Emplastro: quem é este homem que está em todo o lado?

Chama­‑se Fernando Santos, tem 46 anos, nasceu no dia 25 de abril. É o sócio número 47560 do Futebol Clube do Porto e 19443 do Boavista. Tem casa na Madalena, Vila Nova de Gaia, mas prefere dormir em aeroportos. Continua a colar­-se aos diretos das televisões e aparece em todo o lado. Estádios, igrejas, tribunais, manifestações, discotecas. Não usa telemóvel, tem uma agenda preenchida, e adora viajar de avião. Esta é a história do homem que se tornou o Emplastro mais famoso do país.

Texto Sara Dias Oliveira Fotografias Leonel de Castro/Global Imagens

Fernando Santos dorme num banco do Aeroporto Francisco Sá Carneiro, no Porto, na zona das partidas, com a cabeça metida dentro da camisola de lã. A almofada é um saco plástico que encheu com bolas feitas de papel higiénico.

Corpo esticado, braços cruzados, calças de ganga coçadas, sapatilhas nos pés. Indiferente ao vaivém dos passageiros, dos beijos e abraços das despedidas, da azáfama das mulheres de limpeza, das rondas dos seguranças, dos comissários de bordo e hospedeiras que entram e saem, Fernando dorme sem lençóis nem cobertores, apenas com a roupa do corpo.

Ele é o Emplastro, alcunha que se colou à sua figura, ou Animal, batismo que surgiu nos Super Dragões, ou Nando, para quem sabe o seu nome e o abrevia, ou Pintas como lhe chamam os irmãos por causa do sinal de nascença que tem no rosto.

Dentro da camisola, junto ao peito, guarda os cartões de sócio do Porto e do Boavista, cartão de cidadão, passes dos metros do Porto e de Lisboa agarrados a duas fitas­‑colares ­– uma delas é de Serralves.

Num pequeno saco plástico fechado com um nó tem papelada que não mostra a ninguém e na carteira, junto à cintura, guarda as moedas que vai cobrando a quem lhe pede para tirar uma selfie ou fazer um vídeo.

Ele é o Emplastro, alcunha que se colou à sua figura, ou Animal, batismo que surgiu nos Super Dragões, ou Nando, para quem sabe o seu nome e o abrevia, ou Pintas como lhe chamam os irmãos por causa do sinal de nascença que tem no rosto.

Fernando Santos traz sempre consigo o passe e os cartões de sócio do FC Porto e do Boavista.

Fernando Jorge da Silva dos Santos nasceu a 25 de abril de 1971 numa família pobre. Tem três irmãos, Manuel de 47 anos, Paulo de 45, Luís de 43, e a irmã Fátima que ainda não tem 40. O pai Alfredo morreu quando ainda eram crianças. A mãe Laura morreu há pouco mais de cinco anos, vítima de cancro.

Andou com os dois irmãos Manuel e Paulo na Cerci de Vila Nova de Gaia, trabalhou numa fábrica de máquinas para padarias e confeitarias em Vilar do Paraíso, Gaia. Era ajudante, fazia o que os serralheiros lhe pediam. Saiu da fábrica depois de conseguir uma pensão de invalidez pedida pela mãe. Nessa altura, começou a pedir moedas por Vila Nova de Gaia e pelo Porto, em Santo Ovídio, na Foz, à porta de igrejas. Até que apareceu nas televisões e nunca mais saiu do ar.

Fernando não sabe ler, apenas consegue assinar o seu nome. Conhece os números, lê­‑os bem nos ecrãs dos horários dos aviões. «O aeroporto é meu», repete cinco vezes.

É presença assídua dos diretos de jogos de futebol, mas costuma aparecer onde há uma câmara a filmar ou a fotografar. Ainda há poucas semanas, surgiu nos diretos no campus de Justiça de Lisboa a propósito da Operação e­‑Toupeira, ao lado dos advogados do processo que iam prestando declarações antes das medidas de coação serem divulgadas.

Fernando não sabe ler, apenas consegue assinar o seu nome, devagar com letra arredondada. Conhece os números, lê­‑os bem nos ecrãs dos horários dos aviões. «O aeroporto é meu», repete cinco vezes.

Teresa chegou a cruzar­‑se com ele, há mais de 30 anos, quando andava de camioneta nas ruas da Madalena. A figura causava­‑lhe certa estranheza. «Na altura, tinha um bocado de medo», confessa. Mas esse tempo já lá vai.

