EUA: Ninguém desafia a posse de armas como estes miúdos

Sobreviveram a um tiroteiro na escola e estão na rua a exigir políticas de controlo de armas. Podem estes adolescentes fazer o que Obama não conseguiu?

Estavam na capa da Time desta semana. Orgulhosos e zangados, com pose de quem não vai arredar pé. Enough, lia-se na manchete, Basta. Com um ponto final no fim.

Os líderes do movimento #neveragain (nunca mais), estão a mudar a América. Enchem horas de noticiários na CNN, fazem primeira página em todos os jornais, capa em todas as revistas. São miúdos, sim, mas a contestação à política de posse de armas nos EUA nunca se ouviu tão alto.

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A capa da Time com os estudantes de Parkland, Florida.

Quem são afinal estes adolescentes? Sobreviveram ao massacre de dia de São Valentim da Marjory Stoneman Douglas High School, uma escola secundária em Parkland, no estado norte-americano da Florida.

A 14 de fevereiro 17 dos seus colegas foram mortos e outros tantos feridos por Nikolas Cruz, um antigo aluno de apenas 19 anos em posse de uma metralhadora AR-15.

Nos dias seguintes, iniciaram uma série de manifestações contra a violência das armas sem precedentes no país. É verdade que este não é um debate novo. Quando em 1999 12 alunos e um professor do liceu de Columbine, no Colorado, foram assassinados num tiroteio o país debateu fortemente a questão do controlo.

Obama tentou controlar as armas, mas o projeto não passou no Senado.

O realizador Gus Van Sandt fez um filme sobre o assunto, Elephant, e Michael Moore assinou o documentário Bowling For Columbine, que ganharia um Oscar e exporia o lóbi da indústria de vendedores de armas, nomeadamente a National Riffle Association (NRA).

Em 2012 o presidente Obama fez um comunicado ao país em lágrimas. Vinte crianças entre os 6 e os 7 anos e sete adultos tinham sido assassinados num tiroteio na escola primária de Sandy Hook, no Connecticut.

Os democratas empenharam-se em criar uma lei que investigasse o background dos compradores e proibisse a venda de armamento de destruição maciça. Mas o projeto não passou no Senado.

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Protestos a exigir o fim da violência pelas armas depois do massagre da escola primária de Sandy Hook, onde 20 crianças e 6 adultos foram mortos.

Em 2018, pela primeira vez, as coisas começaram a mudar e isso parece cada vez mais dever-se a estes miúdos. Dias depois do massacre, alguns deles fizeram discursos fortíssimos a exigir segurança enquanto estivessem na escola.

O presidente Donald Trump, cuja campanha tinha sido fortemente financiada pela NRA sugeriu que se armassem alguns professores para proteger as escolas. Estes miúdos contestaram: armas só trariam mais armas. E o mundo começou a ouvi-los.

Graças a um punhado de adolescentes, a NRA (National Riffle Association) está a levar a maior tareia da sua história.

Marco Rubio, senador republicano da Florida, participou num debate com estes alunos logo depois do massacre e é bem capaz de se ter arrependido. Cameron Kasky, de 17 anos, perguntou-lhe se ele aceitaria recusar o financiamento da NRA nas suas campanhas. Rubio tentou desviar-se uma série de vezes, mas o miúdo não largou o osso até o político admitir que não.

A NRA parece estar mais encostada às cordas do que alguma vez na sua história – e agora os seus apoiantes passaram ao ataque. Nas redes sociais vários apoiantes das armas acusam estes miúdos de serem manipulados pela esquerda.

Dana Loesch, porta-voz da NRA, não se cansa de ir à televisão defender a necessidade de defesa da Segunda Emenda – que defende o uso de armas para proteção da vontade do povo.

Mas a associação está a levar uma tareia: vários dos seus parceiros desistiram dos acordos e deixaram de dar descontos aos associados. Empresas de aluguer de carros, cadeias de hotéis, lojas a retalho estão a deixar cair a NRA. Até duas das maiores companhias aéreas, a Delta e a American Airlines, deixaram cair os acordos.

Rubio, senador republicano, foi encostado às cordas por um miúdo que lhe perguntou insistentemente se estava disposto a abdicar do apoio da NRA.

No último sábado, em Washington, estes miúdos levaram meio milhão de vozes a Washington para exigir o controlo de armas. A March for Our Lives (Marcha para as Nossas Vidas) espalhou-se a mais de 500 cidades americanas e estrangeiras e está a lançar como nunca antes o debate público sobre o controlo de armas.

Segundo a CNN, os Estados Unidos da América são o país do mundo com mais tiroteios em escolas e a nação desenvolvida com mais mortes por armas. Não há praticamente controlo sobre quem compra armas de grande impacto. Em muitos estados, é possível comprar uma arma aos 18, mas uma cerveja apenas aos 21.

Estes são os líderes da nova geração anti-armas:

Emma Gonzaléz

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É um dos rostos mais conhecidos dos protestos dos estudantes. Com 18 anos, Emma é uma sobrevivente do massacre que, dias depois da tragédia, proferiu um poderoso e emocionante discurso dizendo que «o discurso dos políticos era uma treta.»

Jaclyn Corin

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A presidente da associação de estudantes da escola de Parkland tem desafiado o presidente no Twitter. Depois de Trump vir dizer que o país estava a ir no bom caminho, «apesar dos meios de comunicação social falsos dizerem o contrário», a rapariga respondeu que «96 mortes este ano para as armas não é ir no bom caminho.» Teve mais partilhas que o presidente.

David Hogg

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Tem 17 anos e é um dos rostos mais frequentes do movimento na televisão. No sábado, durante a marcha sobre Washington, foi ovacionado quando disse: «Daqui a uns anos poderemos votar e exigir que os nossos melhores políticos sejam os nossos melhores cidadãos. Como as coisas estão é que não dá.»
Naomi Wadler
Aos 11 anos, é o rosto mais novo da contestação. Diz falar em nome de todas as mulheres afro-americanas que são vítimas da violência das armas.

Cameron Kasky

«Bem vindos à revolução, disse no sábado este aluno de Parkland de 18 anos. Nos dias a seguir ao massacre deu várias entrevistas à televisão dizendo que, mais do que medo, sentia-se zangado.

Edna Chavez

Tem 17 anos, vive nos arredores de Los Angeles e fez um discurso no sábado sobre a morte do seu irmão, Ricardo. «Não é normal que neste país tenhamos de aprender a desviar-nos de balas antes de aprendermos a ler.»

 

 

 

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