“Depois do Cancro, A Vida”. Os doentes que falam do futuro

Texto Sara Dias Oliveira

O fotógrafo Carlos Ramos andou pela região do Porto a fotografar pessoas que enfrentaram, olhos no olhos, o cancro da cabeça e do pescoço. “Foi muito intenso”, confessa. Um banho de histórias duras, um murro no estômago para quem não estava habituado a digerir problemas oncológicos. “Quem não está perto, não sente.” Nesse périplo fotográfico, esteve perto e sentiu. E desse trabalho resultou a exposição “Depois do Cancro, A Vida”, inaugurada nesta quarta-feira na Assembleia da República, ao final da tarde, depois da primeira sessão plenária do parlamento depois das férias. Veja na fotogaleria.

As fotografias são retratos. Retratos de doentes e do seu dia-a-dia. De pessoas que um dia tiveram de incluir a palavra cancro nas suas vidas e rotinas. E fazer exames. E fazer cirurgias. E passar pela quimioterapia. E lutar. E não desistir. Lutar muito e sempre. Carlos Ramos recorda o sentido positivo dos fotografados. “São pessoas com problemas, mas são pessoas positivas. Encaram tudo de uma forma muito positiva. Falam da vida, falam do futuro. Como o futuro fosse grande e enorme”, conta.

O objetivo da exposição é marcar presença junto do poder político e continuar a sensibilizar os decisores para as necessidades dos sobreviventes de cancro de cabeça e do pescoço. A data não foi escolhida ao acaso. Esta é a Semana Europeia de Luta Contra o Cancro da Cabeça e Pescoço e a campanha “Make Sense” anda novamente no terreno – em Portugal pela mão do Grupo de Estudos de Cancro de Cabeça e Pescoço e da Associação dos Amigos dos Doentes com Cancro Oral. Carlos Ramos quis transmitir esperança e otimismo nas fotografias. E, acima de tudo, respeitar a dignidade de cada pessoa.

A cada dia, em Portugal, morrem três pessoas vítimas de cancro da cabeça e do pescoço. Todos os anos, são diagnosticados cerca de 3000 novos casos.

Este ano, “Apoiar os Sobreviventes” foi o tema escolhido internacionalmente para abrigar um conjunto de iniciativas, tanto a nível central, no Parlamento Europeu, como a nível local, para aumentar a sensibilização dos órgãos decisores, comunicação social e população para a importância da prevenção, diagnóstico precoce e apoio aos sobreviventes deste tipo de cancro. A ideia é transmitir uma mensagem positiva. Apesar das marcas físicas e psicológicas deixadas pela luta contra a doença, as pessoas sobrevivem e retomam as suas vidas e aquilo que mais gostam de fazer.

Quando diagnosticado numa fase inicial, o cancro da cabeça e do pescoço tem uma taxa sucesso entre os 80 e os 90%. Este tipo de cancro era muito associado a homens, de idade superior a 50 anos, fumadores e consumidores regulares de bebidas alcoólicas. No entanto, a tendência têm vindo a mudar e este tipo de tumores está a aparecer em gente mais jovem, inclusive em mulheres, entre os 30 e 45 anos, que não fumam ou consomem álcool com regularidade.

O aumento de casos deste cancro devido ao Vírus do Papiloma Humano (HPV) pode ter na sua origem a prática de sexo oral sem proteção e com múltiplos parceiros. Também a falta de higiene íntima e bucal podem contribuir para aumentar o risco de transmissão do vírus e de desenvolvimento de tumores, principalmente localizados na amígdala, orofaringe e língua.