OPINIÃO

O Dia de São Valentim para quem não tem com quem celebrar o Dia de São Valentim

É oficial: estamos a entrar na semana mais romântica do ano. Para uns. Para outros é a semana que provoca mais neuras e que lembra a solidão e a falta de uma relação. Para quem não tem namorado(a), o dia 14 de fevereiro não traz corações, flores e chocolates – mas pode trazer a oportunidade de sair da zona de conforto e fomentar o amor próprio.

Texto Cláudia Pinto | Ilustração Shutterstock

Todos os anos, antes do Dia de São Valentim, o cenário repete­‑se: as montras das lojas dos centros comerciais apelam ao amor, as newsletters e promoções do Dia dos Namorados chegam em catadupa pelo e­‑mail, as viagens românticas ganham a forma de «propostas imbatíveis», os supermercados enfeitam­‑se de chocolates e ramos de flores. Para onde quer que se vá, o apelo ao amor está ali mesmo à sua frente. Ou será ao consumismo?

E os solteiros, onde ficam no meio de tudo isto? Rita Costa tem 39 anos. Depois de uma relação que começou na adolescência e durou 14 anos, teve uma outra relação, mais curta, que também terminou. Está solteira há quatro anos. «O marketing à volta desse dia é grande. São corações espalhados por todo o lado, a publicidade às escapadelas românticas e os restaurantes com as reservas esgotadas para esse dia. É perfeitamente natural sentir: “E eu sem ninguém para partilhar este dia!” É inevitável sentir a pressão.»

Apesar de não ter nenhum ritual definido para o 14 de fevereiro, Rita acaba por fazer alguma coisa divertida com o seu grupo de singles. No ano passado foi com três amigas assistir a uma peça de teatro. «Não deixo que o dia passe em branco. Ainda não sei o que vou fazer neste ano, mas sou capaz de ir a um spa com uma amiga.»

«A capacidade de nos rirmos de nós próprios é muito valorizada em psiquiatria porque significa que ainda conseguimos rir do ridículo em nós e do que no rodeia. Ninguém que esteja em depressão muito grave é capaz de uma coisa dessas»

Tem memórias antigas deste dia, como naquele ano em que foi ao cinema ver Titanic com o namorado da altura, mas também de jantares que organizou, já solteira, com um grupo de cinco amigas solteiras em que o restaurante estava lotado e os funcionários não conseguiam dar resposta.

As pizas estavam frias e as bebidas chegaram já depois de terem terminado a refeição. «Em resposta à situação, uma das minhas amigas chama o empregado e diz: “Já não basta a nossa condição de solteiras e ainda somos tratadas assim?” O gerente acabou por sortear um jantar entre nós para outro dia.»

Rita e as amigas tentam relativizar a situação e tirar o melhor partido do dia, mesmo sem relações. Mesmo inconscientemente, este é um caminho defendido por especialistas na área do comportamento. Para o psiquiatra e sexólogo Júlio Machado Vaz, rir do que nos inquieta é uma das melhores estratégias para lidar com este dia, ou com outras situações que nos deixam mais em baixo.

«A capacidade de nos rirmos de nós próprios é muito valorizada em psiquiatria porque significa que ainda conseguimos rir do ridículo em nós e do que no rodeia. Ninguém que esteja em depressão muito grave é capaz de uma coisa dessas», diz o psiquiatra.

Independentemente de haver solteiros que tolerem melhor esta data do que outros, o Dia de São Valentim surge como uma espécie de lembrete da solidão afetiva, que nem sempre é gerido da melhor forma. O mesmo acontece no Natal e em outras datas simbólicas que, não raras vezes, são comentadas em ambiente de psicoterapia.

«Perante esta simbologia e uma ansiedade e uma tristeza que já existem, algumas pessoas solteiras facilmente fantasiam que serão as únicas no mundo que não estão com alguém nesse dia, e que os outros estão todos a jantar em restaurantes românticos», diz Júlio Machado Vaz.

Rita sente a pressão sobretudo em eventos sociais e em festas de aniversário. «Então, quando é que te casas?» Ou «Quando é que tens um filho?» Estas são as perguntas da praxe, as que mais ouviu até hoje. «Claro que, neste momento da minha vida, já me habituei aos comentários e relativizo, mas não deixa de ser insistente, principalmente quando não se tem ninguém no momento», diz. E, como se tudo isso não bastasse, também a profissão lhe lembra a data. Rita é educadora de infância e costuma assinalar o Dia de São Valentim com a confeção de bolachas que as crianças oferecem a quem quiserem.

Sobretudo por razões ligadas ao consumismo e ao marketing, os rituais deste dia conduzem à idealização das relações amorosas perfeitas, mesmo que isso nem sempre corresponda à verdade.

