OPINIÃO

Excesso de realidade

E existe sobretudo uma quantidade inacreditável de sites e edições online onde se tem acesso gratuito e instantâneo à repetição ad nauseam das mesmas notícias, profusamente comentadas por uma multidão igualmente viva e também mesquinha e analfabeta – um flagelo de gente incapaz sequer do pudor de se abster de redigir umas sucessões de palavras enraivecidas e que não chegam a compor frases seja em que idioma for.

Dobrei há muitos anos o canto de uma página da 22ª edição do livro que contém as «200 Crônicas Escolhidas» do escritor brasileiro Rubem Braga (1913-1990).

No fólio marcado está o texto «Os Jornais», originalmente publicado em 1951 e que narra duas simples cenas do quotidiano.

Termina assim: «Se um repórter redigir essas duas notas e levá-las a um secretário de redacção, será chamado de louco. Porque os jornais noticiam tudo, tudo menos uma coisa tão banal de que ninguém se lembra: a vida…»

A frase de Rubem Braga produz, é verdade, um certo efeito poético. Mas não passa de uma falácia. Os jornais (e também as televisões, as rádios e os sites) estão soterrados de vida e tresandam a uma realidade sórdida, suja e vil, muito semelhante àquela que, nos anos 1950, inspirou as melhores crónicas do também brasileiro Nelson Rodrigues (1912-1980): crimes passionais, raptos e violações, mulheres queimadas pelos maridos diante dos filhos, parricídios, vandalismo, cadáveres apodrecendo em casas abandonadas, corrupção e enriquecimento ilícito, gente que não tem onde tomar banho nem uma casa para morar.

Há tanta vida nos órgãos de comunicação social que, para escrever o parágrafo anterior, apenas necessitei de folhear uma única edição de um jornal diário do mês passado. Mas há dias piores. E pasquins ainda mais sugestivos e absolutamente empenhados em produzir um «jornalismo que se cruze com a vida das pessoas» (sobretudo naquilo que ela tem de mais desagradável e torpe).

E existe sobretudo uma quantidade inacreditável de sites e edições online onde se tem acesso gratuito e instantâneo à repetição ad nauseam das mesmas notícias, profusamente comentadas por uma multidão igualmente viva e também mesquinha e analfabeta – um flagelo de gente incapaz sequer do pudor de se abster de redigir umas sucessões de palavras enraivecidas e que não chegam a compor frases seja em que idioma for.

Numa entrevista de 1991 ao Expresso, o escritor José Saramago (1922-2010) dizia que há momentos na história em que «a esperança ocupa o espaço todo». Este não é um desses momentos. Soterrado pelas cataratas de mediocridade, estupidez, vileza e imbecilidade que a comunicação social produz e reproduz a cada instante, qualquer indivíduo acordado, informado e livre de psicotrópicos tem grandes dificuldades para manter ao menos algum optimismo.