Estrela Matilde, a alentejana que se apaixonou pelo Príncipe

Texto de Filomena Abreu

Era uma vez uma menina que se apaixonou por um príncipe… Mas não por um qualquer: foi pela pequena ilha do Príncipe, em São Tomé. O nome dela é Estrela Matilde, 32 anos, alentejana. E esta é uma história feliz. Sem fadas nem dragões, mas com muito trabalho, esperança e, acima de tudo, bastante amor.

Vamos recuar seis anos. Estrela aceita uma proposta de trabalho de seis meses para certificar ambientalmente o Hotel Bom Bom Island Resort, no Príncipe. Tinha acabado o mestrado em Biologia da Conservação, em Évora, e a oportunidade em África pareceu-lhe boa ideia, ainda que não estivesse diretamente relacionada com a sua área de trabalho. Foi amor à primeira vista. “Pelas pessoas, pelas ruas, pelas crianças, pela floresta, pelo mar”, conta.

As oportunidades para fazer mais e melhor foram surgindo e seis anos depois esta Estrela ainda por lá brilha. À frente de uma Organização Não Governamental, com uma equipa de 47 membros “que fazem todos os dias a diferença na conservação da natureza da ilha, trabalhando com as entidades regionais e nacionais.”

São muitos os projetos inseridos na Fundação Príncipe Trust, que tenta alcançar o desenvolvimento da ilha através de ações sociais e ambientais, respondendo aos desafios da Reserva Mundial da Biosfera da UNESCO e à estratégia regional de desenvolvimento sustentável. Um desses desafios é a Cooperativa de Valorização dos Resíduos, distinguido recentemente na nona edição do Prémio Terres de Femmes , da Fundação Yves Rocher.

Tudo começou em 2016 quando um grupo de mulheres da comunidade de Porto Real abordou Estrela para lhe pedir ajuda com a criação de um negócio. Num ano, tornaram-se numa cooperativa feminina ligada à valorização dos resíduos sólidos da ilha. Obtiveram formação na criação de joias, recuperaram um centro de compostagem abandonado e abriram uma fábrica de reciclagem para produção de peças artesanais, que são vendidas aos turistas.

Cada conta que produzem resulta da moagem manual de garrafas de vidro, cozidas em forno de lenha e posteriormente pintadas à mão. Graças à motivação e à persistência de Estrela, o que este grupo faz transcende o fabricar joias. “É mais do que criar postos de trabalho e valorizar resíduos. É educar, sensibilizar, mudar toda uma geração.” Hoje existem dez famílias cujo rendimento provém inteiramente da valorização de 80% dos resíduos da ilha, com joias únicas, feitas inteiramente no Príncipe.