OPINIÃO

André Gago: «A vida seria um absurdo sem os poetas»

«O tempo não passa pela amizade quando esta é real. Temos de ver‑nos mais, de nos libertarmos das nossas bolhas virtuais e estabelecermos um contacto real. Sentirmo‑nos vivos enquanto estamos. Temos de rir, comer, beber e chorar juntos.» As partidas custam e as saudades são imensas. «A noção da morte abre perspetivas diferentes», diz.

Texto de Sara Dias Oliveira | Fotografia de José Carlos Pratas/Global Imagens

Vai encontrando formas de expressar a arte que lhe vem de dentro e, pelo caminho, tem ‑se cruzado com o teatro, o cinema, a televisão, a literatura. Ator, encenador, escritor, diseur. A vida tem‑lhe mostrado que o tempo tem várias cambiantes e que a expressão carpe diem, a frase em latim de um poema de Horácio, está cheia de sentido. Há que aproveitar o momento. «O tempo passa e isso torna‑se mais profundo.»

«O tempo não é um fator linear, não evolui para coisa nenhuma, a não ser a morte. Tudo o resto depende de nós», diz. Contudo, e apesar dos ponteiros do relógio não pararem, a idade não é um somatório de anos. «Quanto mais envelhecemos, mais jovens de espírito, mais abertos, mais permeáveis.»

As partidas custam e as saudades são imensas. «A noção da morte abre perspetivas diferentes», diz.

E com mais vontade de aproveitar os amigos, o que realmente importa. «O tempo não passa pela amizade quando esta é real. Temos de ver‑nos mais, de nos libertarmos das nossas bolhas virtuais e estabelecermos um contacto real. Sentirmo‑nos vivos enquanto estamos. Temos de rir, comer, beber e chorar juntos.» As partidas custam e as saudades são imensas. «A noção da morte abre perspetivas diferentes», diz.

Tal como o tempo, a poesia, que um dia lhe invadiu a alma e nunca mais saiu, também não é linear. «A lição da poesia é tão evidente. Vivemos num tempo em que a palavra perdeu valor. E a palavra tem o poder de restituir o próprio poder à linguagem.» As palavras nomeiam coisas e projetos poéticos surgem. Como a «Flor de Lácio» em que diz poesia portuguesa em concerto.

Ou The Beat Hotel Band em que junta poesia da beat generation com rock e um pouco de blues e jazz – e que está de regresso à estrada com os músicos André Sousa Machado, Edgar Caramelo, Fausto Ferreira, Pedro Blanc e Tiago Inuit. Há também poesia nas suas colaborações com a Lisbon Poetry Orchestra.

E mais poesia que recita nas primeiras terças‑feiras de cada mês na Tasca Bela, na porta 190, da Rua dos Remédios, em Alfama, às dez da noite. «A vida seria um absurdo sem os poetas», resume.

Uma vida em números

2001 – FILME
Odisseia no Espaço. O filme da sua vida e que viu vezes sem conta.

222 – NÚMEROS
«É um número mágico, um número em que tropeço por mera casualidade. Ando a fazer um registo de todos os acontecimentos que remetem para esse número.» Um número singular, um número que também lhe lembra a EN222, entre a Régua e o Pinhão, ao longo do Douro. «Um dos troços de estrada mais bonitos.»

2001
Ano em que a sua filha nasceu. E tudo mudou.

17.03.2018 – CONCERTO
Dia em que The Beat Hotel Band regressa à estrada. Toca no Teatro Municipal de Vila Real, às 21h30.