OPINIÃO

Consideremos as cabras

A imprensa esqueceu-se de cobrir um assunto determinante. Há dez anos, como agora, o interior do país parece reservado a duas circunstâncias mediáticas: a desgraça e o pitoresco.

Ri‑se o Pedro sempre que ouve os de Lisboa dizerem na televisão que fazem falta cabras para limpar os matos. Pois se ninguém na aldeia tem hoje mais de três chibas, como querem eles que os rebanhos deem conta de um bosque? Ali, na Beira Alta, o fogo também chegou forte na noite de 15 de outubro.

Dois ou três dias depois veio a conversa dos doutores sobre as cabras sapadoras. E o meu amigo, que vive numa aldeia entre Trancoso e Pinhel, não consegue deixar de rir da doutrina de quem vê o campo a partir da cidade.

Em boa verdade o efetivo caprino nacional tem sofrido reduções drásticas nos últimos anos. Segundo o INE, existem hoje cerca de 320 mil cabras em Portugal, quando em 2009 se contava quase meio milhão de cabeças. Há o despovoamento e o envelhecimento a explicarem uma parte do problema. Mas há outra tragédia, e essa foi levada da urbanidade para o meio dos montes.

Em 2007, o governo Sócrates aprovou um decreto‑lei que haveria de ter um efeito tremendo no setor pecuário. O ministro da Agricultura era então Jaime Silva, um economista que tinha fama de se mexer bem nos corredores de Bruxelas mas que sempre foi acusado de desconhecer a realidade do país.

Seguindo as diretivas comunitárias, Silva impôs regras apertadas para o transporte de gado vivo. Mesmo que fosse para levar uma única cabra, e mesmo que o percurso não distasse mais de meia dúzia de quilómetros, a deslocação passou a ter de ser feita por transportadoras autorizadas pela Direção-Geral de Veterinária, que cumprissem à risca o apertado protocolo europeu.

Num país onde a exploração do gado caprino tem uma dimensão familiar, a medida revelou‑se um descalabro. Incapazes de transportar as suas cabras para as feiras, os pastores viram‑se na circunstância de ter de esperar pelas propostas dos agentes intermédios. Os preços caíram a pique, porque os intermediários passaram a ter a faca e o queijo na mão.

Ditam o preço que querem porque são os únicos com capacidade de escoamento. A maioria dos países europeus impôs regimes de exceção às regras. As diretivas que cuidam do bem-estar animal foram adotadas, sim, mas não quanto ao transporte de meia dúzia de cabeças em distâncias inferiores a cinquenta quilómetros. Portugal preferiu ser bom aluno de Bruxelas a proteger a sua frágil pecuária. E, nesse processo, as cabras foram desaparecendo dos montes.

Apesar dos protestos dos pequenos produtores, a aprovação da lei de transporte do gado vivo não mereceu na época qualquer cobertura da imprensa. Há dez anos, como agora, o interior do país parecia estar reservado a duas únicas circunstâncias mediáticas: a desgraça e o pitoresco. O país não discutiu aquela lei, porque ela não tinha qualquer interesse para a população urbana. Só que afinal tinha.

Se as cabras não tivessem desaparecido talvez os matos estivessem mais limpos, e talvez a floresta não ardesse da mesma maneira. Talvez o Estado não precisasse de investir o dinheiro de todos nós a trazer para o campo as cabras que lhe roubou. É por isso que o meu amigo Pedro de Trancoso se ri das doutrinas dos sábios da cidade. Dos que nunca olham para o país mas lhe vaticinam sentenças. O Pedro ri‑se, sim, mas há de ser para não chorar.