“Ao menos, obriguem a ler o Chagas Freitas ou o José Rodrigues dos Santos”

Notícias Magazine

Esta semana, nas entrevistas que nunca fiz, tenho comigo, de corpo e alma, quer dizer, mais alma do que corpo, o grande escritor português, Eça de Queiroz. Olá, Eça, antes de mais, obrigado por estar aqui hoje.
O prazer é todo meu. Sempre que posso interrompo o meu sono eterno, acho que faz bem aos ossos.

Não sei se sabe mas, recentemente, houve alguma polémica por causa de uma obra sua.
Ui, não me diga que foi outra vez com o “O Crime do Padre Amaro”. Em pleno século XXI e ainda há quem tenha problemas por um padre ter relações com uma senhora. Pelo menos, sempre é melhor do que um bispo com crianças, não é?!

Ilustração: Marco Mendes

Não, desta vez, não foi por causa d’O Crime do Padre Amaro. A polémica foi por “Os Maias” terem deixado de ser de leitura obrigatória no ensino secundário.
Acho muito bem. É só o que faltava as pessoas terem que ler um livro meu porque foram obrigadas. Os Maias é para o leitor ler por prazer. Se querem obrigar as pessoas a ler livros, ao menos, obriguem a ler o Chagas Freitas ou o José Rodrigues dos Santos, que são o tipo de autores que só mesmo com uma pistola apontada à cabeça é que eu era capaz de ler.

Confesso que, no meu tempo do ensino secundário, era obrigatório, e custou-me um bocadinho. Adormeci mais vezes a ler a descrição do Ramalhete do que a ver a programação da RTP2.
Percebo-o. Eu próprio adormeci várias vezes enquanto escrevia aquilo. Aliás, sempre que estava com insónias, ia escrever mais um bocadinho da descrição do Ramalhete e era tiro e queda.

Não sei se sabe que, agora, o Palácio do Ramalhete é habitado pela Madonna.
Pois, ouvi dizer. Ainda bem. Aposto que se agora fosse descrever o Ramalhete ia ser bem mais divertido. Não acredito que ainda seja um “sombrio casarão de paredes severas, com um renque de estreitas varandas de ferro no primeiro andar, e por cima uma tímida fila de janelinhas abrigadas à beira do telhado, tinha o aspeto tristonho de Residência Eclesiástica que competia a uma edificação do reinado da Sr.ª D. Maria…”

ZZZZZZZZZZZZ
Pronto, adormeceu. Nunca falha. Vou só roubar-lhe a carteira e sair de fininho. Mas sem pressa, que a vida não deve ser levada com pressas, até porque, hoje em dia, não adianta ir a correr para apanhar um transporte público porque eles estão sempre atrasados.