As mulheres da comédia stand-up em Portugal

Texto de Maria João Monteiro

É uma arte despida de artifícios e sem rede de segurança. Não há cenário, figurinos, som ou luzes, nem “quarta parede” que separe ficção e realidade. Na stand-up comedy, uns e outros estão olhos nos olhos naquele que é possivelmente o estado mais vulnerável da comédia. O comediante apresenta-se de pé num bar ou clube e desfia um texto original, inspirado no quotidiano e na atualidade. Para fazer rir.

Ao contrário de países como os Estados Unidos da América, onde a tradição do stand-up remonta ao início do século XX, em Portugal esse registo apenas ganhou força em 2003, aquando da estreia do “Levanta-te e Ri”. O programa, transmitido em direto pela SIC e que em outubro terá, no Coliseu dos Recreios, uma emissão especial para assinalar o 15.º aniversário, contava com nomes emergentes e conhecidos da comédia portuguesa e era gravado por todo o país.

Após 120 episódios, o “Levanta-te e Ri” chegou ao fim em 2006, sem conseguir lugar cativo para o género, mas evidenciando uma tendência que ainda hoje se manifesta – a comédia como mundo de acesso reservado a um punhado de nomes sonantes e habitado, na sua larga maioria, por homens.

E se “comediante” é uma palavra que não tem género em português, há cada vez mais mulheres a mostrar que a comédia também não. Atuam em noites de “open mic”, abertas a qualquer pessoa, ou, por convite, no alinhamento de colegas. Em palco, agarram no texto que escreveram para fazer um bom “bit”, uma entre as várias atuações que compõem um espetáculo e que têm em média 15 minutos.

Umas falam sobre amor, sexo, trabalho e família; outras escrutinam a atualidade política e social. Umas dão voz às suas peripécias, o chamado “storytelling”, outras preferem a brevidade dos “one-liners”, piadas feitas com uma ou duas frases. Todas com um objetivo: uma triunfal “punchline”, a conclusão da piada que deverá fazer rebentar o riso.

Beatriz Magano – 22 anos, Porto

Artur Machado/Global Imagens

Ser atriz não é fácil, mas, quando fez stand-up, Beatriz Magano quis desafiar as possibilidades em dose dupla. Foi durante o curso de Teatro na ACE Famalicão que saiu da personagem para ser ela própria em palco. “Como atriz, decoro o texto, repito-o e, à partida, sai bem”, conta. “No stand-up, só sei se a piada funciona no dia.”

Para se inspirar, basta sair à rua, entrar no metro e ver a vida a acontecer. “Costumo imaginar o que a pessoa que está sentada ao meu lado está a pensar”, admite, notando que “é da forma como se observa o comum que nasce uma boa piada”.

A dificuldade em fazer nome nesta área é geral, “porque o público português não está habituado a ver stand-up”. Ser comediante e mulher é uma tarefa hercúlea, porque “é incutida a ideia de que a mulher não pode dizer certas coisas”.

A pressão da sociedade leva a que as mulheres se retraiam no humor, diz Beatriz. “Uma mulher não gosta de dizer que deu um pu”, exemplifica, “ao passo que um homem diz ‘Dei um pu, agora cheira aí’”.

Beatriz Magano é novata no stand-up, mas já atuou no programa Pi100Pé, de Fernando Rocha, e no palco Comédia do MEO Marés Vivas. “Há quem faça stand-up e tenha outra profissão. Eu tenho dois lados artísticos e tento gerir.”

Joana Santos – 26 anos, Porto

As paixões de Joana não podiam ser mais diferentes. “Ninguém está à espera que um médico tenha piada”, mas os dois mundos não são completamente opostos. “Tanto o humor como a medicina tratam de pessoas.”

Aos 16 anos, concorreu ao “Cómicos de Garagem”, programa da Antena 3 que procurava os novos humoristas nacionais. Na final, atuou no palco do Teatro São Luiz, em Lisboa. “É aterrorizador antes de entrar, mas depois é viciante.”

Nos últimos anos, a par da formação profissional, participa em noites de stand-up com interregnos menores ou maiores. Atualmente, está a tirar a especialidade em anatomia patológica, área que equipara ao humor pela “capacidade de observação necessária”.

Os bits de Joana focam-se nos “pequenos dramas” da rotina. Sempre com a ideia de desconstruir o provérbio “muito riso, pouco siso”. “Uma pessoa pode ser séria e fazer bem o seu trabalho e ter sentido de humor.”

As baixas expectativas do público acabam, por norma, em feedback positivo. Mas o desdém embrulhado em elogio não se esquece. “Já me disseram ‘o teu texto é muito bom, para mulher’, e tu pensas ‘mas, então, estou a competir numa liga diferente?’”.

A medicina é fonte de estabilidade, mas é no humor que vive a imaginação – e a saúde de um é a saúde do outro.

Bruna Cunha – 24 anos, Ermesinde

Foi preciso um desvio pelo curso de jornalismo e uma tese de mestrado sobre humor negro para Bruna lembrar um amor antigo. “A ideia de alguém estar em palco completamente vulnerável fascinava-me e aterrorizava-me”, confessa.

Além de fazer um curso de stand-up, assistiu a vários espetáculos e tirou notas mentais sobre o que via. “Nunca tive coragem de pedir para fazer cinco minutos”, diz a gestora de projetos, que assina a veia humorística como BuWho. O empurrão para calar o medo veio com o convite para integrar o grupo de comédia Q’Irritantes.

BuWho dá corpo ao seu subconsciente em palco e recorre às palavras como catarse da memória. “Falo do bullying que sofri na preparatória”, conta. Além do texto, ancora-se na expressividade de certos traços físicos para construir “um humor muito corporal”.

