Dançar traz-lhes mais alegria à vida

Texto de Filomena Abreu

Foi tão simples como um passo de dança. Há quatro anos, já divorciado, Pedro Oliveira, o “Peter”, viu na televisão um filme em que os personagens dançavam ao ritmo da salsa. Ele, que já tinha na cabeça a ideia de procurar um hobby a bailar, encontrou ali a luz que procurava. Mal pôs os pés na escola ALC Dance Studios, em Gaia, reconheceu que tinha acertado na escolha.

“Vi que era uma alegria incrível e uma forma não só de me distrair como de conhecer e conviver com outras pessoas.” Fez uma aula experimental (de salsa, claro) e nunca mais de lá saiu. Melhor, acabou por conhecer a atual mulher, com quem teve uma bebé. “Não sei como é que não há mais gente a dançar. No final de um dia de trabalho é relaxante. Às vezes venho com a cabeça cheia de problemas mas depois vou para casa muito mais leve.”

A conversa termina aqui. Peter, de 53 anos, acabou a sua hora de salsa e tem de ir a correr para casa. A sorrir. É a vez de ele ficar a tomar conta da bebé para que a mulher possa fazer a aula dela. “Não abdicamos da dança.”

Quer na escola de Gaia, quer na do Porto, é este o espírito que João Paulo Duarte tenta incutir aos alunos da ALC Dance, da qual é sócio-gerente. Na verdade, a avaliar pelo entra e sai de alunos bem-dispostos, nem é preciso muito esforço. “O que digo a quem nos visita pela primeira vez é: se conseguir pensar nos problemas enquanto estiver a fazer a aula de dança, não paga. Aqui, ao contrário dos ginásios, não há como pensar na vida; é preciso estar atento aos passos.”

E a receita parece ter sucesso. Tanto que, só em Gaia, a escola já tem 800 alunos, que pagam mensalidades entre 22 euros (uma aula por semana) e 65 euros (“full pass” para várias aulas dentro do mesmo nível). “Não temos fidelizações. Não vendemos aulas de dança, mas sim felicidade. Se o aluno não estiver feliz não nos adianta ter aqui uma ficha de fidelização, porque ele não vai aparecer.”

Este relato parece ser consensual: há cada vez mais pessoas com vontade de ter aulas de dança. O fenómeno pode estar a dar-se por diversos motivos: os programas televisivos dedicados ao tema, o facto de várias figuras públicas se mostrarem interessadas na dança, a publicidade e outras formas de marketing que se servem da prática para divulgarem produtos, e até o facto de a dada altura, principalmente a partir dos 40, as pessoas verem na dança uma forma mais atrativa de fazer exercício. Um lema que serve para os mais velhos, mas não só.

Ester Filipe tem 17 anos e há dois que é aluna da Dance4U, no Porto. Começou por dançar Bollywood, uma das modalidades mais procuradas, mas entretanto já praticou outros estilos. No momento em que a encontrámos, a sua turma de MTV está a ensaiar a coreografia para apresentar na abertura do espetáculo de MC Kevinho, em Gondomar, no dia 7 de outubro.

“Comecei puxada por uma amiga, mas só fiquei porque gostei muito. Passo cerca de quatro horas e meia por semana em aulas de dança. Não vejo a minha vida sem isto. É um escape. É deixar os problemas lá fora. É entrar num mundo novo. Evoluo fisicamente mas também psicologicamente”, garante a aluna. Bruno Mourato, diretor da Dance4U, acredita que é o conceito de proximidade que mais atrai os alunos, e que este “affaire” com a dança só tem tendência para aumentar.

“Temos cada vez mais bailarinos a serem premiados. Além disso, para os estrangeiros, Portugal tornou-se um mercado muito atrativo para eles cá virem dar workshops”, assegura. Atualmente, a escola tem 140 alunos distribuídos por 25 aulas semanais nos dois estúdios, o do Porto e o de Matosinhos. “Temos pessoas dos seis aos 60 anos. E há mensalidades para todos os gostos, dos 25 aos 40 euros. Há quem nos procure porque quer ter um hobby e há quem veja na dança uma atividade mais social e divertida do que, por exemplo, os ginásios.”

Essa é, de resto, uma questão que causa alguma polémica. “Cada um deveria fazer aquilo em que é bom. Nós aqui não damos aulas de fitness, damos dança. Mas há cada vez mais ginásios a investir nas modalidades de dança e eu sou contra.”

Inicialmente, na Academia João Capela, em Barcelos, eram mais as mulheres que procuravam arrastar os parceiros para uns pezinhos de dança. Neste momento, começa a notar-se uma inversão da tendência. “Cada vez mais a dança é vista de forma positiva e saudável”, aponta João Capela, o responsável.

Nesta, tal como na grande maioria das escolas de dança, os horários das aulas são quase todos pós-laborais ou ao sábado. E este é outro dos espaços que não se pode queixar dos tempos que correm. “Os números quase que triplicaram. Contamos agora com cerca de 250 alunos nas várias vertentes, idades e modalidades. Sem falar das aulas que damos fora do nosso espaço, em associações e jardins-de-infância.”

Um crescimento que também decorre de um maior investimento dos próprios espaços. “Enquanto, há alguns anos, as escolas de dança eram principalmente constituídas por professores que detinham uma ou outra turma no salão paroquial ou na junta de freguesia, atualmente cada vez mais as escolas estão a tornar-se empresas e a melhorar o lado do negócio.”

Além disso, vêm aprimorando o “marketing e promoção”, criando “novos tipos de aulas, escolas melhor organizadas e espaços mais bonitos e funcionais. Ou seja, escolas com ofertas cada vez mais apelativas ao público em geral”, explica João Capela. O que parece estar a funcionar.