OPINIÃO

As maçãs podres e os ramos que as sustentam

A ideia de que os escuteiros são meninos vestidos de parvos comandados por parvos vestidos de meninos é falsa. Ali eu aprendi a pensar pela minha cabeça.

Esta história aconteceu há mais de 20 anos, quando chegou a uma paróquia nos arredores de Sintra um padre jovem e desempoeirado, com ideias novas e uma energia contagiante. Durante anos, aquela igreja fora liderada por um velhote bondoso mas resmungão. E a reforma desse sacerdote trouxe àquela povoação uma inevitável lufada de ar fresco. Tocava-se guitarra e batiam-se palmas na missa, organizavam-se novos grupos de jovens e de adultos, até houve obras de ampliação do centro paroquial.

Tenho uma circunstância que é partilhada com muita gente da minha geração: apesar de não me identificar hoje com nenhuma religião em particular, fui educado católico. Fui, sobretudo, educado escuteiro – e dessa experiência guardarei sempre lições valiosas. Aquela ideia de que os escuteiros são meninos vestidos de parvos comandados por parvos vestidos de meninos é absolutamente falsa. Com os escuteiros aprendi a desenrascar-me e a trabalhar em equipa, a mergulhar na natureza e a pensar pela minha cabeça.

Quando alguém critica os escuteiros fá-lo normalmente por dois motivos: a religião e a hierarquia. É verdade que íamos à missa. E é verdade que obedecíamos aos chefes, mas também não me parece que um bando de miúdos de 10 anos possa ir para o mato sem seguir as regras dos adultos. Às vezes contestávamos a hierarquia. Não gratuitamente, mas quando sentíamos alguma injustiça.

Foi o que aconteceu uns meses depois da chegada do novo padre. Ele tinha-se tornado uma figura consensual na paróquia, mas um grupo de nós desconfiou da maneira como exibia sinais exteriores de riqueza. Roupas de marca, relógios caros, carros topo de gama. Um dia, quando ele falava das lições de São Francisco, alguém o confrontou com a incoerência. A partir daí, o caldo ficou entornado.

Rodeando-se de um grupo de chefes obedientes à estrutura de poder, o padre começou uma campanha para eliminar aquilo que chamava de «as maçãs podres». Não éramos, na sua opinião, suficientemente religiosos. Nem éramos seguidores cegos da hierarquia. Num dos piores gestos da condição humana que me foram dados a ver, o padre e os chefes que lhe diziam sim a tudo suspenderam os escuteiros mais velhos que o tinham confrontado. Depois suspenderam também os mais novos, por se terem solidarizado com os demais. Meia centena de miúdos foi expulsa daquele agrupamento por ousarem enfrentar tão consensual figura.

Lembrei-me desta história esta semana. Lembrei-me porque desconfio sempre das figuras que se tornam admiradas por todos e depois vêm apregoar a necessidade de eliminar as maçãs podres. Na maioria das vezes as maçãs podres são, apenas e só, quem não se deslumbra com o consenso à sua volta. Imaginem que em vez de um padre era o presidente de um clube. Imaginem que em vez dos paroquianos eram os adeptos a reconhecer-lhe energia e talento. E imaginem que ele acabaria por ganhar tamanha altivez que não admitiria contestação. No início deste ano, o tal padre consensual acabou por cair: foi constituído como único arguido num caso de roubo de arte sacra numa igreja lisboeta. E eu fico aqui a pensar que estas pessoas, as verdadeiras maçãs podres, só conseguem chegar ao seu Olimpo com a cumplicidade de uma hierarquia obediente. Podres, mais do que as maçãs, são os ramos que as sustentam.