«Está aí há anos», diz uma hospedeira que passa com um sorriso. Fernando costuma ajudar as empregadas a arrumar os tabuleiros num café na zona das partidas. As senhoras acham­‑lhe graça e já não estranham as sessões de selfies que acontecem por ali. «Ainda agora esteve aqui, é tranquilo, não arranja problemas», diz uma delas.

«Eram oito e tal da manhã e já estava a levantar os tabuleiros», conta Teresa Teixeira que trabalha numa banca de gomas e doces no aeroporto. «É pacífico, anda sempre sozinho e fala com toda a gente.» Chegou a cruzar­‑se com ele, há mais de 30 anos, quando andava de camioneta nas ruas da Madalena, onde viveu. A figura causava­‑lhe uma certa estranheza. «Na altura, tinha um bocado de medo», confessa. Mas esse tempo já lá vai.

«A minha mãe gosta muito dele, vemo­‑lo tantas vezes na televisão, naqueles programas de domingo à tarde, e quando há futebol, está sempre atrás das câmaras, parece que faz de propósito».

Fernando fuma Marlboro. A entrada da porta giratória do aeroporto é a zona de concentração dos fumadores. Alexandre Oliveira acaba de chegar de Paris, filho de emigrantes portugueses que vivem em França, de visita à família, reconhece o Emplastro e pede­‑lhe para tirar uma selfie.

Fernando pede­‑lhe um euro, Alexandre recusa dar­‑lhe a moeda e desiste da fotografia. «A minha mãe gosta muito dele, vemo­‑lo tantas vezes na televisão, naqueles programas de domingo à tarde, e quando há futebol, ou outras coisas, está sempre atrás das câmaras, parece que faz de propósito», diz. Voltará a França sem selfie com o Emplastro. Pega no telemóvel e liga à mãe a contar­‑lhe o que se passou. «Quando ele pediu a moeda, até pensei que estava a gozar.»

Uma selfie, uma moeda

Qualquer fotografia ou vídeo tem custos. Carla Correia já se habituou ao procedimento e não se importa nada. Sempre que vai ao aeroporto mete conversa com Fernando, senta­‑se ao lado dele, e faz um vídeo engraçado. Naquele dia, pagou­‑lhe dois bolos, um copo de leite, e deu­‑lhe três euros. Parecem dois amigos à conversa.

Carla coloca o telemóvel a postos para mais um vídeo com direito a apresentação. «Diretamente do aeroporto, mister Fernando.» Fernando, de olhos postos na câmara do telemóvel, diz que «o Porto é o maior».

No início deste ano, poucos dias depois de ter aparecido nos diretos da passagem de ano na Avenida dos Aliados, na Baixa do Porto, Fernando meteu­‑se num avião e voou para São Miguel, Açores.

Carla sabe pouco da vida de Fernando e, naquele dia, riem­‑se bastante. «Ele é um ícone, é conhecido em todo o lado, vai para todos os sítios para onde o levarem.» Já o encontrou em vários jogos do Porto e fora do estádio do Dragão. «Até devia ter lá uma estátua», brinca.

No início deste ano, poucos dias depois de ter aparecido nos diretos da passagem de ano na Avenida dos Aliados, na Baixa do Porto, Fernando meteu­‑se num avião e voou para São Miguel, Açores. O que foi lá fazer? Os irmãos Manuel e Paulo encolhem os ombros. Não sabem, sabem apenas que o Pintas regressará dentro de dias.

Os três irmãos partilham uma pequena e modesta casa, na Madalena, nas traseiras da igreja da freguesia. Fernando raramente dorme na cama do quarto que partilha com o irmão Manuel, logo a seguir ao quarto de Paulo. O cobertor da cama do Pintas veio de Fátima, conta Manuel, que tem muitas semelhanças físicas com o irmão.

Fernando aparece de vez em quando lá em casa para tomar um banho ou trocar de roupa e já pouco para nos cafés ali perto. Está proibido de entrar em alguns.

O quarto está cheio de santinhos, imagens e pequenas estátuas, herdadas da mãe, religiosa, presença assídua em excursões a Fátima. Todos os anos, os irmãos Santos vão a Fátima. Manuel diz que vai de bicicleta, Fernando de autocarro.