Em algumas escolas primárias do país, este dia é dedicado aos afetos, de forma a lembrar a importância da amizade e do amor em geral. «É uma forma pedagogicamente correta de colocar os meninos a fazerem postais durante uma semana para entregarem aos amigos ou para os próprios professores distribuírem. Caso contrário, poderia acontecer crianças receberem vários (as mais populares) e outras não receberem nenhum», diz a psicóloga clínica Rosa do Amaral.

Sobretudo por razões ligadas ao consumismo e ao marketing, os rituais deste dia conduzem à idealização das relações amorosas perfeitas, mesmo que isso nem sempre corresponda à verdade. «Existe alguma investigação internacional que evidencia situações de pessoas que sofrem em especial com este dia porque é uma chamada de atenção sobre uma ferida emocional já existente», explica Helena Águeda Marujo, investigadora na área de psicologia positiva.

A razão é simples: esta acaba por ser uma data que celebra uma coisa que faz parte de apenas uma parte da humanidade, a que está supostamente feliz e numa relação «tendo­‑se transformado num processo comercial, convidando ao consumo e negligenciando a dor de quem nada tem para celebrar. E, afinal, é apenas um dia, e um dia não pode determinar o valor de uma vida», diz a também professora do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas, em Lisboa.

«Julgo que quem sofre com este dia deve tentar proteger­‑se um pouco, mas também é importante que os solteiros se coloquem à prova e saiam da sua zona de conforto»

Independentemente da data e da sua simbologia, quem está solteiro a 13 de fevereiro, à partida, também estará a 15, a 16 e a 17. «O que têm entre mãos é o facto de estarem a sentir­‑se sozinhas, e isso não fica resolvido no Dia dos Namorados», defende Júlio Machado Vaz.

Logo, a possível tristeza e solidão que se sente neste dia em particular podem continuar nos restantes dias, se nada for feito no sentido de contrariar esses sentimentos. Daí aos posts no Facebook a ridicularizar a data e a chamar a atenção para o estado civil vai um pequeno passo.

«Julgo que quem sofre com este dia deve tentar proteger­‑se um pouco, mas também é importante que os solteiros se coloquem à prova e saiam da sua zona de conforto. O romantismo deve ser utilizado para que a pessoa continue a acreditar que um dia vai ser diferente mas não se pode sonhar ter uma relação e não fazer nada para que isso aconteça», diz a psicóloga Rosa do Amaral.

Fazer uma coisa de que goste, conhecer pessoas novas, mimar­‑se, fomentar o amor próprio, são boas estratégias para dar a volta pela positiva aos dias em que a solidão se instala. E é justamente isso que costuma fazer Nilton Costa, de 41 anos. «Tenho um ritual de combinar um jantar com amigos solteiros. Pode ser uma oportunidade de conhecer mais pessoas solteiras e, quem sabe, surgirem daí novas amizades.»

Sair da zona de conforto pode implicar viver mais a vida real, e apesar de considerar que as redes sociais são positivas em muitos aspetos, Júlio Machado Vaz alerta para a outra face da moeda: «Há quem se refugie na tecnologia onde existem centenas de pessoas ao alcance. O problema é que quando se desliga o computador e os candeeiros para ir para a cama, a casa fica completamente silenciosa e já não há telefonemas para ir almoçar ou jantar.»

Mas não são apenas os solteiros a ser desafiados nestes tempos agitados em que nos multiplicamos em vários papéis. Júlio Machado Vaz tem denotado uma mudança de paradigma nas consultas de sexologia que dá há mais de trinta anos.

Muitas pessoas gostam mais de ser surpreendidas num dezembro chuvoso ou a meio de maio, em que não há a dita pressão social, do que terem a sensação de que é só no Dia dos Namorados porque está imposto que assim seja.

Atualmente são menos os que o procuram devido a problemas de disfunção sexual e mais os que tentam salvar uma relação. «O que surge mais são comentários e perguntas, como por exemplo: “Nós até gostamos um do outro mas isto está a correr catastroficamente. O que temos de fazer para conseguirmos ficar juntos?”»

É que também na vida em casal é preciso fomentar o relacionamento, em vez de apostar tanto em datas como a do Dia de São Valentim. O psiquiatra nota que muitas pessoas gostam mais de ser surpreendidas num dezembro chuvoso ou a meio de maio, em que não há a dita pressão social, do que terem a sensação de que é só no Dia dos Namorados porque está imposto que assim seja.

A própria pressão das datas pode não ser sentida pelos casais da mesma forma: um pode gostar de o lembrar e outro nem por isso. Também aqui podem surgir tensões ou, tão-simplesmente, vivências distintas.

Júlio Machado Vaz recorre a um episódio pessoal para o exemplificar. «O meu pai adorava a minha mãe, mas ela sabia que ele era incapaz de se lembrar da data do casamento de ambos. Durante décadas, eu telefonava para ele e lembra­va­‑o. O meu pai aparecia em casa com um ramo de flores, a minha mãe agradecia muito e depois passava por mim e dizia: “Obrigada, Julinho.” Ela não se desmanchava e ríamos juntos.»

