Engravidar sem transmitir o VIH para o bebé

Texto de Cláudia Pinto

O diagnóstico chegou de forma abrupta, numa consulta ginecológica de rotina. Ana (nome fictício) ficou a saber que tinha VIH depois de realizar análises ao sangue. Tinha 28 anos e namorava há dois com Pedro, que também prefere ser identificado com um nome que não é o seu, dado o peso do estigma ainda muito presente quando se fala de VIH/Sida.

“Foi um choque. Em segundos, a Ana sentiu o mundo a desabar”, explica o companheiro, enquanto recorda o estado de pânico da namorada quando soube a notícia. “Estava absolutamente desfeita”, diz. A partir daí, Ana afastava Pedro de qualquer tipo de intimidade. “No início de relacionamento, tínhamos uma vida sexual muitíssimo ativa e começámos a colocar a hipótese de eu também estar infetado”, explica Pedro. Após a realização dos exames necessários, até à data, não há sinal de infeção ou de qualquer problema associado.

O episódio aconteceu há dez anos, mas as marcas continuam presentes. O caminho tem sido longo e Ana confessa que não voltou a ser a mesma pessoa. O casal fez várias sessões de psicoterapia, tanto individualmente como em conjunto, na Associação Abraço, o que acabou por ajudar Ana a aceitar a doença. Mas não foi um processo imediato. No começo, optou por viver muito fechada em si própria e isolou-se, decidindo procurar ajuda psicológica apenas cinco anos depois do diagnóstico.

“Naquele momento, a minha grande preocupação era ter infetado o meu namorado.” No entanto, a postura de Pedro não deixou de a surpreender. “Nada alterou na nossa relação. Ele deu-me imensa força”. Pedro, por seu turno, relembra a ideia fixa que se apoderava da companheira por achar que “ia morrer e que estaria condenada”.

Fizeram muitas perguntas, as dúvidas iniciais eram uma constante, e sentem hoje que o maior inconveniente da doença é mesmo o preconceito. “Aprendi a lidar com a doença mas a minha atitude na sociedade é diferente. O único local onde assumo a minha infeção é no dentista, por uma questão de segurança”, conta Ana. Mesmo no grupo de amigos e familiares, só um número muito restrito de pessoas tem conhecimento do problema.

“Aprendi a lidar com a doença mas a minha atitude na sociedade é diferente. O único local onde assumo a minha infeção é no dentista, por uma questão de segurança”

Indetetável = Intransmissível
O vírus de Ana está “indetetável” devido à medicação antirretroviral que toma diariamente, o que significa que não está em circulação e não há risco de contágio para outra pessoa. No passado mês de junho, a Abraço lançou a campanha “I=I” (Indetetável = Intransmissível) no seguimento do movimento lançado a nível mundial, em 2016, “U=U” (Undetectable = Untransmittable) como forma de diminuir o estigma da doença.

O impacto já se fez sentir junto das pessoas que vivem com a infeção VIH. “Tem permitido diminuir a pressão que estas pessoas sentem, conduzindo a uma vivência mais serena em vários aspetos das suas vidas”, explica o presidente da associação, Gonçalo Lobo.

Em junho, a Abraço lançou a campanha “I=I” (Indetetável = Intransmissível) no seguimento do movimento lançado a nível mundial, em 2016, “U=U” (Undetectable = Untransmittable) como forma de diminuir o estigma da doença

Apesar de o projeto de paternidade não estar em cima da mesa, Ana e Pedro foram alertados pela médica ginecologista que tinham saído estudos clínicos recentemente que confirmavam não haver perigo de contágio para o bebé. “Acabei por sentir um desbloqueio e foi isso que me ajudou. Na minha cabeça, ter um filho era algo que poderia não vir a acontecer”, explica Ana.

Essa mudança de paradigma veio tranquilizar muitos casais que nem colocavam a hipótese de ter um filho. “No caso de o homem estar infetado e a mulher não, o que estava recomendado desde há uns anos era a lavagem de esperma. Inicialmente, havia dois centros em Portugal a fazer esse procedimento, no Porto e em Lisboa, mas rapidamente fechou o primeiro, passando a ser possível realizar o procedimento [com um custo elevado] apenas na capital, o que era um problema para as pessoas do resto do país. A consulta tinha um grande tempo de espera e os custos não eram comparticipados na totalidade”, explica Ana Rita Silva, médica infeciologista do Hospital Beatriz Ângelo, em Loures.

Na comunidade médica, já se suspeitava que, se o marido fizesse a medicação corretamente, o risco de transmissão era baixo, mas não havia provas científicas que permitissem aos médicos afirmá-lo com segurança nem sugerir às pessoas para ter relações sexuais desprotegidas em segurança. No caso de a mulher estar infetada e o companheiro não, a recomendação passava por fazer medicação antirretroviral de forma a atingir a carga viral indetetável.

“Além de aumentar as defesas, o objetivo da terapêutica passa por diminuir a quantidade de vírus em circulação, permitindo não transmitir a infeção ao homem, e posteriormente ao bebé, caso quisesse engravidar”, esclarece a médica.

Sendo que o ideal é preparar a gravidez com tempo, Ana Rita Silva explica que isso nem sempre acontece. “Temos casos de gravidezes inesperadas, e no caso de a mãe estar infetada, temos de garantir que a medicação não trará riscos para o bebé pois nem todos os fármacos podem ser usados de forma segura durante a gestação”, explica.

E, agora, já não vou poder ser mãe?
É uma das questões colocadas em consulta perante um diagnóstico de VIH. “Atualmente, é completamente seguro ter filhos desde que nos certifiquemos que o vírus está suprimido há, pelo menos, seis meses. Além disso, é possível a mãe ter um filho de parto natural, sem necessidade de recorrer a cesariana”, afirma a médica.

Quando há o desejo de engravidar, uma das recomendações que se deve fazer a mulheres infetadas é que não o façam num curto espaço de tempo para haver margem para a medicação atuar.

“Atualmente, é completamente seguro ter filhos desde que nos certifiquemos que o vírus está suprimido há, pelo menos, seis meses. Além disso, é possível a mãe ter um filho de parto natural, sem necessidade de recorrer a cesariana” (Ana Rita Silva, médica infeciologista)

A comunidade médica também ganhou algum descanso com a posição recente da Organização Mundial de Saúde que considera que “as mães portadoras da infeção pelo VIH, que se encontram em acompanhamento regular e que alcançam e mantêm uma carga viral indetetável, podem amamentar os seus filhos, não constituindo risco de transmissão”, acrescenta Gonçalo Lobo.

No dia a dia, o mais importante para Ana, que é acompanhada desde o começo pelos mesmos médicos, no Hospital de Santa Maria, é não esquecer as tomas. “A medicação é sagrada. Este vírus é muito inteligente e tento não correr riscos”, assinala. As pessoas com VIH têm consultas de vigilância, de seis em seis meses, se estiver tudo bem e se houver “boa adesão à terapêutica”.

E é precisamente aqui que podem surgir problemas. “Infelizmente, por vários motivos, há pessoas que falham as tomas, param de tomar a medicação durante alguns períodos e o vírus passa a estar detetável.

Ana e Pedro foram pais de uma menina há três anos. “É linda e nasceu cheia de saúde”, explica o pai, que não esquece o momento em que assistiu ao parto. A gravidez decorreu sem necessidade de cuidados extra. Os pais têm um negócio próprio e a filha está no infantário. “Neste momento, temos uma vida perfeitamente normal”, sublinha Pedro.