OPINIÃO

O anel do comandante

Os dias avançam colados uns aos outros, outras vezes solitários, um de cada vez. Deixam objectos por todo o lado. No corpo, dentro da cabeça, numa esquina, num continente inteiro, em armários de madeira e fundos de gaveta. Mas no fim da vida, por cima do pó dos anos, sob as asas secas das traças, há sempre a coisa mais querida. Pode até valer pouco no mercado, mas é a memória mais preciosa que temos. Se a roubam, sobra-nos o quê?

Na sentença, o juiz lembrou a Paulo:

– Não desrespeitando o tribunal, a senhora Fernanda disse: porra, tinham logo de ser estes!

Uma semana antes, Paulo viera a julgamento num blusão de camuflado verde, fardamento correcto: contratado para arranjar as tomadas eléctricas da dona Fernanda, Paulo revelou-se um ladrão. Na caixa de ferramentas desapareceram medalhas militares, moedas de prata, esculturas de deusas do mar africanas, uma boneca de porcelana chinesa, um pescador com rede de marfim, a ilha de Timor esculpida em pau-preto. E os dois anéis de ouro, símbolos de uma vida, justificação da existência, o estojo onde Fernanda guardava a sua alma peregrina. Viúva de um comandante da Marinha, senhora de 95 anos. Quando apresentava a tragédia na esquadra, o polícia mostrou-lhe uma foto de Paulo:

– Foi este que a senhora lá pôs em casa? Ó dona Fernanda!…

Magro como um maratonista, calçado de borracha, Paulo vendeu barato os anéis a um prestamista dos Olivais que estava a ser vigiado pela polícia. Por um anel que valia mais de mil euros deu pouco mais de cem. Paulo coxeava agora na confissão:

– A única coisa que levei, e do qual me arrependo bastante, foi os anéis em ouro. Os outros objectos nem os vi. A minha vida estava muito complicada, separado da minha esposa. O dinheiro era para o seguro do carro para ir buscar o meu filho para o fim-de-semana…

Em casa da dona Fernanda nada tinha chave. No primeiro dia, disse Paulo, aguentou-se e não levou nada. No segundo, começou a levantar roupas, a desviar livros. Não roubou tudo, para não criar suspeita deixou alguns anéis no sítio.

– Eu falhei e estou arrependido.

– Que o senhor falhou já sabemos! Mas a senhora não lhe falhou nada?

– Eu falhei. A senhora, devido à minha situação, até me dava o pequeno-almoço.

– Até lhe dava o pequeno-almoço… Nunca foi falar com a senhora? Não lhe pediu desculpa?

– Senti-me com muita vergonha por aquilo que fiz.

A dona Fernanda não olhou Paulo ao entrar na sala. De ténis, pernas de fio de cobre, cabelo à tigela dos anos 20 do século anterior, pele curtida em viagens navais pelo império português.

– Que idade tinha o seu marido quando morreu?

– Foi há cinco anos. Tinha 95.

– Sim, sim, 95, a idade do meu avô…, engasgou-se o juiz.

Dona Fernanda, a jovem – “Eu só fiquei viúva aos 90 anos” -, olhava para as fotos no processo, o pescador de marfim recolado – “Eu tinha uma empregada que me partia aquilo tudo quando limpava. Levava para casa, o filho colava” -, a boneca rachada, a ilha de Timor em pau-preto que o marido emprestara para a Expo 98. Falava alto, explicava a angústia das horas a esvaziar gavetas até perceber a verdade. [O retrato do comandante a olhá-la, sério e medalhado].

– Olhe, fiquei que até estou surda! Eu não tive aliança de casamento, foi em Macau que ele me comprou aquele anel, um dois-em-um. Porra, desculpe a expressão, tinha que ser logo aquele anel! Tinham que ser logo aqueles dois anéis! O homem parecia que estava ensinado!

O dela, de seis brilhantes. O anel do comandante, um solitário de ouro branco e amarelo com diamante ao centro. Dona Fernanda apontava as fotos, apaixonada.

– O anel do meu marido, que era do avô dele… O anel que foi a última coisa que lhe tirei do dedo há cinco anos, quando faleceu. Eu já nem queria mais nada. Eu só andava maluca era por causa do anel do meu marido!

Paulo foi condenado a 1650 euros por danos patrimoniais e a 1080 euros ou 120 dias de prisão, pelos danos morais. E os anéis voltarão aos dedos de um mundo que ainda não desapareceu.

O autor escreve de acordo com a anterior ortografia.