Basta uma pesquisa rápida na internet para encontrar milhares de resultados no Google com vantagens numeradas de estar descomprometido. Mas mais do que a teoria é a prática diária que permite dissecar os possíveis benefícios.

«A vida devolve­‑nos amigos que se julgavam perdidos, podemos fazer tudo o que quisermos sem dar satisfações a ninguém, e apesar de, no começo, ficarmos um pouco à deriva, quando voltamos a encontrar­‑nos, tudo muda.»

Existem centenas de postais a ironizar o Dia dos Namorados, com movimentos anti­‑Cupido, e a criar um fenómeno com este dia dedicado aos solteiros. Nilton confessa que a vida de solteiro permite­‑lhe ter mais tempo para se dedicar a si próprio e para ajudar os outros, ainda que sinta a pressão do tempo a passar. «Tenho a perfeita noção da minha idade, mas ainda não perdi a esperança. Sou um eterno romântico mas com os pés muito bem assentes no chão.»

Apesar de Rita ter celebrado o Dia de São Valentim durante vários anos, consegue dissecar vantagens do seu estado civil. «A vida devolve­‑nos amigos que se julgavam perdidos, podemos fazer tudo o que quisermos sem dar satisfações a ninguém, e apesar de, no começo, ficarmos um pouco à deriva, quando voltamos a encontrar­‑nos, tudo muda.»

Admite que vive num misto de sentimentos, em que não fechou as portas ao amor mas tem alguma dificuldade em se apaixonar porque se tornou mais seletiva. «Estamos cada vez mais exigentes num mundo que é cada vez menos amigo das relações», defende Júlio Machado Vaz. Mas «está tudo em aberto», garante Rita. E, como ela, muitos milhares de solteiros que gostariam de deixar de o ser.

Como fintar o Dia dos Namorados?

A investigadora Helena Águeda Marujo sugere algumas estratégias para fazer deste um dia especial, independentemente do estado civil.

  • Desenvolver a perspetiva. O que se passa no presente pode ser diferente no futuro. Aproveite para se apreciar como pessoa, no que tem, é, faz, desenvolvendo um sentido de gratidão sobre o que a sua vida já possui, em vez de se dedicar ao que lhe faz falta.
  • Focar mais em dar amor do que em receber. O amor que se sente é também o que se oferece. É uma boa razão fazer voluntariado, dedicar­‑se aos outros, sejam amigos ou família, colegas ou vizinhos, pensando e procurando as pessoas que estão próximas.
  • Viver o presente. Não se foque na relação que acabou, sobretudo se acabou mal, é passado. Escolha fazer coisas de que gosta: mexa­‑se, dance, corra, faça ioga, medite, ria, oiça música, veja um filme. Celebre o que tem, opte por algo que dê sentido à sua vida agora, neste momento.
  • Fomentar o amor por si próprio e pelo próximo. O Dia dos Namorados não deve ser vivido com amor nem ansiedade ou sentimentos depressivos.

Namorados não entram

Festas de São Valentim só para pessoas descomprometidas? Existem, claro. Se não tinha planos para o próximo 14 de fevereiro, a boa notícia é que vai passar a ter. E não corre o risco de dar de caras com casais apaixonados. Veja estas sugestões (mas há mais, pelo país fora).

  • Menus anti­‑São Valentim em casa. O projeto Supper Stars, que leva chefs a cozinhar em sua casa, tem a proposta ideal para si: organizar um jantar em casa com um grupo de amigos, sem ter de ir para a cozinha. Pode escolher entre seis menus propostos por três chefs: Susana Cigarro, Pedro Passos e Daniel Cardoso. Entre 35 e 70 euros por pessoa. Informações em www.thesupperstars.com/pt­‑pt
  • O Hotel Lisboa Evolution, em Lisboa, recebe solteiros a partir das 22h00 para uma festa com entrada gratuita. Na terceira edição do evento, o objetivo é ficar longe de programas repletos de corações e cenas lamechas. Pode ainda consultar uma cartomante que estará na festa para antecipar o que lhe reserva o futuro.
  • O Hotel InterContinental Porto convida os descomprometidos a trocarem uma noite de tédio em casa, com a manta como companheira, a ver o Titanic pela vigésima vez, por uma festa com DJ e várias surpresas. Das 20h00 às 00h00, com entrada gratuita. Pode ir sozinho ou com amigos.
  • A Passeite, Taberna do Azeite, em Coimbra, convida a sobreviver ao Dia dos Namorados com um jantar de solteiros, degustações de azeite e outras surpresas. A partir das 20h00. Reservas pelo e­‑mail info@passeite.com.
  • No Hotel Mundial, em Lisboa, tem lugar um speed dating no próximo dia 17 de fevereiro, a partir das 21h30. Neste caso, pressupõe­‑se uma inscrição e o pagamento de 27 euros, com oferta de uma bebida. Pode participar em duas sessões no mesmo horário, uma destinada a solteiros dos 24 aos 35, e outra, dos 35 aos 46 anos.