OPINIÃO

As árvores das patacas

Os plátanos são agora da altura do espaço e caminham para o infinito, tal como a crença de que encontramos alguma felicidade duradoura nas moedas de cinco escudos que vão colocando como engodo à nossa frente. Apesar de toda a magia da infância, há alturas em que convém chegar à idade da razão.

O meu tio Zé, como consequência da minha lentidão a comer, castigava-me obrigando-me a ver hortaliças. As mercearias da rua tinham sempre cebolas e alhos pendurados e ele parava em frente deles e ficava ali, como uma estátua.

Eu, que abominava chegar atrasado, ficava em pânico. Tentava dissuadi-lo e fazê-lo seguir viagem para a escola, mas em vão. Se não tivesse comido com eficiência ao almoço, sofria esta agonia, a de ficar a contemplar as cebolas. Era o seu castigo.

Outra coisa que ele fazia, quando me levava à escola, era fingir que tirava moedas das árvores. Chegava ao pé dos plátanos da Rua Dom Jerónimo Osório e estendia a sua mão, retirando do tronco umas moedas de cinco escudos. Eu imitava-o, procurando aqueles pequenos tesouros, mas o meu tio dizia-me que as moedas só nasciam nas partes mais altas, naquelas onde ele chegava e eu não. O meu tio chamava a estes plátanos «árvores das patacas».

Assim, com seis anos, vi-me confrontado com uma das situações que acompanham e assombram a vida adulta: o desejo de bens materiais que estão fora do nosso alcance e que, em última instância, são uma ilusão ou prestidigitação, moedas de cinco escudos que de facto não nos fazem verdadeira falta, mas que, apesar disso, desejamos febrilmente.

Hoje, sento-me à mesa e como com rapidez, talvez até demasiada, mas não quer dizer que muitas vezes não seja obrigado, pelas circunstâncias da vida, a ter de olhar para cebolas e ver-me assim impedido de cumprir um dever ou um desejo. Nessas alturas, sinto a figura do meu tio, mãos atrás das costas, imperturbável, a olhar para as mesmas hortaliças a que fui condenado.

Em relação às árvores das patacas, o caso é mais dramático. Seria de esperar que depois de sabermos como funciona o truque de magia, o ilusionismo deixasse de ter interesse. Mas parece que certas magias não cessam de impressionar e de fazer as pessoas esticar os braços para encontrar moedas de cinco escudos em troncos de árvores.

Há pouco li uma notícia, divulgada pela Popular Mechanics, que a agência espacial russa pretende criar um hotel no espaço destinado a milionários, permitindo-lhes passar uma ou duas semanas num cubículo em órbita, pagando apenas quarenta milhões de dólares por pessoa.

Os plátanos são agora da altura do espaço e caminham para o infinito, tal como a crença de que encontramos alguma felicidade duradoura nas moedas de cinco escudos que vão colocando como engodo à nossa frente. Apesar de toda a magia da infância, há alturas em que convém chegar à idade da razão.