Fernando aparece de vez em quando lá em casa para tomar um banho ou trocar de roupa e já pouco para nos cafés ali perto. Está proibido de entrar em alguns, por algumas «asneiras» que incomodaram os donos. Foi avisado e deixou de frequentar alguns locais.

A dois passos de casa, tem uma paragem de autocarros que naquela rua estreita quase roçam nas casas cada vez que ali passam. É um passageiro conhecido e é dali que parte para o Porto.

Um euro é o preço a pagar por uma selfie ou vídeo com Fernando Santos. Carla Correia já o conhece bem e sempre que o encontra no aeroporto cumpre o ritual.

Manuel e Paulo vão almoçar e jantar a casa do irmão mais novo Luís, que trabalha por conta própria na construção civil e mora num apartamento não muito longe daquela casa. Luís é o tutor dos três irmãos, mas raramente põe a vista em cima de Fernando. Os outros dois costumam andar por ali, Manuel dá uma ajuda numa rulote de bifanas para os lados de Valadares, Paulo faz biscates e recados que aparecem.

A casa precisa de um telhado novo e Luís vai tratar disso. Manuel mostra a roupa que pôs a secar e queixa­‑se que o Pintas não faz nada em casa. «Se tem habilidade para aparecer na televisão, devia ter habilidade para tratar dos sacos do lixo», diz, prometendo que não lhe lavará mais a roupa.

O que foi fazer a São Miguel? «Ver vacas», responde a rir, dizendo que dormiu numa esquadra da PSP aberta 24 horas. «Não tenho medo de andar de avião», garante. Só viaja na Ryanair. «Na Ryanair, à patrão», como diz.

Na Madalena, Fernando também é conhecido por Palhinhas, alcunha da mãe. A mãe, que trabalhou numa fábrica de cerâmica e de tijolos, para os lados de Coimbrões, Gaia, ainda teve um segundo companheiro, Joaquim, que vendia ferro-velho. Os vizinhos lembram­‑se de uma senhora sempre atenta aos seus rapazes.

Uma família pobre e modesta. Fernando anda consumido com a viagem aos Açores, pagou 120 euros pelo bilhete de ida e volta, o avião não descolou à hora marcada de São Miguel. Um atraso de seis horas. «Estava tempestade», lembra.

O que foi fazer a São Miguel? «Ver vacas», responde a rir, dizendo que dormiu numa esquadra da PSP aberta 24 horas. «Não tenho medo de andar de avião», garante. Só viaja na Ryanair. «Na Ryanair, à patrão», como diz.

«É uma figura pública, toda a gente o reconhece, e é estranho como ele consegue estar em todo o lado», comenta João Sousa.

Abre o pequeno saco plástico e mostra a reclamação que João Sousa, de Marco de Canaveses, fez no aeroporto de Ponta Delgada e um papel onde a companhia aérea lhe promete uma resposta em sete dias.

«Estávamos ao balcão do aeroporto para reclamar do atraso e ele pediu­‑me para fazer­‑lhe a reclamação», recorda João Sousa. Fernando estava agitado. «Toda a gente o conhecia, é uma figura conhecida, brincámos com ele, e ficou mais sossegado.» Um passageiro pagou­‑lhe o almoço no aeroporto. «É uma figura pública, toda a gente o reconhece, e é estranho como ele consegue estar em todo o lado», comenta.

«O mais despachado»

As dificuldades de aprendizagem foram detetadas logo que entrou na escola primária na Madalena. Não chegaria a terminar a primeira classe e, tal como os irmãos Manuel e Paulo, foi encaminhado para a Cerci de Vila Nova de Gaia que, na altura, funcionava no antigo palacete Marques Gomes, em Canidelo.

Andou pelas atividades ocupacionais de serralharia, enquanto Paulo estava na carpintaria e Manuel na parte dos estofos. O pai Alfredo já tinha morrido quando os três irmãos entraram na Cerci.

A mãe não faltava a uma reunião e aparecia sempre acompanhada dos três filhos. A monitora Conceição Cruz recorda­‑se de um «miúdo pacato». «Uma família humilde, a mãe muito educada, eram todos educados, não davam problemas»

A mãe viúva não faltava a uma reunião e aparecia sempre acompanhada dos três filhos. A monitora Conceição Cruz recorda­‑se de um «miúdo pacato». «Uma família humilde, a mãe muito educada, eram todos educados, não davam problemas», lembra. Entretanto perdeu o rasto aos irmãos, agora só vê o Fernando na televisão. «Ele tem uma agenda preenchidíssima.»

