Cristina Ferreira: a maria-rapaz que se tornou o orgulho da Malveira

Texto de Inês Banha e fotos de Sara Matos/Global Imagens

No pátio da antiga escola primária do Jeromelo (ou Jerumelo), a quatro quilómetros da vila da Malveira, já não há meninos e meninas a brincar quase ao lado de uma manada de vacas a pastar ou com vista para campos sem fim que, na chamada região saloia de Lisboa, surgem e desaparecem tão repentinamente como uma mini-urbanização de prédios ou moradias recentes.

Encerrado desde 2010, o edifício térreo caiado de branco está hoje esquecido e rodeado de mato, mas naquela pequena aldeia do concelho de Mafra não falta quem se lembre dos momentos que Cristina Ferreira, a sua ex-aluna mais célebre, ali passou em criança.

“Fazia as suas trafulhices, como todos os miúdos. Depois de saírem da escola, iam todos para o pátio de uma casa brincar e subir a uma figueira”, recorda, sob anonimato, uma habitante mais velha, sentada à entrada da sede do Clube de Futebol do Jeromelo onde, pela hora de almoço de sábado, um pequeno grupo se concentra em véspera de sardinhada organizada pela coletividade.

“Sim, ela era uma pouco maria-rapaz”, concorda uma vizinha, casada com um antigo colega de escola da apresentadora. E, garantem, igualmente “reservada”, sobretudo a partir da adolescência.

Nessa altura, já a “saloia da Malveira” – como Cristina se autointitula – ajudava os tios a vender roupa na feira semanal da vila.

“Lembro-me de a ver a montar a barraca, quando ela tinha 15 ou 16 anos”, conta Luís Ferreira, proprietário de uma papelaria situada no Largo da Feira, onde, todas as quintas-feiras, o que é habitualmente um parque de estacionamento dá lugar a bancas de calçado e vestuário, mobílias, peixe fresco e flores, entre outros produtos.

Na sua terra, são raros os que conhecem Cristina Ferreira sem a associar à sua família. No Jeromelo, seria em casa da avó que passaria muitas tardes em criança. E na Malveira, se os tios são reconhecidos pelo trabalho na feira local, os pais – António e Filomena – são-no pelo cozido à portuguesa que, também (e só) à quinta-feira, servem por oito euros na feira de gado, realizada noutro ponto da vila.

O espaço, parte integrante do recinto do certame, é procurado por negociantes, clientes do mercado e residentes nas proximidades que, de modo a evitar a confusão, optam por comer em casa a dose que compram no restaurante. Licenciada em História, Cristina Ferreira, filha única, chegou a trabalhar dois anos neste estabelecimento, já depois de terminar o curso e de se tornar professora, profissão que acabaria por abandonar para se dedicar à televisão. No mesmo período, trabalhou ainda num pronto-a-vestir.

“Era doloroso. Levantávamo-nos às três horas da manhã porque tínhamos tanta coisa para preparar, mas depois havia um período em que eu e o meu pai ficávamos mais parados… e dava um sono e um frio! Eu ia para o carro tentar dormir um bocado mas, quando começavam a retirar o gado, já não dava. Mas fiquei a gostar muito de ser empregada de balcão”, contou, em finais de 2016, em entrevista à revista “Visão”.

Presença assídua no comércio local
Rui Neves, proprietário do Mélita, um dos restaurantes de eleição da apresentadora na Malveira, confessa que não se recorda de Cristina Ferreira antes de a sua cara se tornar conhecida do grande público, ainda que saiba que chegou a estar empregada na loja de roupa de um amigo seu. “Era só a rapariga que trabalhava lá. Não havia nada de mal a dizer”, explica, poucos minutos depois de o seu estabelecimento, também no Largo da Feira, ter aberto para almoço.

Característicos da região, os pratos de carne são os mais procurados pelos clientes do Mélita, mas a apresentadora parece preferir produtos do mar, como os filetes de polvo. Já na Grifoprint, a papelaria de Luís Ferreira, adquire sobretudo material escolar, como cartolinas e marcadores. “Jornais e revistas não costuma comprar”, precisa o comerciante que, da sua loja, consegue ver a espingardaria gerida por uma prima de Cristina Ferreira, que se escusou a prestar declarações. Não é caso único.

No Jeromelo, uma outra prima afasta-se à medida que a conversa se prolonga. No pronto-a-vestir onde a apresentadora trabalhou, o seu antigo patrão fala apenas para dizer que nada dirá. Nas imediações da sua vivenda, situada num lugarejo próximo da aldeia onde andou na escola primária, a única resposta de quem ali mora é que não está autorizado a falar.

E, na Casiraghi Forever, a loja de roupa que abriu há mais de dez anos numa urbanização moderna da Malveira, perto das casas que vendem umas trouxas que são a iguaria local, a funcionária desculpa-se por nada revelar. Um silêncio que contrasta, no entanto, com o à-vontade que terá no dia-a-dia a interagir com quem encontra.

Seja na papelaria ou no restaurante à frente do recinto da feira local, localizados na parte mais antiga da vila, seja na pastelaria a funcionar perto do seu pronto-a-vestir – onde, assegura a proprietária, Lúcia Brás, opta ora por uma torrada, ora por um bolo de massa folhada -, todos elogiam a simplicidade de Cristina Ferreira. Por não renegar as raízes, consideram-na “motivo de orgulho da Malveira”.

“É uma pessoa que eleva o nome da terra onde mora. Elogia-a sempre. Se calhar, se fosse outra, não era assim”, sintetiza Luís Ferreira. Será, de resto, comum vê-la passear nas ruas e a recorrer ao comércio local na companhia do filho, dos pais ou dos tios, ainda que, até pela dimensão da vila, com 6 500 habitantes, não falte quem garanta que nunca se cruzou com a apresentadora que, por norma, não será importunada por desconhecidos no quotidiano. “Só a vi uma vez na bomba de gasolina”, atira, por exemplo, uma residente ali nascida e criada.

Certo é que, para quem no Jeromelo a conhece desde pequena, a carreira que Cristina Ferreira tem vindo a construir nunca foi uma surpresa: “Nós fomos acompanhando o percurso dela. E ela sempre foi de saber o que queria e de o fazer.”