ser premiado»

A 18 de Maio, John Gallo vai tentar bater o recorde de mais pessoas a assistir a um workshop de fotografia, no Teatro Académico Gil Vicente, em Coimbra. A pretexto da iniciativa, a Notícias Magazine falou com o fotógrafo já premiado várias vezes internacionalmente.

Texto de Alexandra Pedro | Fotografia Global Imagens e John Gallo

São precisos pelo menos 251 participantes para John Gallo, reconhecido fotógrafo documental português, entrar para o Record do Guinness com um workshop de fotografia.

O fotógrafo, já distinguido pelo The Guardian ou pela The Royal Photographic Society, pretende reunir o maior número de pessoas no Teatro Académico Gil Vicente, em Coimbra, quebrar o recorde e acima de tudo reunir novas opiniões e perspetivas sobre a fotografia.

O workshop vai realizar-se a 18 de maio, é gratuito mas sujeito a inscrição via e-mail. Recomenda-se que os participantes tenham no mínimo 12 anos.

Em entrevista à Notícias Magazine, John Gallo não escondeu o entusiasmo com este novo desafio e falou ainda sobre os prémios que já recebeu e como acha que o trabalho fotográfico tem sido desenvolvido em Portugal.

O que pode dizer sobre este workshop que pretende quebrar todos os recordes?
É um enorme desafio. Mais até porque me dá um prazer enorme partilhar com a plateia algumas das minhas perspetivas sobre fotografia, sobretudo porque são contestadas e porque este confronto normalmente gera outras ideias.

workshops há muito tempo?
Quando a Olympus Europa me nomeou como consultor do Professional Program para Portugal que intensifiquei este trabalho. Desde janeiro que tenho conduzido workshops todas as semanas.

E como surgiu a ideia do recorde?
A ideia surgiu quase naturalmente. Questionámos: «Se juntássemos o maior número de pessoas num workshop de fotografia, será que batíamos um recorde do Guinness World of Records?». E decidimos tentar.

Como vai decorrer o workshop?
Vou estar no TAGV [Teatro Académico Gil Vicente] durante uma hora meia, dividida em duas partes: na primeira vou falar de interpretação – qual o significado que o fotógrafo pretende dar a uma determinada imagem quando a produz. E nos outros 45 minutos vamos conversar sobre as tendências da fotografia para 2018 e ilustrar com o trabalho brilhante de alguns dos melhores fotógrafos da atualidade. No final os participantes vão receber um certificado de participação, passando a ser parte integrante do novo recorde. Esperemos.

Porquê o Teatro Académico Gil Vicente?
Por razões simbólicas. O TAGV e o único edifício teatral universitário do País. Está integrado na Universidade de Coimbra, naquilo que de mais importante, notável e referencial Portugal e o Mundo têm no domínio universitário, no domínio da sapiência, do ensino. A Universidade de Coimbra é uma referência desde o século XIII e representa de forma extraordinária a diversidade que caracteriza o nosso tempo, pelo número de alunos oriundos de todo o mundo que a frequenta.

Trabalho do fotógrafo português no metro de Lisboa | Crédito: John Gallo

É importante partilhar os seus conhecimentos fotográficos com mais pessoas?
Há aqui um paradigma enorme, porque de todas as artes a fotografia foi a que mais se abastardou com a explosão das redes sociais e a generalização dos smartphones. Joel Meyerowitz [fotógrafo norte-americano] diz, com toda a propriedade, que agora todos somos fotógrafos, embora apenas alguns consigam produzir arte.

Concorda?
Concordo inteiramente. A relação que quem produz arte estabelece com a fotografia está nos antípodas do snapshot imediato e fácil de quem publica imagens de forma ligeira nas redes sociais. Não há nada em comum entre estes dois mundos. Embora, para gáudio de milhões de pretensos fotógrafos, as redes sociais sejam mais explícitas a premiar os lugares comuns e as más fotografias. Acho que tem uma relação direta com a efemeridade do meio e a falta de educação visual.

Depois de já ter recebido vários prémios internacionais, sente maior responsabilidade para no seu trabalho?
Sem dúvida. Quando reconhecem o nosso trabalho sentimos uma enorme responsabilidade sempre que iniciamos um novo projeto, seja trabalho de autor ou comercial. Quer queiramos quer não, as distinções aumentam a expectativa de quem contrata, mas também as nossas. O problema é que nem todos os projetos reúnem condições necessárias para ser tornarem peças premiáveis, de excelência acima da média

«Não tenho nenhum trabalho preferido, de certa forma é sempre o próximo»

Mas trabalha com esse foco?
Não, não trabalho para ser premiado. Na génese de cada projeto tem que estar uma boa ideia, matéria sensível, moldável, algo que possa receber o meu cunho pessoal, que me dê prazer fazer nascer. Quando no final nos premeiam é mais uma recompensa que recebemos. Mas nenhuma é melhor que a opinião do público.

Que tipo de trabalho gosta mais de desenvolver?
Sócio-documental. Gosto de mergulhar em ambientes que se auto assumem controlados ou estanques. Nem sempre a interpretação que faço dessas descobertas é consensual. Há quem encontre neste tipo de abordagem um certo realismo conceptual.

Qual foi o trabalho mais duro que fez até hoje?
Floresta Negra e Inferno. Este último retrata as semanas subsequentes ao Grande Incêndio do Pedrógão Grande, em parte da zona afetada pela tragédia. Não sobrou nada. Senti-me impotente, frustrado, pequenino e revoltado. Foi a nossa calamidade. A Floresta Negra, que retrata os dias seguintes ao incêndio que lavrou na Serra da Estrela em 2015, lembro-me do cheiro nauseabundo que me fez vomitar várias vezes nos quilómetros que fiz a pé. Estava tudo destruído, foi uma desolação absoluta.

E o que mais gostou?
Não tenho um preferido, de certa forma é sempre o próximo.

O que gostava de fotografar e sente que ainda não teve oportunidade?
A Coreia do Norte, mas sem restrições. Cuba – nesta nova etapa com Miguel Díaz-Canel rumo à conclusão ou inversão da revolução. A miséria nos Estados Unidos da América. O edificado em ruínas em Portugal, sobretudo o industrial.

O que acha do trabalho que se faz em fotografia em Portugal atualmente?
Somos muito criativos e muito bons tecnicamente. Falta-nos, talvez, a coragem para abordar temas mais sensíveis, menos mainstream, menos óbvios. Ainda sofremos de algum pudor pós-revolucionário, evitamos ser frontais em algumas matérias. Na fotografia de eventos já temos muitos profissionais de referência, estamos ao nível dos melhores do mundo. No fotojornalismo e no sócio-documental penso que ainda ninguém se terá afirmado de forma permanente, apesar dos prémios que temos conquistado internacionalmente.

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