Eduardo Marinho foi monitor de Fernando na Cerci durante cerca de cinco anos. Agora costuma cruzar­‑se com ele no Estádio do Bessa, quando vai ver os jogos do Boavista. Cumprimentam­‑se quando se encontram, Fernando reconhece o professor.

«Era o mais despachado dos três, o mais extrovertido, o mais desenrascado. Os três davam­‑se bem e eram sossegados», conta. Tinham aulas de música com xilofones, trabalhos manuais, educação física. Tudo adaptado a crianças e jovens portadores de deficiência.

Fernando não sabe ler nem escrever, apenas assinar o nome.

Depois da Cerci, Fernando foi trabalhar para uma empresa de máquinas para padarias e confeitarias na Rua da Rasa, em Vilar do Paraíso, não por indicação da instituição, mas por intermédio da mãe que chegou a fazer limpezas em casa de um dos patrões.

A fábrica ainda lá está, chegou a empregar 60 trabalhadores, fechou em 2010 depois de um processo de insolvência. «Ele era apenas o Fernando, com uma deficiência, nada mais», comenta um ex­‑trabalhador da empresa que não quer ser identificado.

«O Fernando é o Fernando, não é o emplastro», diz o antigo colega que acusa a comunicação social de o ter transformado naquilo que é hoje.»

Fernando era um ajudante, seria um perigo colocar­‑lhe máquinas nas mãos, mas ainda assim tem uma marca no dedo – «a cortar ferro, parti o dedo», conta no aeroporto. «O Fernando é um bom rapaz.»

Os trabalhadores brincavam com ele, prometiam­‑lhe moedas se conseguisse dar um beijo ao patrão, e chegaram a afastar jornalistas que se colocavam à porta da fábrica para saber quem era aquele homem que aparecia em todos os diretos das televisões.

«O Fernando é o Fernando, não é o emplastro», diz o antigo colega que acusa a comunicação social de o ter transformado naquilo que é hoje.»

«O Nando é um punk»

Quando Fernando começou a aparecer nos diretos das televisões, Jel (Nuno Duarte) não conseguia tirar os olhos dele. Ficava fascinado com aquelas aparições, fazia zapping à procura dele, não esquece os diretos das primeiras eleições de Rui Rio à Câmara do Porto, em que Nando, Avenida dos Aliados cima a baixo, ora aparecia nos diretos da sede de campanha de Rio ora na de Fernando Gomes.

«O Nando é alguém que marca esteticamente o nosso panorama audiovisual sem dizer uma palavra. E o que é interessante é que há uma coerência, algum tipo de racionalidade, nas suas aparições», diz Jel.

«O Nando é um punk, é muito independente, é um grande artista português.» «Divertido, pacifista, não ofende ninguém, não agride ninguém.»

«Era fã dele, gostava das suas aparições, daquele approach [abordagem].» Quieto, de olhos colados na câmara, ar bem­‑disposto, sempre na imagem, a ofuscar a notícia. «Tenho um grande respeito pelo Nando, até a nível estético.» No exato ponto da bola vermelha do meio da câmara, a fitar quem está no sofá. «O Nando é mestre nisso e o que ele faz é artístico», acrescenta.

Jel decidiu que queria fazer alguma coisa com Fernando que até inspirou Os Homens da Luta a aparecer em manifestações e outros eventos, tornando­‑se, de repente, os protagonistas de uma história que não era deles. «O Nando é um punk, é muito independente, é um grande artista português.» «Divertido, pacifista, não ofende ninguém, não agride ninguém.»

Jel e Fernando tornaram­‑se amigos. Fernando apareceu em vários momentos dos Homens da Luta e do Vai Tudo Abaixo. Num episódio, aparece com os óculos e a boina de Falâncio e com o megafone de Jel a «recitar» por ordem todas as estações de metro do Porto. «O que o Nando faz é impactante e tem seguidores.»

Para Nuno Duarte (Jel), Fernando Santos é um artista que marca esteticamente o nosso panorama audiovisual. Inspirou­‑se nele para os Homens da Luta e levou­‑o ao programa do Herman.

Jel demorou algum tempo a encontrá­‑lo. Foi a sua casa à Madalena, falou com a mãe, e combinaram um cachê para Fernando participar em algumas apresentações de um disco que acabava de lançar.

