OPINIÃO

Como o Facebook nos transformou em ratinhos

E o que podemos fazer para deixarmos de sê-lo. Ou a face doméstica de uma polémica que envolve Trump, o brexit e as nossas férias nas Caraíbas.

«As pessoas até pagavam para estar no Facebook», dizia‑me uma amiga na ressaca da fuga dos dados da rede social para a empresa Cambridge Analytica, e desta para a manipulação eleitoral. Um encolher de ombros que é a outra face das notícias. A face doméstica do escândalo público.

A visão antropológica. Por entre a indignação, as condenações e os processos judiciais, o asco até, há uma massa de pessoas que, simplesmente, não quer saber. Ou, pior, que, sabendo, ignora, no sentido de o maior cego ser o que se recusa a ver.

Isto lembra perigosamente outros momentos da nossa história. O caldo sociológico em que Mark Zuckerberg tão bem soube meter a sua colher – talvez fosse mais correto dizer a concha – foi o de uma geração narcisista com necessidade de reconhecimento, pós‑Maio de 68.

Uma geração atomizada e egoísta, como já houve outras vezes, no dealbar de enormes tragédias. Será sempre difícil a esta curta distância avaliar o que foi causa ou efeito disto, mas certo é que as redes sociais o acentuaram. Foi assim que o Facebook cresceu e se multiplicou.

Não fosse a sua utilidade, isso não teria acontecido. Como em todos os grandes negócios, criaram a sua própria necessidade. O que o Facebook e particularmente o Instagram nos trouxeram foi a possibilidade de construirmos a nossa própria história. De sermos quem queremos ser e mostrar essa versão ao mundo. Falamos de fake news, devíamos falar de fake lifes.

De pessoas gordas que se fotografam para parecerem magras. De casais infelizes que sorriem online em poses apaixonadas, de comidas lindas e viagens fantásticas, ou de frases que mostram inteligência e rapidez.

Claro que, ao fazê‑lo, não deixamos de ser ratinhos, e de laboratório. Há muito que o Facebook proclama saber mais sobre nós do que nós próprios, graças aos algoritmos com que nos persegue. Esse é o modelo deste negócio.

Num texto cínico do jornal The Independent, dizia‑se: isto não é um escândalo, é como o Facebook funciona. Recolhe dados de pessoas, desenha sistemas que permitem usar esses dados, permite que outros parceiros usem esses dados.

Sim, no fundo fazem o que sempre fizeram os meios de comunicação social, mas em grande escala e a um nível muito mais minucioso: vendem as suas audiências. Mas, ao contrário destes que se limitavam a atuar no espaço público, vendem também as almas delas.

Há grandes diferenças entre uns e outros, e são todas culturais, no sentido da cultura que nos separa da barbárie. Os meios de comunicação são vigiados e escrutinados, legal e financeiramente (pelos seus leitores), o seu trabalho à vista de todos – o que faz que seja fácil esse escrutínio – e é feito de acordo com regras restritas, éticas e deontológicas.

Quem estuda tecnologia sabe que ela é por definição neutra, e o seu perigo depende de quem a usa. Pequeno exemplo: numa das capas desta semana do Correio da Manhã, de um lado havia um anúncio a uma faca de cozinha, do outro a notícia de um jogador que tinha sido atacado com uma faca.

O que separa uma da outra? A lei. A lei que é a única forma civilizada como a comunidade se protege dos perigos que a ameaçam. Levámos muitos anos a chegar aqui, não podemos permitir que seja um rapazinho de Silicon Valley a destruir tudo.

E, sobretudo, não podemos transformar esta dependência de comunicar numa forma de vida. Se não sairmos desta roda nunca seremos mais do que ratinhos – sendo esta a parte mais perigosa desta história.