O cancro de pele que ataca faça chuva ou faça sol

Outono e inverno são épocas mais frias, mas, mesmo assim, o sol continua a espreitar, a dar o ar da sua graça. E não, não é apenas no verão que a exposição solar exige atenção. E proteção. Maria José Passos, presidente do Intergrupo Português de Melanoma (IGPM), fala sobre o assunto e dá alguns conselhos. “Sempre que exista exposição solar, tanto no verão como no inverno, temos que ter cuidado com o sol e proteger as áreas expostas usando gorro, chapéus, luvas, e aplicar protetor solar 50 na face e áreas a descoberto”, adianta à NM.

Cuidados redobrados no caso das crianças e em todos os grupos de risco de cancro cutâneo. Não é para menos. O melanoma é o tipo de cancro de pele mais agressivo e fatal, responsável por 80% das mortes. Os escaldões sofridos na infância aumentam o risco desse cancro na idade adulta. Em qualquer ocasião, as orientações da Liga Portuguesa Contra o Cancro não devem ser desvalorizadas. Evitar a exposição excessiva ao sol e as queimaduras solares, sobretudo nas crianças. Evitar o sol entre o meio-dia e as quatro horas da tarde. Proteger sempre a pele com filtros de índice alto e largo espectro. Consultar imediatamente um médico ao notar algum sinal suspeito ou uma ferida que não cicatriza.

“O melanoma cutâneo, tumor maligno dos melanócitos, corresponde de 5 a 10% das neoplasias malignas da pele. Apesar da baixa frequência relativa, é o tumor que mais contribui para a mortalidade por cancro de pele (75 a 90% das mortes) e tem aumentado de incidência e mortalidade em todo o mundo”, refere a responsável.

As crianças não devem expor-se à radiação solar no período entre as 12 e as 16 horas em qualquer estação do ano, seja na praia ou na neve.

A alteração das dimensões, forma e coloração de um sinal no corpo não deve passar em branco. “O melanoma pode aparecer em qualquer parte do corpo, mesmo em áreas não expostas ao sol, como as palmas das mãos e plantas dos pés”, avisa Maria José Passos. Geralmente, não há sintomas na fase inicial da doença. “O doente pode apenas descobrir uma nova lesão cutânea ou notar a transformação de um sinal (nevo) já existente, com eventual prurido (comichão) e/ou hemorragia e, nessa altura, deve procurar o seu médico assistente ou um dermatologista.”

Qualquer pessoa está suscetível ao melanoma que afeta, sobretudo, população adulta com 50 ou mais anos de idade. É mais frequente nas mulheres do que nos homens. Nas mulheres, surge mais na cara, pescoço e membros inferiores. Nos homens, sobretudo nas costas, peito e tronco. E muita atenção às crianças. “As crianças são mais sensíveis que os adultos e, por isso, deve haver muito cuidado com o sol.”

“As pessoas de pele clara, com muitas sardas, ruivas ou louras, de olhos claros, nevos atípicos, com história de exposição solar intensa e intermitente (escaldões), sobretudo na infância, têm um maior risco de desenvolver melanoma. É importante salientar ainda a importância dos antecedentes pessoais e familiares de cancro cutâneo, incluindo o melanoma”, sublinha a presidente do IGPM.

Todos os anos, surgem mais de 1000 novos casos de melanoma em Portugal e a incidência continua a aumentar por causa da desvalorização dos perigos da exposição solar.

Clinicamente há diferenças morfológicas que ajudam a distinguir as lesões cutâneas suspeitas. Como a assimetria, o bordo irregular, a coloração castanha escura ou negra que sugere a transformação em melanoma, um diâmetro acima de 6 milímetros que pode corresponder a malignidade. E a evolução, ou seja, quando o sinal suspeito aumenta de tamanho, altera a sua forma, muda de cor ou aspeto, ou cresce numa área de pele que antes estava normal.

As lesões devem ser excisadas e analisadas para ser feito o diagnóstico. “Se for efetuado na fase inicial da doença, cura-se, na maior parte dos casos, com cirurgia, removendo a lesão tumoral na totalidade. Pelo contrário, se for diagnosticado em fase avançada, o melanoma torna-se agressivo e pode ser fatal, pois tem a capacidade de metastizar por via linfática e hematogénica, atingindo órgãos nobres”, diz a presidente do IGPM.

Nos casos mais graves, o tratamento depende de múltiplos fatores, como idade, estado geral, volume tumoral, número e localização das metástases. “Graças aos avanços da biologia molecular e imunologia, dispomos de novos fármacos inovadores com diferentes mecanismos de ação que se revelaram mais eficazes – imunoterapia e tratamentos alvo – na prática clínica com aumento significativo da sobrevivência global, melhor tolerância e respostas clínicas duradouras”, revela.