Jel fazia playback de uma música, Fernando fingia que tocava guitarra. Estiveram no Cabaret da Coxa de Rui Unas, num programa da tarde da TVI e, por último, no Herman SIC. Aqui Fernando apareceu com a guitarra, cachecol do Futebol Clube do Porto ao pescoço e camisola vermelha do Leixões. Pouco mais de um minuto de direito de antena a dizer que o Porto e o Sporting eram os maiores, que o Benfica ia para a segunda (divisão), que Pinto da Costa era o seu pai.

O apresentador tem­‑se cruzado com vários emplastros ao longo da vida. Mas Fernando Santos é um caso à parte. «Não tem substituto. É um caso único, é já uma figura pública», diz Herman José.

Abraçou­‑se a Herman José que o pegou em braços para retirá­‑lo do cenário. Nessa última apresentação do seu disco, Jel decidiu fazer um apelo para que algum dentista que estivesse a ver o programa oferecesse dentes novos a Fernando. Herman José juntou­‑se ao apelo.

Ligaram dois dentistas do Porto e Fernando foi aos dois. «Foi fazer duas dentaduras, a um e a outro, o que achei excelente», diz Jel. Herman José não se lembra bem da história dos dentes, mas não esquece a personagem, chegou a fazer um sketch sobre sociedades secretas de emplastros, a replicar as suas frases mais conhecidas ­– «O Porto é o maior, o Benfica é merda, o Pinto da Costa é o meu pai».

«Aparece em todo o lado e nunca se percebe de que forma isso acontece», comenta o humorista. Fernando tornou­‑se uma figura que faz parte do imaginário nacional. «Inspira carinho porque é muito infantil. É como uma criança grande e há uma especial tolerância.»

O apresentador tem­‑se cruzado com vários emplastros ao longo da sua vida. Mas Fernando Santos é um caso à parte. «Não tem substituto. É um caso único, é já uma figura pública, mais conhecida do que muitas figuras públicas», refere Herman José.

A incrível noção do direto

Fernando comprou bilhete para o jogo Porto­‑Liverpool por 15 euros. Tem o bilhete guardado num envelope pequeno que abre com cuidado. Mostra­‑o para confirmar que vai à primeira mão dos oitavos-de-final da Liga dos Campeões, num dia que seria negro – a pior derrota do Porto nesta competição com uma pesada derrota de cinco golos sem resposta.

Nesse dia, e estranhamente, Fernando falta aos diretos que as televisões fazem à porta do estádio desde as cinco da tarde. Nem sinal. Nem no café dos Dragões nem por ali à volta.

«No início, era só nos jogos do Porto que aparecia, depois começou a aparecer em algumas situações no Grande Porto e depois em todo o país. Onde há um direto, ele aparece.»

Fernando Madureira, líder dos Super Dragões, garante que Fernando, batizado como Animal pela claque portista, «é tranquilo» nos jogos. Puxa pelas equipas, tira fotografias, põe o cachecol, ora está de costas para o jogo ora está à procura das câmaras.

«No início, era só nos jogos do Porto que aparecia, depois começou a aparecer em algumas situações no Grande Porto e depois em todo o país. Onde há um direto, ele aparece.» «É um fetiche dele, sempre que uma câmara aparece e a luz vermelha se liga, ele sabe que está em direto», diz Fernando Madureira.

«Depois de se ter tornado uma figura pública, começaram a pagar­‑lhe para dizer mal ou bem dos clubes de futebol.» E ele costuma dizer o que lhe dizem para dizer.

O líder dos Super Dragões nega a viagem que Fernando terá feito na bagageira do autocarro da claque, comentada por muita gente. «Isso é falso.» Recorda­‑se, sim, da primeira viagem de Fernando ao Algarve há mais de 10 anos. A claque partiu na véspera de um jogo, Fernando também foi, passeou em Vilamoura e ainda foi à praia com os adeptos portistas.

O líder dos Super Dragões chegou a conhecer a família de Fernando. «Ele levou­‑me a sua casa, cheguei a conhecer a mãe e os irmãos. É uma família humilde com muitas carências.»

Madureira conta que esta fixação pelas câmaras poderá ter surgido nas brincadeiras que os estudantes universitários faziam com ele com fotos e vídeos, junto à Praça dos Leões, com moedas em troca. «Depois de se ter tornado uma figura pública, começaram a pagar­‑lhe para dizer mal ou bem dos clubes de futebol.» E ele costuma dizer o que lhe dizem para dizer.

