Filipe Neto Brandão: clássico e inesperado

Miguel A. Lopes/Lusa

Texto de Alexandra Tavares-Teles

“Estudioso e circunspecto”, para Carlos Abreu Amorim (PSD). “Ponderado e low profile”, na opinião de Telmo Correia (CDS). “Muito trabalhador e organizado”, lembra Isabel Moreira (PS). “Meticuloso e experiente”, acrescenta José Manuel Pureza (BE). “Um parlamentar muito qualificado e respeitado por todos”, resume António Filipe (PCP).

A unanimidade de quem trabalha com Filipe Neto Brandão na 1.ª Comissão (Assuntos Constitucionais, Direitos, Liberdades e Garantias) e o conhece há vários anos vai mais longe: “Jurista rigoroso, extremamente calmo, fleumático, capaz da ironia fina, sempre elegante”. Recém-nomeado para presidir à comissão de inquérito ao caso de Tancos, merece aclamação. “O cargo está bem entregue”, diz Telmo Correia. “Aprovadíssimo”, reforça José Manuel Pureza.

Defeitos, não há? “Ser socialista”, aponta de imediato Carlos Abreu Amorim. Porém, é Fernando Rocha Andrade, camarada de partido e amigo antigo, quem com sentido de humor enumera facetas inesperadas: “1.º Sabe de cor todas as deixas do filme ‘O Pai Tirano’; 2.º Conhece de cor as músicas e as letras do Trio Odemira; 3.º Canta-as. Já o ouvi cantar ‘A igreja estava toda iluminada’ num casamento. E não foi no dele. Quer defeitos maiores?”.

Traço surpreendente, de facto, em alguém que assume o caráter “reservado”. Por isso, afasta o protagonismo mediático e evita debates televisivos. “Não é que nós não o mandemos, ele é que não quer ir”, diz Rocha Andrade, contemporâneo de Filipe Neto Brandão na Faculdade de Coimbra e colega na Assembleia Municipal de Aveiro em 1993. Já então o amigo marcava a diferença pela pose e estilo eruditos, marca distintiva do advogado e que faz match com a imagem clássica, séria, sempre aprumada.

“O tratamento por Vossa Excelência é raro até aqui (AR), agora imagine na Assembleia Municipal de Aveiro”, conta Rocha Andrade, a rir. “Era o único.” Francisco Assis costumava comentar que o colega lembrava um parlamentar do século XIX. José Manuel Pureza exemplifica: normalmente diz-se pouco importante ou passeiro mas “Filipe Neto Brandão dirá sempre perfunctório”.

Casado com uma juíza, descende de uma família de advogados de Aveiro (o pai foi secretário executivo do III Congresso de Oposição Democrática que decorreu em Aveiro, em 1973, e o primeiro governador civil da cidade após o 25 de Abril), o direito foi uma opção natural.

No liceu, em Aveiro, experimentou as primeiras atividades políticas e cívicas, pertencendo a sucessivas associações de estudantes. Porém, seria em Coimbra, para onde rumou em 1986 – licencia-se em 1991 com média de 13 valores – que se iniciaria na política partidária, ligado ao Partido Socialista.

Chega ao Parlamento em 2009. Destes nove anos que já leva destaca “todas as conquistas civilizacionais” em que participou e a legislação que eliminou o sigilo bancário em matérias de investigação criminal. Sobre si, confessa a introspeção e reconhece ter algum sentido de humor. E fica por aí. “Não gosto de falar de mim.”