OPINIÃO

O Facebook, o jornalismo e o zócalo perdido

Saibamos ouvir as nossas comunidades não apenas através de focus groups. Estejamos onde está o leitor.

O Facebook chegou como uma aplicação para gerir amizades… e sim, também, engatar. Um Tinder endogâmico e mais suave – baseado no livro de curso da universidade. Pessoas falavam com pessoas que se apresentavam com uma fotografia tipo passe – que evoluiu para de perfil –, ou sobre pessoas, e avaliavam pessoas com likes. No fundo, aquilo que Mark Zuckerberg criava era um grande campus eletrónico.

Se quisermos ser mais generalistas, uma praça de aldeia. O lugar central onde vamos cochichar sobre vizinhos, discutir alto futebol e política ou ficar a ver os outros a passar.
Já pensaram como é tanto isto que o Facebook é? A praça central das nossas vidas digitais.

Como o digital está cada vez mais presente no real, a destrinça é difícil. É, aliás, interessante verificar que, num tempo em que as cidades são cada vez mais macrocéfalas, haja cada vez menos praças centrais reais – as pessoas estão dispersas.

Os centros comerciais chegaram a representar esse papel, que talvez hoje esteja apenas reservado aos grandes eventos – o futebol é um deles – e festivais de música. Mas já a noção de comunidade verdadeiramente se perdeu.

É aqui que reside o poder imenso do Facebook, o de criar uma organização na dispersão das nossas vidas – reais, informativas e digitais. A timeline é uma cronologia de ideias, factos, amigos e acontecimentos. E está organizada – é linear. O grande desafio de Zuckerberg é esse: o de manter a organização na cacofonia de informação que cada vez mais passa por ali. Daí que de vez em quando tenha de abanar o algoritmo, chutar umas quantas coisas para fora.

Desta vez, foram as notícias, que Zuckerberg e companhia consideram perigosas para a imagem da empresa – quando falsas (e há poucas possibilidades reais de as controlar) –
e, também, menos importantes para o espírito e o envolvimento das pessoas (o tão falado engagement).

Pois, ai ai ai, vieram os produtores de informação e os media mais uma vez queixar‑se do que lhes ia acontecer – depois de também terem usado esse espaço como a sua plataforma de difusão, colocando‑se todos nas mãos de uma empresa. Não os culpo – nós fizemos o mesmo. Até porque seríamos tontos não tê-lo feito, estamos onde estão os nossos leitores. Esta é a praça central onde as nossas notícias são vistas, é nesta comunidade, por muito virtual que seja, que corre muito do fio narrativo do mundo, hoje.

Sempre que penso em Facebook e jornalismo recordo o livro do antigo diretor do New York Daily News, Pete Hamill, News Is a Verb, que li acabada de chegar às redações. Hamill descrevia os media como uma espécie de zócalo, a praça central das cidades mexicanas, onde o espírito latino acentua o calor da comunidade e a comunicação.

Ou antes, Hamill dizia que os media deviam ser isso e que, naquela altura, já em 1998, estavam a deixar de ser, com os staffs dos jornais e tvs e rádios envolvidos em bolhas elitistas, afastados das suas comunidades, descobrindo o que lhes interessava através de focus groups e não de contacto direto.

Isso, o Facebook – e outras redes sociais – trouxe‑nos de novo, sobretudo através de tecnologias interativas que podemos replicar. Assim saibamos estar presentes na nossa comunidade e ouvi‑la com ouvidos de ouvir e olhos de ver. E não apenas através das plataformas.