Foi assim que Fernando Santos se tornou famoso e ganhou a alcunha de Emplastro: colocando­‑se estrategicamente atrás do repórter em direto para aparecer no enquadramento.

«O meu pai é o Pinto da Costa e a minha mãe é o Vítor Baía.» Fernando diz a sua frase mais conhecida sentado no café no aeroporto. Garante que já apertou várias vezes a mão a Pinto da Costa, que deu um abraço a Marcelo Rebelo de Sousa, e depois fica em silêncio. «A minha mãe já morreu», conta. Sim, nós sabemos. Chamava­‑se Laura, não era? «Não sei», responde sem mais conversa.

Tirá­‑lo do enquadramento nos diretos de televisão é uma missão impossível para quem está a filmar. «Sabe sempre onde se posicionar, mesmo quando mudamos de plano, a noção que tem de espaço é uma coisa incrível», conta Vasco Miguel Rocha, repórter de imagem da Sport TV.

«O fascínio é a câmara, deverá pensar como é que esta máquina transporta imagens para a casa das pessoas. É uma coisa inexplicável.» Dentro do estádio, a mesma coisa.

Fernando sabe quando os jornalistas estão a ensaiar para os diretos e sabe quando as câmaras estão realmente em ação. Não é fácil enganá­‑lo. «O espaço que deixamos para a imagem respirar, ele ocupa. Não aparece em vão, aparece no momento certo. O timing dele é perfeito e o posicionamento inacreditável.»

Vasco Rocha já o apanhou a olhar para a câmara como se fosse uma coisa do outro mundo. «O fascínio é a câmara, deverá pensar como é que esta máquina transporta imagens para a casa das pessoas. É uma coisa inexplicável.» Dentro do estádio, a mesma coisa.

Sabe onde as câmaras vão obrigatoriamente filmar, onde os cantos são marcados, e posiciona­‑se nesses lugares. O jornalista Pedro Teichgräber da RTP não esquece o dia em que, no início da NTV, tinha a câmara no chão no cimo da Rua 31 de Janeiro, no Porto, e começou a ver alguém entrar no ecrã. Era Fernando Santos. Não estava em direto, mas ficou impressionado como ele percebeu como podia entrar na câmara mesmo estando ela numa posição pouco comum.

Desde então, cruza­‑se imensas vezes com ele. «Encosta o queixo ao ombro e aparece nos diretos.» Quando lhe acontece, lá recebe fotografias que os amigos tiram desses momentos e lhe enviam. «Vê a lente, está no enquadramento. Tem uma ótima noção do direto. E só se não puder é que não está em todo o lado.»

Pudins, estações de metro, viagens de finalistas

Fernando Santos sabe de cor e por ordem todas as estações de metro do Porto. Recita­‑as em várias ocasiões, sobretudo no metro, onde por diversas vezes foi apanhado sem bilhete e multado – o que já não acontece porque agora tem passe. Gosta de doces, é louco por pudins, há quem garanta tê­‑lo visto com cinco na cantina da Universidade de Coimbra.

E são conhecidas histórias de viagens de finalistas em Espanha, com viagem e hotel pagos por agências turísticas, para animar os dias dos estudantes. Costuma também ser requisitado por discotecas aqui e lá fora com cachés pagos só para estar e ser o Emplastro – e já esteve em espaços de diversão noturna no Luxemburgo e em Barcelona.

Facebook, best­‑of, fotomontagens

A internet é um baú de momentos de Fernando Santos. Há best­‑of e homenagens com vídeos e fotografias e uma página de Facebook com o nome Emplastro apresentado como figura pública e com imagens e episódios de Fernando. Também há fotomontagens com a sua figura ao lado de Jennifer Lopez, na capa da revista Time, atrás da Mona Lisa, em fotos de família dos políticos portugueses.

Para a história ficará o direto da SIC Notícias no jogo Sporting­‑Porto, já lá vão 10 anos, em que o jornalista Miguel Guerreiro, no final do direto, faz de emplastro do Emplastro, passando para trás de Fernando Santos antes de passar a emissão para o estúdio. Esse episódio atravessou fronteiras e fez parte de um vídeo do programa da MTV Ridiculousness.

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