A fisicalidade do registo e a luta pela credibilidade levam Bruna a pensar duas vezes no que vestir para ir atuar. “Já pensei ‘até podia pôr um batom’, mas não ponho, porque pode distrair do ‘boneco’ que construo”.

No grupo Q’Irritantes, diferencia-se por ser a única mulher entre cinco homens “Eles olham para mim como comediante e não como a mulher-comediante”, reitera. “Gostava de ouvir isso do público um dia.”

Rita Leitão – 36 anos, Pombal

Também Rita já teve audiências hesitantes ao vê-la pegar no microfone, mas vem notando que a reticência do público começa a virar curiosidade. “Já me disseram ‘eu vim de propósito por ser uma rapariga’.”

A história de Rita Leitão no stand-up é singular. Quando se inicIou em palco, em 2011, foi atirada aos leões – numa cidade onde mais ninguém fazia stand-up, atuava durante uma hora em vez dos habituais 15 minutos “Há humoristas que só fazem o primeiro especial de uma hora passados anos”, diz. “Aqui [Pombal] nenhum bar me vai contratar por 15 minutos.”

O que começou por ser uma prova de resistência acabou por se tornar uma mais-valia para Rita, que hoje atua também em casamentos, batizados e romarias. “Fui acumulando material e desenvolvi um estilo mais ‘family-friendly’”, que utiliza para falar, por exemplo, sobre peripécias do lar de idosos onde trabalha como animadora sociocultural.

É habitual começar no humor sem receber. Em sete anos, a vida da humorista não mudou muito, à parte de mais atuações, mas hoje é paga. “Se contratarem um DJ, também têm que lhe pagar”, atira. “Esta é só outra forma de entretenimento.”

Joana Gama – 31 anos, Lisboa

Joana Gama tem o coração dividido entre a rádio e a comédia há dez anos, altura em que fez um workshop de stand-up. A partir daí, a comédia tornou-se uma aventura feita de partidas e chegadas, secundária à locução. “No stand-up, posso ser mais crua na forma como passo as mensagens”, diz.

E esse desvio de liberdade permite criar “uma imagem onde cabem todas as Joanas”, como “a Joana irritada, a Joana mãe, a Joana responsável, a Joana inteligente”, facetas ocultas no trabalho em rádio ou televisão.

Ganhar o respeito da comunidade exige continuidade e fazer uma pausa significa começar quase do zero. “Para ganhar alguma estaleca, tenho que ter rodagem”, afirma, designando o ato de testar material novo em vários palcos. “O cachê vem depois.”

Joana Gama admite que nunca se viu limitada por ser mulher num mundo de homens. “Não levo essa bagagem comigo e, assim, tiro a etiqueta do sexo fraco”, assinala.

Para Joana, o stand-up em Portugal precisa de passar ao próximo nível para gerar maior interesse. “Precisamos de comediantes que já não estejam a experimentar, mas que pensem produtos com pés e cabeça”, aponta. “Com essa dinâmica, haverá mais espaços a receber espetáculos. É uma evolução natural.”

Catarina Matos – 38 anos, Lisboa

Começou no stand-up no Brasil, para onde emigrou em 2012, mas tem acumulado experiência em palcos nacionais e internacionais. Catarina Matos, psicóloga, publicitária, tradutora e humorista, quer dar voz às novas vozes do humor português no Roterdão Club, no Cais do Sodré. “Será uma noite informal mais para quem está a começar”, revela sobre o projeto que deverá arrancar no outono.

Foi, precisamente, no palco de outro artista que Catarina se lançou. Antes de chegar a São Paulo, enviou um texto para Daniel Duncan e, pouco depois, estava a fazer cinco minutos em duas atuações do comediante brasileiro. “A melhor forma de entrar no circuito da comédia é ver espetáculos e no fim trocar ideias com os comediantes.”

Quando se profissionalizou, quis promover noites de “open mic” para retribuir a ajuda que teve num contexto especialmente duro. “Há quem passe um dia inteiro num autocarro para atuar cinco minutos à noite, em São Paulo”, conta.

Para o humor, trouxe da psicologia “a curiosidade pela natureza humana” e da publicidade “a capacidade de escrever de forma resumida”. Quando sobe ao palco, o único limite que se impõe é ser ela própria. “O meu material é ‘limpo’, porque não digo palavrões no dia-a-dia.”

Depois de passar por programas como “Maluco Beleza” e “5 para a meia-noite” e de ter atuado no célebre canal de comédia “Comedy Central”, Catarina Matos quer apostar nos espetáculos em inglês em Lisboa e no Porto.

Inês Conde – 39 anos, Leiria

A palavra sempre foi a matéria-prima de Inês e o humor presença assídua na sua vida. A professora de ensino secundário e superior, formada em línguas e literaturas, tem uma audiência exigente todos os dias. “Estou habituada a encontrar estratégias para suscitar e manter o interesse”, afirma.

Depois de um curso de iniciação, teve a primeira atuação, que a deixou “simultaneamente esgotada e num estado de transe”. Desde aí, a “aspirante a comediante” agarra o microfone sempre que pode para expor a sua visão do mundo.

E, se leva pouco tempo no stand-up, nota a dificuldade de conciliar a vida na sala de aula, no palco, e na maternidade, ocupação a tempo inteiro nos últimos meses.

Como mãe de um menino, lida diariamente com o sexismo em discursos aparentemente inofensivos. “’Vai ser um terrorista’, dizem uns, ‘vai ser um pirata’, acrescentam outros”, aponta Inês. “Eu gostava que ele aprendesse a rir-se de si mesmo.”

Inês Conde quer combater as construções culturais e sociais de género. “Decerto haverá mulheres e homens que não têm piada, como há mulheres e homens que não gostam de ananás.”