Fernando Santos é diabético e, aos 48 anos, corre maratonas

Texto de Sara Dias Oliveira

Aos 26 anos, Fernando Santos, atleta federado na modalidade de atletismo, recebeu o diagnóstico. Tinha diabetes tipo 1 e as crises de hipoglicémia ditaram o afastamento da prática desportiva. Foi um murro no estômago, mas não se convenceu. Há oito anos voltou a correr, controla a doença, usa uma bomba de insulina, tem medalhas no currículo e a companhia permanente da sua cadela Retina. Corre todos os dias, no mínimo, 12 a 15 quilómetros. Por ano, são três mil quilómetros de corrida no corpo.

Fernando Santos tem 48 anos, é optometrista, vive na Amadora e meteu na cabeça que não tinha de desistir de uma grande paixão por causa de uma doença crónica e complexa de gerir. Um atleta de alta competição até aos 16 anos, como é o caso, não desiste facilmente. Regressou ao atletismo de cabeça levantada. Voltou por várias razões. “Pela persistência e não querer desistir de fazer o que gosto, e para mostrar a todos os outros que nada é impossível”, conta à NM.

Aos 26 anos, no dia em que fazia três anos de casado, recebeu o diagnóstico e a receita de insulina para o resto da vida. Não foi fácil gerir a informação clínica.

“Em 1996, com 26 anos, parei mesmo de correr devido ao risco de hipoglicémia”, recorda. Era complicado controlar a doença, os picos de açúcar no sangue. Não se resignou, exigiu de si, interiorizou os cuidados que a doença implica e agora, com os pés na estrada, mostra que a diabetes não tem de ser uma limitação. No currículo, tem 14 medalhas nacionais conquistadas na modalidade de atletismo, é recordista em 4×400 metros e campeão internacional em maratona para atletas diabéticos. Colocou a medalha ao peito em Roma, Itália. Começou no atletismo na Juventude Operária Monte Abraão, passou pelo Benfica, regressou à base.

Em 2016, tinha vontade de participar numa maratona, colocou uma bomba de insulina que lhe permitiu controlar os níveis de glicose no sangue e, dessa forma, diminuir consideravelmente os episódios de hipoglicémia, com possibilidade de definir os intervalos temporais necessários para prevenir essas crises. E, assim, correr sem riscos. A bomba tem um sensor que envia dados sobre os níveis de açúcar e que lhe permite saber se deve abrandar o ritmo da corrida.

Fernando Santos tem uma bomba de insulina que indica se deve abrandar o ritmo de treino. Antes disso, chegava a injetar insulina nove a dez vezes por dia.

A diabetes está controlada. Fernando Santos gere a página Correr com Diabetes no Facebook, onde partilha as aventuras com a sua cadela Retina, abandonada num canil, treinada para detetar hipoglicémias. É uma companheira fiel que lhe vai acompanhando os passos e que está atenta ao seu dono.

Ana Filipa Lopes, endocrinologia, é a médica de Fernando. “O Fernando é um verdadeiro campeão e um exemplo de como é possível integrar a diabetes de uma forma positiva. A sua perseverança e vontade de vencer nunca permitiram que o sonho de correr e de ganhar medalhas fosse vencido pela diabetes”, diz à NM. Há alguns anos, Fernando começou a utilizar uma bomba perfusora de insulina associada a uma monitorização contínua da glicose, ou seja, uma forma de tratamento da diabetes tipo 1 muito mais fisiológica.

Com esse pequeno aparelho, que fica ligado à pele por um fio, é possível programar a perfusão de insulina de acordo com as necessidades de cada pessoa. O sistema de monitorização contínua de glicose possibilita a visualização, em tempo real, num ecrã, dos níveis de glicose a cada momento e as suas variações. Um sistema que evita tantas picadas no dedo, estabelece uma comunicação direta com a bomba e permite interromper a perfusão de insulina sempre que os níveis de açúcar comecem a descer demasiado.

“As longas corridas realizadas pelo Fernando traziam este risco real de descidas grandes dos níveis de açúcar, situação designada de hipoglicemia e que pode, em casos mais extremos, ser causa de perda de consciência, convulsões ou morte. A utilização desta bomba de insulina permitiu que o Fernando passasse a correr com muito mais segurança e com uma maior rentabilidade física”, refere a médica.

Mesmo assim, há tarefas que não podem ser esquecidas como substituir de três em três dias os cateteres, que são os fios da bomba, contar os alimentos que se come e dar essa informação à bomba, gerir os menus da bomba de acordo com as situações do dia-a-dia. Fernando faz tudo isso e, dessa forma, “pode continuar a correr pelo seu sonho de ir cada dia mais longe.”

Manter uma dieta saudável, praticar atividade física, manter um peso equilibrado e evitar o tabaco são hábitos que os diabéticos têm de interiorizar.

Há dois tipos de diabetes. A diabetes tipo 1, doença autoimune que surge com maior frequência em crianças e jovens, em que há perda completa da função do pâncreas e, por isso, é necessário fazer uma terapêutica substitutiva com várias injeções de insulina ao longo do dia. E a diabetes tipo 2, que surge mais no adulto, associada a fatores hereditários e a fatores ambientais como o sedentarismo, obesidade e hiperalimentação. Neste caso, a terapêutica é habitualmente oral, mas, por vezes, é necessário iniciar insulina para manter um bom controlo da doença.

Em ambos os tipos de diabetes, são necessários cuidados ou tarefas adicionais no dia-a-dia. É preciso aceitar a doença, adotar medidas saudáveis, ouvir o médico, ter apoio familiar estruturado. “Mantendo esses cuidados a pessoa com diabetes pode ter uma vida perfeitamente normal… tão normal como conduzir, fazer atividades radicais, ir a festas ou até cometer excessos alimentares ocasionais”, adianta Ana Filipa Lopes.