OPINIÃO

Encurtaram o 2017!

Aos «2... 1... 0!», o Terreiro do Paço pôs-se aos berros e eu, em Calendário (freguesia de Vila Nova de Famalicão), salto de folha, engulo as passas e viro a taça. Sem o saber, eu perdia cinco minutos que não me serão descontados em abril quando pagar o IRS de 2017.

Nós, telespetadores da RTP1, acabámos 2017 com uma fascinante fake news. Foi-nos anunciada uma mentira e engolimo-la, empurrada por doze passas e um gole de champanhe. E depois de termos exposto publicamente a nossa candura – fosse no Terreiro do Paço, frente às câmaras, fosse em casa, frente à sogra –, passámos de imediato a cúmplices da mentira. Proclamámos também nós a fake news, gritámo-la e batemos panelas em seu louvor. «Viva! Chegou o 2018!»… Chegou nada, faltavam cinco minutos.

E, no entanto, centenas de milhares de portugueses tornaram-se durante segundos breves filhos de Putin ou adeptos de Trump, propagandistas da mentira. Naquele momento, alguns, com ganas de comentadores da Fox, chegaram a epilogar sobre o 2017 que já morrera (mentira, ainda não tinha ido) e entusiasmaram-se com o 2018, já Ano Novo (mentira, ainda tinha barbas). Foi um frenesim coletivo baseado numa inverdade.

Como diria um conhecido linguista: «O que passou-se?» Pois, o trivial que costuma passar-se no surgimento, na grandeza e na decadência de uma fake news, com a repetição constante que levou os lexicógrafos do britânico Collins Dictionary a eleger fake news como a palavra do ano 2017. No estertor deste, mais uma grandiosa mentira surgiu, como a verdade de um «não» de namorada que nos pareceu um «talvez». O «não» foi claramente dito, mas preferimos ter ouvido outra coisa. Ela não pestanejou levemente ao dizê-lo? Não era isso um sinal?…

Foi assim: Filomena Cautela, apresentadora do programa 5 para a Meia-Noite, uns olhos azuis ao serviço de um vulcão com grande sorriso, subiu para o palco do Terreiro do Paço vestida de boneco de neve. Não era isso que nos iria esfriar as emoções, lá, à beira-Tejo, ou em Mogadouro, na quinta. Filomena, sem cautela, disse que ia fazer o que sempre desejou, um countdown, a contagem decrescente até ao novo ano.

Ela preveniu que faltavam cinco para a meia-noite. Mas será que preveniu? No Terreiro do Paço era a multidão aos gritos e em Sernancelhe eu estava ocupado a contar as passas. O boneco de neve sacou de grandes quadrados de papel com dez números e gritou os segundos, à multidão na praça e a mim lá em casa: «10… 9… 8…»

Aos «2… 1… 0!», o Terreiro do Paço pôs-se aos berros e eu, em Calendário (freguesia de Vila Nova de Famalicão), salto de folha, engulo as passas e viro a taça. Sem o saber, eu perdia cinco minutos que não me serão descontados em abril quando pagar o IRS de 2017.

Ano que me será contado todinho, apesar de ele ter sido amputado de 300 segundos (basta fazer as contas) e eu, desse 2017, não ter podido usufruir todas as regalias que o Estado me dá em troca – segurança, estradas, justiça… Vou pagá-las por inteiro, como se fossem 525 600 minutos (já fiz as contas), quando na verdade em 2017 só vivi 525 595 minutos.

Resta aprendermos com esta mentira que ocorreu sob os olhos da multidão e com instrumentos de fácil acesso (chamam-se relógios) que podiam desmontar a tramoia. Uma fake news é exatamente o que foram os cinco minutos roubados ao povo no Terreiro do Paço.

Um agente difusor, talvez inocente (embora aqueles olhos de Filomena me pareçam moscovitas), uma avidez da notícia (quem não quer apressar a taça de champanhe?) e uma vontade coletiva de participar numa mentira que está a dar. As fake news são imparáveis.

Resta saber quem criou esta fake news. Eu não sei, mas suspeito que Assunção Cristas não tenha dúvidas de que a culpa do encurtamento de 2017 seja do Costa. Com o ano mais curto, a dívida pública que estava previsto ser de 250 mil milhões de euros, nas contas finais, com menos cinco minutos descerá nem que seja um niquinho. O banzé que o Centeno vai fazer com mais esta vitória.