OPINIÃO

E‑mail de uma filha adolescente para a mãe que acabou de se divorciar

Olha, eu não espero que tu fiques divorciada para sempre e quero muito que sejas feliz. Por isso quero que saibas que, quando achares que chegou a altura de eu conhecer um namorado teu, eu vou confiar em ti.

Olá mãe.

Sabes que me preocupo com o teu bem-estar, certo? Por isso… acho mesmo que tens de parar de ir ao ginásio dessa maneira. A sério, mãe, está a ser doentio. Tu só descansas um dia por semana, e nesse dia vais fazer ioga. Relaxa. Tem calma contigo e não andes a malhar dessa maneira que te pode fazer mal.

Tu não fazias exercício há anos e de repente estás todos os dias preocupada se tens os ténis e se o saco do desporto está pronto? E o mesmo se aplica a esses batidos horríveis de pepino, gengibre e beterraba. Isso sabe mal e tu quase vomitas a beber essa mistela, mas tentas dizer que é bom.

Eu sei que queres ficar boazona, mas isso não se faz de um dia para o outro. Passas a vida a dizer‑nos para não sermos precipitados, mas tu num mês e meio já cortaste o cabelo duas vezes, já foste comprar mais sapatos e – pior do que isto tudo – já mudaste a fotografia de perfil no Facebook quatro vezes. Eu estou atenta. Tu vê lá o que andas a fazer. Isso dá nas vistas. Eu prefiro o Instagram, mas já que usas isso, ao menos sê discreta.

Por falar em rede social: no Tinder, ouvi dizer que se deslizares o dedo para a direita, significa que queres um match com aquela pessoa. Se deslizares para a esquerda, não estás interessada. Ok? Não é que eu tenha Tinder ou ache que tu vais ter, mas na eventualidade remota de te passar isso pela cabeça, pensa nisto: direita, ok; esquerda, não ok. Mas eu espero muito que tu não tenhas Tinder. Isso é muito mau.

Uma coisa importante sobre sexo. Isso, sexo! Conta‑me só o que eu precisar mesmo de saber. Ok? Eu sei que és maior e vacinada e tens montes de bom senso e és uma mãe cuidadosa e não vais desatar para aí a achar que somos as melhores amigas e por isso podes dizer‑me o que quiseres (não somos, eu sou tua filha, tu és minha mãe, amigas são outra coisa e há assuntos que conto às minhas que não te conto a ti e tira daí a ideia). Não podes dizer‑me tudo.

Eu não quero saber tudo. Faz o que quiseres, mas por favor garante que os teus primeiros enrolanços não são com homens que têm três mamilos ou tipos obsessivo‑compulsivos ou que achem que vais casar com eles ou que querem arrumar os teus armários da cozinha. São os nossos armários da cozinha. Eu e o mano temos uma palavra a dizer nisso.

Não sei o que se passa quando não estamos em casa, se é ramboia com fartura ou se ficas a ver séries parvas. Prefiro não saber, desde que não estejas a deprimir. Mas, mãe… às vezes esquecemo‑nos de alguma coisa importante para a escola cá em casa e quando estamos com o pai temos de passar por cá de manhã cedo antes das aulas, para vir buscar.

Por favor: não quero entrar em minha casa e ver um amigo teu peludo deitado de cuecas e meias em cima do nosso sofá. O amor é lindo, mas vê se arranjas um divorciado com pinta de George Clooney. E que tenha filhos giros da minha idade, já agora.

E mãe… quando trocares mensagens com o «Tiago Ginásio», apaga, ok? Se o telemóvel ficar por aí, eu posso ler. E o mano também. E se calhar não vamos gostar. Ou tu achas que eu não apago as minhas mensagens? Tens de ser mais cuidadosa. E acho que devias arranjar outro nome para o gravares no telemóvel. «Tiago Ginásio» não é simpático. «Miguel Contabilidade» também não.

E garante que nenhum deles é casado, ok? Olha, eu não espero que tu fiques divorciada para sempre e quero muito que sejas feliz. Por isso quero que saibas que, quando achares que chegou a altura de eu conhecer um namorado teu, eu vou confiar em ti. Não tenhas dúvidas sobre se é a altura certa para eu ou o mano o conhecermos. Se tu achas que sim, nós vamos confiar. E se esse não for o certo, não faz mal. Venha outro. Mesmo que nós não gostemos dele. Isso é outra conversa.

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